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A mão trocada da mídia

Será que operar capas de revistas e jornais dá retorno positivo? O trader americano Brent Donnelly testou essa hipótese e o resultado é surpreendente

Por Renato Santiago

29 jun 2023 15h55 - atualizado em 29 jun 2023 03h55

Diz a sabedoria popular financista que o maior sinal de que o preço de um ativo vai cair ou de que uma tendência será revertida é seu destaque na capa de uma revista, jornal, ou qualquer outro veículo de grande circulação.

A premissa é a de que, quando um assunto obtém destaque na grande imprensa, já é tarde demais para se ganhar dinheiro com ele, pois todo o “smart money” já se posicionou. “Já fez topo”, é a expressão que costumamos ouvir nas conversas informais em referência ao topo dos preços. Dali, é só queda — ou vice-versa. 

A bolsa apareceu na televisão como uma grande oportunidade? Vai cair. O petróleo está na capa da uma revista com uma manchete negativa? Vai subir.

Mas será que isso é verdade? 

O trader americano Brent Donnelly colocou a tese à prova no que ele chama de Magazine Cover Indicator. Donelly avaliou todas as capas das revistas Economist e Time desde 1997 e selecionou as que destacavam claramente algum tema, pessoa, ativo ou país e que continham uma previsão evidente, como a abaixo:

Em seguida, ele avaliou os preços em função das publicações. No caso do petróleo, o resultado é o que se vê abaixo. Em pelo menos cinco casos, a capa da revista Economist sobre petróleo era um indicador de mudança de ciclo.

Ao todo, sobre todos os assuntos, ele encontrou 39 capas com tendências negativas (bearish) e 23 positivas (bullish). O retorno médio dos ativos que tiveram capas negativas foi de +18% após dois anos e +13% após um ano. Já os ativos que tiveram capas positivas, obtiveram retornos de -8% em um ano e 0% após dois anos.

O passo seguinte foi criar uma carteira teórica de trades. A ideia é investir por um ano na tese oposta à capa da revista. Vamos a alguns exemplos: em 2021, quando a Time elegeu Elon Musk a Pessoa do Ano, Donnelly “propôs” um short em Tesla; já quando a Economist publicou “The Coming Food Catastrophe” (A Catástrofe da Comida Se Aproxima), ele abriu um short em trigo; quando a mesma revista publicou a capa “Crypto Downfall” (A Derrocada Crypto), a proposta era comprar bitcoin a US$ 16.658. Os resultados foram +50% nos dois primeiros e +80% no terceiro trade. 

O modelo começou em dezembro de 2021, hoje tem 6 trades encerrados e 8 ainda abertos. Apenas um deles — uma aposta contra bancos — deu retorno negativo, de -10%. O mais recente, do dia 23, é a compra de um ETF que espelha títulos públicos longos americanos baseado em uma capa da Economist que fala sobre a resiliência da inflação.

Você pode ver a carteira completa clicando aqui e o texto de Donelly explicando seu método aqui — mas recomendo cautela. Não se esqueça que a amostra que ele usa é extremamente pequena e, pelo que se percebe, não se trata de um estudo científico e rigoroso. Quando muito, pode ser considerado um indício de que o grande público fica sabendo por último dos movimentos do mercado e de que a mídia não é análise, e sim informação que pode ajudar o investidor a compor, com outros elementos, suas decisões. Este texto tem como objetivo aguçar sua curiosidade e entreter, não sendo de modo algum um incentivo para que você saia por aí operando notícias com seu dinheiro de verdade. O próprio trader que criou essa carteira teórica não o faz.

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Por Renato Santiago

Jornalista, co-fundador do canal Market Makers e do Stock Pickers, duas vezes eleito o podcast mais admirado do Brasil. Passou por grandes redações do país, como o jornal Folha de S. Paulo e revista Exame, e atuou na cobertura de diferentes temas, de cotidiano até economia e negócios. Sua missão, hoje, é a de usar sua expertise editorial e habilidades de reportagem para traduzir o mundo das finanças e mercado financeiro ao grande público.

renato.santiago@empiricus.com.br