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4 motivos para não se empolgar com o Brasil

A visão cautelosa de Brasil da Mar Asset

Por Renato Santiago

18 set 2023 14h25 - atualizado em 18 set 2023 02h25

O cenário para o investidor brasileiro parecia muito promissor. Do ponto de vista macroeconômico, a inflação já está praticamente dentro da meta e a taxa básica de juros — que ficou em patamares restritivos por mais de dois anos — começou a cair. Brasília finalmente nos deu um arcabouço fiscal e a autonomia do Banco Central parece estar preservada, pelo menos até segunda ordem. 

Com um panorama assim, a aterrissagem do Brasil, como o mercado gosta de falar, seria suave. Portanto, é só sentar e esperar a bolsa bater os 200 mil pontos, correto?

Mais ou menos. 

De uns dias para cá, parece que o mercado financeiro começou a questionar se podemos mesmo dar como certo esse céu de brigadeiro para o futuro próximo. Afinal, apesar dos mais de 24 meses de juros altos, a ociosidade na economia diminui com consistência, o desemprego cai e o PIB se mostra bastante resiliente, mesmo com a inflação mais baixa. 

Em sua carta de setembro, oportunamente intitulada “Apertem os Cintos”, em alusão à aterrissagem da economia a Mar Asset levanta algumas explicações para esse fenômeno descrito acima. 

Causa e efeito

De fato, o ciclo de juros altos e a queda da inflação coincidiram do ponto de vista temporal, mas é possível afirmar que existe uma relação de causa e efeito entre uma coisa e outra? Segundo a Mar, há dúvidas. 

“Mesmo que exista uma coincidência temporal entre o aumento das taxas de juros e a redução da inflação no Brasil, é difícil afirmar que haja uma relação de causalidade direta entre esses dois fatores. Isso se deve ao fato de que as taxas de juros restritivas não foram suficientes para gerar a abertura esperada do hiato do produto [diferença entre o PIB real e o PIB potencial], nem conseguiram manter as expectativas de inflação de longo prazo alinhadas com a meta estabelecida“, diz a carta. 
Em outras palavras, a inflação caiu, mas as expectativas para o futuro não, graças ao consumo das famílias, que cresceu 0,7% no primeiro trimestre e 0,9% no segundo, e ao aumento dos gastos públicos autorizados pela PEC da Transição.

Devido a esses dois fatores, seria justo dizer, segundo a Mar, que a Selic alta ainda não deu conta de contrabalancear todos os estímulos de demanda presentes na economia brasileira.

Fiscal

Do ponto de vista das contas do governo, a Mar também se mostra preocupada, afinal a PEC da Transição acabou por permitir um aumento das despesas fixas de 1,7% do PIB, o que exige que o governo aumente em igual proporção sua arrecadação — mas até agora não há sinais inequívocos de que isso vá acontecer, apesar da promessa de superávit em 2024.

“No início do ano, o Ministro da Fazenda demonstrava confiança na capacidade de aumentar a arrecadação. Ele chegou a fazer a promessa de eliminar o déficit primário de 2023 e apresentou uma extensa série de medidas que supostamente levariam a esse resultado. Em abril, durante a apresentação do Novo Arcabouço, projetou um déficit primário de 0,5% do PIB para o ano em questão. Entretanto, os resultados primários correntes acabaram mostrando que essa projeção era excessivamente otimista”, conclui a Mar.

O fim do déficit das contas públicas, portanto, ainda é só promessa. 

Política

A presença de um Congresso forte e liberal é positiva para o país na medida em que os deputados e senadores conseguem frear as ideias mais heterodoxas do atual governo, como a implosão do Marco do Saneamento e o fim da autonomia do Banco Central. Por outro lado, segundo a Mar, essa força do Parlamento pode, em alguma medida sair pela culatra.

“O mesmo Congresso que aprovou o aumento dos gastos por meio da PEC da Transição agora, em nome desse equilíbrio de poderes, dificulta a implementação de medidas para aumentar a arrecadação. No contexto fiscal, o equilíbrio de forças políticas indica a possibilidade de déficits continuados no futuro. Isso ocorre porque retirar quase 2% do PIB do establishment econômico por meio de aumentos recorrentes na carga tributária não é uma tarefa simples.”

Mercado

Esses são os principais fatores que fazem com que a Mar não esteja tão otimista quanto a média do mercado financeiro parece estar com o futuro próximo da economia brasileira. Mas será que eles estão sozinhos? Qual é o sentimento do resto do mercado?

A pesquisa pré-Copom do BTG Pactual com agentes do mercado, publicada nesta sexta-feira, mostra que apenas 2% enxergam o cenário fiscal futuro favorável, número que era de 20% há 45 dias. A maioria considera o fiscal neutro e 47% acham desfavorável. 

Sobre a meta de superávit primário de 2024, 39% acham que é muito provável que ele seja alterada, contra 28% que julgam haver uma chance baixa. 54% dos consultados entendem que isso dificultaria inviabilizaria o ciclo de queda de juros.

Para ler a carta completa da Mar, clique aqui.

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Por Renato Santiago

Jornalista, co-fundador do canal Market Makers e do Stock Pickers, duas vezes eleito o podcast mais admirado do Brasil. Passou por grandes redações do país, como o jornal Folha de S. Paulo e revista Exame, e atuou na cobertura de diferentes temas, de cotidiano até economia e negócios. Sua missão, hoje, é a de usar sua expertise editorial e habilidades de reportagem para traduzir o mundo das finanças e mercado financeiro ao grande público.

renato.santiago@empiricus.com.br