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3° turno da República de Bananas

Cláudio Coppola, da R&C, calcula probabilidade de 20% de Bolsonaro pedir recontagem após segundo turno acirrado contra Lula

Por Renato Santiago

10 ago 2022 14h47 - atualizado em 10 ago 2022 03h10

O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) prevê para este ano uma eleição presidencial em dois turnos. Se nenhum candidato conseguir superar a soma de todos os outros no primeiro, os dois mais votados se enfrentam em segundo turno para decidir quem veste a faixa verde e amarela em janeiro.

É o que está previsto nas regras e vem acontecendo ininterruptamente desde 1989, a cada quatro anos.

Mas em 2022 as coisas estão um pouco diferentes. Existe um clima mais sinistro no ar, que faz a expressão “festa da democracia” parecer piada, ao mesmo tempo que motiva alguns na Faria Lima (que não são quaisquer uns, diga-se de passagem) a precificar e se posicionar para um possível terceiro turno presidencial.

Aos fatos

Desde o ano passado o presidente Jair Bolsonaro vem em uma cruzada contra a urna eletrônica e os ministros do STF (Supremo Tribunal Federal). Em uma campanha contra o sistema que o elegeu para o Congresso e o Planalto, disse que as urnas foram hackeadas em 2018, que são inauditáveis, que nomes de candidatos poderiam ser excluídos, entre outras alegações.

No meio deste processo, tentou passar emenda constitucional do voto impresso, xingou os ministros do STF e TSE Alexandre de Moraes (“canalha”), Luis Roberto Barroso (filho da p****) e Edson Fachin (“marxista-leninista”), e promoveu um inusitado evento com embaixadores no qual tentou, sem sucesso, chamar atenção da comunidade internacional para as supostas fraudes.

Enquanto isso, seu ministro da Defesa, o general Paulo Sérgio Nogueira, pede para “sentar à mesa” com o TSE e avaliar as urnas, recebendo a resposta, de Fachin, de que eleições são coisas de forças desarmadas.

Lembrando aqui nossos 8 leitores que esses são fatos (com um ou dois adjetivos, mas fatos).

Tudo isso aconteceu nos últimos 12 meses e serviu para a Faria Lima pensar: talvez o presidente não aceite facilmente uma derrota nas eleições (que é o cenário mais comum nas pesquisas eleitorais hoje), e se uma vitória do ex-presidente Lula acontecer, podemos ter uma disputa judicial, recontagem de votos e até uma ruptura.

Coppola

No 6º episódio do Market Makers, Cláudio Coppola, o gestor-trader de rentabilidade de 750.000% em 17 anos, foi o primeiro a falar disso abertamente.

“Pode haver o terceiro turno que nunca houve. O Bolsonaro não colocou o [general] Braga Neto como vice à toa, ele é um cara fechado com o Exército por todas as bases”, afirma Coppola. “Não é o que eu desejo, nem estou torcendo, mas não posso ignorar. No meu cenário, existe 20% de chances de isso acontecer”, completa.

Quanto mais acirrada for a disputa, mais provável se torna esse terceiro turno — e parece que esse é o cenário que se constrói. Na última pesquisa da FSB, divulgada segunda-feira, Lula caiu de 44% para 41%, enquanto Bolsonaro subiu de 31% para 34%, provavelmente refletindo o aumento do Auxílio Brasil para R$ 600 e a redução do preço da gasolina (74% disseram que a situação econômica do país irá influenciar muito a sua decisão de voto).

E como isso se reflete no portfólio?

“Minha compra em dólar é por que eu acho que a inflação americana não vai cair. O cenário está ruim para o Brasil, o fiscal está ruim. Quem quer que seja o próximo presidente, vai sofrer. Mas o que pode apimentar essa crise é esse cenário 52% a 48% nas eleições dar problema”, resume.

Stuhlberger

O mesmo cenário está no mapa de Luis Stuhlberger, lendário gestor da Verde. Em um evento na semana passada, ele também mostrou que está atento à cada vez maior possibilidade de terceiro turno.

“Não sei precificar dólar, câmbio e bolsa se o Lula ganhar por uma pequena diferença. Tenho dado o hipotético nome de banana republic a uma crise duas a três semanas depois [das eleições]. E o mercado não está preparado para isso”, afirmou. Para o gestor, a pré-campanha está “explosiva”.

Mesmo enxergando o mesmo cenário de Coppola, Stuhlberger revela que não aposta em queda de juros, mas na Bolsa. “A gente tem uma posição relevante na bolsa. No limite, é um ativo real que tem rendimentos nominais. É o melhor lugar para estar”, completa.

Novas visões

Essa visão de eleição em três turnos pode não parecer novidade para quem acompanha os movimentos político-partidário mais de perto, mas na Faria Lima não era a visão predominante, pelo menos até Coppola e Stuhlberger se manifestarem. Até pouco tempo atrás, o que mais escutávamos de gestores é que, apesar do clima polarizado, essa eleição não teria surpresas pois os dois maiores concorrentes já haviam passado uma temporada no Planalto.

Pois bem, parece que era cedo demais para pensar isso e um novo cenário se desenha. Coppola e Stuhlberger já mexeram suas peças.

ps: Você já ouviu falar de DeFi? Sabia que essa é uma indústria que pode chegar aos US$ 15 trilhões, se as perspectivas mais otimistas se confirmarem?

Esse foi o assunto do quarto episódio do Criptoverso, que entrou no ar ontem. Eu e o Renan Sousa, repórter do Seu Dinheiro, conversamos com o David Lawant, diretor de research de uma das maiores gestoras cripto do mundo, que explicou como os ativos digitais podem trazer uma verdadeira e profunda disrupção no mercado bancário e financeiro.

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Por Renato Santiago

Jornalista, co-fundador do canal Market Makers e do Stock Pickers, duas vezes eleito o podcast mais admirado do Brasil. Passou por grandes redações do país, como o jornal Folha de S. Paulo e revista Exame, e atuou na cobertura de diferentes temas, de cotidiano até economia e negócios. Sua missão, hoje, é a de usar sua expertise editorial e habilidades de reportagem para traduzir o mundo das finanças e mercado financeiro ao grande público.

renato.santiago@empiricus.com.br