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A maior bolha da bolsa brasileira que você não ouviu falar

Teve charrete de zebra a IPO de funerária

Por Josué Guedes

18 out 2022 10h38 - atualizado em 18 out 2022 10h38

Texto originalmente publicado na CompoundLetter, a newsletter do Market Makers. Inscreva-se na newsletter gratuitamente deixando o seu e-mail aqui!

por Beto Saadia, economista e sócio da BRA Investimentos

Aos que leem coisas do tipo “brasileiro tá aprendendo a investir agora” – eu rebato: o brasileiro investe em bolsa há séculos. Desde o início da monarquia (1822) já havia uma bolsa organizada por aqui.

Barão de Mauá foi o pioneiro no Brasil ao perceber o poder da congregação de capitais em produzir negócios e gerar riqueza. O “poder associativo”, nome mais elegante que partnership, “é a alma do progresso”, dizia.

Na metade do século 19, nossas empresas listadas eram verdadeiramente abertas, todas com direito a voto e sem barreiras ao capital estrangeiro. Havia intensa participação de acionistas na vida das empresas e nas assembleias que constituíam evento econômico, social e político. A explicação para a presença nas assembleias era a vida quotidiana pacata.

A bolsa principal era a do Rio de Janeiro e se tratava apenas de um lugar, não existindo como personalidade jurídica. No início dos anos 1800s funcionou no finalzinho da Rua Primeiro de Março, quando encontra a igreja da Candelária, onde hoje é a Casa França-Brasil. Não por acaso, é colado ao Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) – outro espaço de pregão que se tornou sede do Banco do Brasil bem depois, em 1930.

Para títulos de menor valor, penny stocks, as negociações eram livremente feitas a céu aberto nos arredores da Rua da Candelária. Por conta disso, a arquitetura do saguão central do CCBB é arredondada, facilitando uma barreira física à entrada de corretores menores da rua para dentro do pitch.

A organização não cartorial, diferente dos dias atuais, permitia liberdade de horário no troca-troca de títulos, adaptando as negociações na ausência de eletricidade. Veja o estatuto da bolsa do rio em 1834.

A praça do comércio estará aberta ao público todos os dias que não forem
domingo, dias santos, das 9 da manhã até ao pôr do sol.

Mas uma boa história financeira só existe com bolhas e crashes. São como Copas do Mundo, não dá pra contar a história do futebol sem elas.

Em 1888 começa a faísca pro maior crash do país. Não foi o maior da história somente até aquele momento. Foi o maior de TODA a história do país até os dias atuais. Nada comparável se repetiu.

A abolição dos escravizados seguida da nova república sinalizavam uma economia livre e produtiva. O ‘Posto Ipiranga’, Ruy Barbosa, ligou a impressora de dinheiro como país de primeiro mundo. E a bolsa de valores seria a principal locomotiva do país. Aliás, locomotivas eram blue chips na bolsa. O título da ação mais negociado naquele ano de 1888 foi da Estrada de Ferro Leopoldina valendo 100 mil réis em janeiro. E não demoraram 6 meses pra marcar 190 mil réis – boataria de aquisição gringa. Hoje, o prédio da estação está de pé, abandonado ali na praça da bandeira (RJ).

Bolhas de euforia penetram nas diversas camadas sociais como fenômeno de psicologia das massas enriquecendo ingênuos e outsiders. Assim escreve o jornalista Veridiano de Carvalho em 1890.

Todos jogaram, o negociante, o médico, o jurisconsulto, o funcionário público,
o corretor, o zangão e os com pouco pecúlio e os com muito pecúlio.

Este outro trecho, do Visconde de Taunay, descreve a especulação democrática na esquina da Rua da Alfândega com a Candelária no Rio de Janeiro.

Todas as classes da sociedade misturadas, confundidas, um mundo de
desconhecidos, outros infelizmente demasiadamente conhecidos. Gente
recém-chegada do interior com a feição ainda tímida e acaipirada.

A ostentação máxima coube a Henry Lowndes. Ao invés de cavalos, uma parelha de Zebras importadas da África puxava sua Landau, suntuosa charrete de capota dupla que desfilava de sua casa do Catete ao pregão.

Ofertas Públicas? Temos! A maior de toda a história. Entre julho de 1888 a março de 1891 foram, em média, 17 novas ofertas por mês. A bolsa ostentou 456 empresas listadas no auge do boom. Hoje a B3 tem por volta de 400.

No início da euforia, ferrovias, fazendas. No auge, padarias, armazéns de costura e – funerária! Era a Companhia Empresa Funerária que adquiria terrenos e prometia “fornecer serviço perfeito à sua última morada” – dizia o anúncio, além de “carros asseados de primeira ordem para transportar suas donzelas”.

A demanda por ofertas públicas ultrapassava duas, três vezes a oferta. Só subiam. No último dia de subscrição, vinha gente de toda a cidade arrear o cavalo na sede da corretora e registrar sua intenção de investimento.

Oferta prioritária era pros mais fortes, escrevendo assim o Visconde de Taunay sobre o último dia de subscrição das ações do Banco Construtor do Brasil na sede da corretora.

Pretendentes invadiram o edifício, tal a aglomeração, pessoas
tiveram síncopes, sendo resgatas pelos braços. […] Não era possível
entrar ou sair do prédio. Os que estavam na escada atiravam dali
mesmo os envelopes na sala de subscrições com as quantias
que desejavam reservar.

A alavancagem é enredo padrão no percurso dos desatinos especulativos e aqui foi direcionada às ofertas públicas como instrumento de alavancagem inusitado até para os dias atuais. O investidor subscrevia uma oferta sem precisar dispor de todo dinheiro da reserva, sendo integralizado posteriormente em prestações mensais com a ação já em negociação. Na falta de qualquer prestação, o pretendente perdia todas as ações já subscritas que eram revertidas à empresa.

Como toda injeção infinita de dinheiro, uma inflação desenfreada lambeu o país. Sai Ruy Barbosa, entra Alencar Araripe, jurista sem traquejo algum pra coisa econômica, “Macaco em loja de porcelana”, escreve o historiador Ney Carvalho.

A eclosão da bolha ocorreria inevitavelmente, mas Araripe se encarregou de furá-la pessoalmente decretando imposto de 3% em qualquer transação. O jurista quebrou a bolsa num só dia, porque corretores entraram em greve. As empresas recém-chegadas, ainda não totalmente integralizadas dependiam do contínuo pagamento das parcelas acordadas no ato da subscrição. Sem o fluxo de financiamento, preços despencaram. E o fatality foi o quadro de companhias reveladas pelo Jornal do Commercio em 16 de março de 1891. Das 456 empresas, listadas apenas 74 tinham o capital totalmente integralizado. Ou seja, quase 84% eram empresas zumbi. Tudo fumaça.

Essa história retrata o período conhecido como Encilhamento no seu palco principal que foi o Rio de Janeiro, mas a euforia teve desdobramentos em São Paulo, degolando a bolsa Paulista que mal completara 6 meses de vida.

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Por Josué Guedes

josue.guedes@mmakers.com.br