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A recaída de um viciado

Queria voltar para aquele lugar que conheço muito bem

Thiago Salomão

Por Thiago Salomão

09 Mar 2026 11h16 - atualizado em 09 Mar 2026 11h20

Segunda-feira, 9 de março de 2026. 0h17 da madrugada.

Começo a escrever o texto que, daqui a poucas horas, estará na sua caixa de e-mail. 

Sim, eu fiz isso de propósito. Não porque eu sou organizado ou porque sigo uma metodologia sueca de produtividade. Tampouco por ser desorganizado e deixar tudo pra última hora.

Fiz isso porque queria sentir de novo uma sensação antiga, meio tóxica, meio gloriosa, e absurdamente viciante:

A criatividade que nasce quando o prazo está prestes a te estrangular.

Queria voltar para aquele lugar que conheço muito bem — o momento em que o relógio deixa de ser um objeto decorativo e vira um agiota.

Durante mais de dez anos, esse foi basicamente meu estilo de vida:

De 2009 a 2020, meu trabalho consistia em explicar, todo santo dia, o que estava acontecendo no mercado com o máximo de profundidade possível, sem perder a didática e, de preferência, antes que o assunto morresse. Na prática, eu quase sempre começava o dia já atrasado.

Esse senso de urgência provoca uma coisa curiosa com o cérebro: com o prazo curto de verdade, seu cérebro entende que não há mais espaço para frescura. Nada de escolha das melhores palavras, da playlist que vai embalar seu texto, da luminária ideal, da citação ideal…

Ele entende, finalmente, que o filho precisa nascer.

E sabe o que é demais? Ele nasce!

Existe até uma explicação bonitinha pra isso. A lei de Yerkes-Dodson fala da relação entre ativação mental e desempenho. Em português de gente normal: quando o prazo aperta, seu nível de alerta sobe. E, até certo ponto, isso melhora foco, energia e execução.

Tem uma expressão linda que define isso, embora eu não saiba o significado: “quando a água bate na bunda”. Já tá muito tarde para eu procurar o que ela significa no Google, se você que está lendo souber o motivo, responda este email com a explicação. Ficarei feliz com a interação.

Óbvio que isso tem limite. Burnout, taquicardia, gastrite e crise de ansiedade (que eu tenho, inclusive, e espero que meu psiquiatra não leia este texto) não é comprometimento com a excelência.

Mesmo assim, preciso confessar uma coisa que talvez pegue mal no ambiente “LinkedIsney” que vivemos:

Eu estava com saudade dessa sensação. Saudade do cortisol circulando com vontade. Saudade das ideias surgindo sem pedir licença, de escrever sem ficar tratando cada parágrafo como se fosse um discurso de posse na Academia Brasileira de Letras.

Porque é isso que o deadline apertado faz comigo: ele me arranca do modo “analisar demais” e me joga direto no modo “executar com instinto”. Transformando isso numa frase aceitável no LinkedIn: “o feito é melhor do que o perfeito”.

A inibição diminui. A autocensura vai pra casa do caralho (ou do chapéu, na versão para crianças). E o cérebro para de polir excessivamente cada frase e passa a decidir no susto.

Preciso ser honesto: às vezes sinto que o texto fica uma merda. Mas independente da qualidade, ele sai sempre mais “vivo”, mais irreverente, menos domesticado. O pacote de Fandangos sabor qualquer coisa vira um “presente misterioso”, pra usar uma trend dos jovenzinhos.

Em resumo: meu cérebro para de buscar a solução perfeita e encontra a solução boa, ousada e pra agora. E, convenhamos, as coisas realmente interessantes da vida nascem muito mais desse lugar do que daquele PowerPoint mental em que tudo está sob controle.

É a “Magia do Caos” que Martin Escobari imortalizou no nosso podcast: as coisas que acontecem em nossa vida tem muito mais a ver com o nosso entorno do que com nossos planos.

Acho que vou aproveitar a inconsequência que o horário me permite para criar um nome científico para esse processo: Efeito de Compressão Criativa

É o fenômeno em que a proximidade do prazo reduz a autocensura, aumenta o foco e libera soluções mais originais, espontâneas e expressivas.

Tem gente que trava sob pressão.

Eu, por uma combinação de treino, necessidade e boletos, acabei construindo uma casca nesse ambiente.

Trabalhei durante muito tempo em lugares em que a pressão não era eventual — ela era o ar que circulava no ambiente. Talvez por isso, em certos momentos, eu funcione melhor quando o prazo está na jugular.

Não estou aqui defendendo uma vida em estado permanente de urgência. Isso seria idiota. Cada pessoa responde de um jeito. Tem gente que rende com antecedência, calma e planejamento. E está tudo bem.

Mas a reflexão que eu queria deixar é outra:

O quanto da sua melhor versão está escondida atrás de uma zona de conforto excessivamente educada?

