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O que o mercado de 1972 nos diz sobre hoje?

Um livro de 50 anos que permanece atual

Matheus Soares

Por Matheus Soares

21 Jan 2026 14h06 - atualizado em 21 Jan 2026 02h08

Recentemente, comecei a ler o livro A Hundred to One in the Stock Market, escrito em 1972 pelo Thomas Phelps – que iniciou sua trajetória como colunista do The Wall Street Journal em 1927 à beira do crash de 1929 e se tornou investidor ao longo de sua carreira de 40 anos no mundo dos investimentos. Ao longo do livro, ele analisa o que fez com que algumas das grandes empresas de seu tempo se tornassem investimentos tão extraordinários para o investidor paciente e de longo prazo.

Logo nas primeiras páginas, Phelps apresenta diversos exemplos de empresas que se multiplicaram por 100 vezes entre as décadas de 1930 e 1940 até o início dos anos 1970. A tese central dele é simples: para multiplicar o capital cem vezes com uma única ação, é preciso investir em grandes oportunidades, muitas vezes ignoradas pelo mercado, e manter esse investimento por um longo período de tempo

Estou só no começo do livro, mas logo no início um trecho em especial me chamou a atenção e imediatamente me remeteu aos dias atuais. Phelps comenta a forte queda das bolsas americanas no final do verão de 1938, já sob a sombra da Segunda Guerra Mundial.

Na época, ele era colunista financeiro e chegou a escrever, em setembro de 1937, um artigo prevendo a tendência de baixa do mercado. Na época, a explicação oficial era que havia aperto monetário, controles de crédito, intervenção do governo e inflação. Tudo isso parecia razoável e satisfazia quem precisava de uma narrativa rápida.

Mas, como quase sempre acontece no mercado, havia duas explicações. A confortável e a verdadeira. E a verdadeira era que o mundo estava caminhando para a Segunda Guerra Mundial. E ele, de fato, acertou. O mercado caiu – e só voltaria àquele nível mais de sete anos depois, em 1945.

Mas o ponto interessante que ele colocou é que em vez de se orgulhar por ter previsto a queda, em 1972 – data que o livro foi lançado – ele reconhece que teria sido muito melhor investidor se tivesse usado aqueles anos para estudar quais empresas poderia ter comprado e que, décadas depois, multiplicariam o capital por 100 vezes.

A partir daí, ele faz uma reflexão profunda sobre os investidores profissionais: o fascínio pelo market timing e o custo invisível de tentar prever o mercado. Phelps diz que mesmo quando o “especialista” acerta a direção do mercado, raramente consegue convencer outras pessoas a agir. Afinal, ninguém quer comprar quando o noticiário é assustador – e ninguém quer vender quando o otimismo é generalizado.

Não é à toa que os topos de mercado acontecem quando a grande maioria acredita que os preços continuarão subindo e os fundos acontecem quando a maioria tem certeza de que ainda vão cair mais. Bull e bear markets são, em grande parte, manifestações de psicologia de massa. E contra isso, nenhuma previsão funciona de forma consistente.

Por isso, diz Phelps, o investidor verdadeiramente sábio deveria concentrar seus esforços selecionando ações e não tentando prever o próximo movimento do mercado. A decisão sobre qual empresa comprar tende a ser muito menos emocional – e muito mais racional – do que tentar adivinhar se o mercado vai subir ou cair nos próximos meses.

No fim das contas, ele conclui algo simples: muito mais dinheiro é feito com stock picking do que com bom market timing.

Essa passagem me marcou porque ela continua absurdamente atual.

Hoje, o mercado discute juros, eleições, guerras, inflação, recessão, pouso suave, pouso forçado – sempre existe um motivo plausível para esperar “mais um pouco”. Mas a história mostra que os grandes retornos não nasceram da capacidade de prever o caos, mas da disciplina de estudar bons negócios enquanto o caos acontecia.

E, para fechar, deixo aqui um parágrafo do livro que, apesar de ter sido escrito em 1972, poderia perfeitamente ter sido publicado ontem.

“Poucos investidores, sejam privados ou profissionais, buscam a grande oportunidade. Eles se concentram em oportunidades de ganhar cinco pontos aqui e dez pontos ali. Correm para comprar com base em informações de que os lucros do próximo trimestre mostrarão um bom crescimento, ou para vender porque ouvem que os ganhos desaceleraram.”

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Matheus Soares
Por Matheus Soares

Fundador do Market Makers, analista responsável pela Carteira Market Makers de Ações. Antes de fundar o MMakers, foi analista responsável pela cobertura de Small Caps na XP Inc e analista fundamentalista da Rico Investimentos. Certificado no curso de Value Investing da Columbia Business School.

matheus.soares@mmakers.com.br