Porque, às vezes, o problema não é falta de talento ou falta de confiança. É simplesmente excesso de folga, de tempo, de filtro, de autoconsciência…

Tem hora em que o prazo curto faz um favor civilizatório: ele cala o comitê interno de burocratas que vive dentro da nossa cabeça.

No fim das contas, talvez essa newsletter tenha servido para lembrar uma coisa simples: às vezes, o prazo apertado não destrói a criatividade, ele só elimina tudo aquilo que estava atrapalhando ela de aparecer.

“Legal, Salomão. Falou, falou e não disse nada de mercado”. Tem razão, subconsciente. Então deixa eu dividir algumas coisas que andaram ocupando minha cabeça nos últimos dias e algumas novidades que lançamos:

  • Entre R$ 300 milhões e R$ 900 milhões. Essa foi a estimativa de comissões recebidas por assessores vendendo CDBs de Master, Will Bank e Pleno, segundo Filipe Menezes, fundador da AAWZ, no episódio #329 do Market Makers. Foi uma conversa desconfortável — e justamente por isso necessária — sobre a profissão de assessor/consultor. O trecho que mais me marcou: quando o Filipe explica a teoria dele de por que a XP (maior vendedora de CDBs destes bancos), mesmo se suspeitasse que tinha um problema no Master, não poderia parar de fazer a roda girar. Assista aqui.
  • Estreito de Ormuz. De todas as lives com o Professor HOC que já fizemos no Market Makers, essa última sobre a guerra entre EUA e Israel com o Irã certamente foi a mais profunda. Quem está acompanhando nesta madrugada a alta de mais de 20% do petróleo não está surpreso se viu nosso podcast. Assista aqui o episódio #330 do MMakers.
  • José Faria Jr lançou um curso com a gente. Protoloco Anti-risco: Economia para Investidores. E eu vou resumir de forma bem objetiva: se você vive lendo manchete sobre macroeconomia fingindo que entendeu tudo, esse curso foi feito para você. O Faria consegue uma coisa rara: misturar teoria com prática sem transformar a aula num desfile de conceitos sem utilidade. Ficou realmente muito bom. Link aqui.
  • Fernando Cinelli, fundador da Apex Partners, estará ao vivo conosco na terça-feira às 18h. Um dos casos mais interessantes de empreendedorismo dentro do mercado financeiro brasileiro, principalmente fora do eixo “Rio-São Paulo”. Você vai se surpreender, se não o conhece.
  • Gravei na última semana um dos episódios mais emocionantes da história do Market Makers. O convidado foi Pedro Parente. Vai ao ar em breve. E eu sugiro que você veja com carinho, porque tem conversa que informa e tem conversa que fica com você por mais tempo.
  • The Report, a revista digital do Market Makers, contou em detalhes como foi sendo formada a rede de contatos de Daniel Vorcaro. Diante dos últimos capítulos dessa novela corporativa brasileira — que já está mais para Netflix — a leitura virou praticamente obrigatória. Ainda não assina The Report? Clique aqui.
  • O Market Makers chegou ao rádio. Toda sexta-feira, às 7h da manhã, estou ao vivo na NovaBrasil, 89.7 FM em São Paulo. Dura poucos minutos, então nem o seu atraso habitual serve de desculpa. Já postei no LinkedIn e no Instagram como foi a estreia.
  • Nosso fundo de ações já é uma realidade. Mais de R$ 20 milhões de patrimônio, quase 900 cotistas e desempenho 11 pontos acima do Ibovespa desde seu início, em outubro de 2022. Esse é o resultado do marketing Makers fia, que passa pelo trabalho do Matheus Soares. Eu realmente acredito que ele será o Warren Buffett brasileiro. Com a vantagem competitiva de ter 6 décadas a menos de idade. Que sorte a nossa tê-lo conosco.

A pergunta sobre política que tem ecoado na minha mente e ninguém se mostrou disposto a me responder publicamente: em um eventual segundo turno entre Flávio Bolsonaro e Lula, será que a sociedade não vai pensar que a conta é escolher entre ter “os últimos 4 anos de Lula” vs “os próximos 10, 20 ou 30 anos de família Bolsonaro?” E pensando assim, qual será a escolha deles, tendo em vista a alta rejeição de ambos? Nos próximos dias, vou pra Brasília conversar com vários políticos e trarei um dos mais conceituados cientistas políticos do mercado para gravar um podcast, essa pergunta certamente estará na pauta.

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Thiago Salomão
Por Thiago Salomão

Fundador do Market Makers, analista de investimentos CNPI-P, MBA em Mercados Financeiros na Fipecafi e na UBS/B3. Antes de fundar o MMakers, foi editor-chefe do InfoMoney, analista de ações na Rico Investimentos, co-fundou o podcast Stock Pickers e foi sócio da XP de 2015 a 2021

Thiago.Salomao@btgpactual.com