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A última carta de Warren Buffett
Cinco pontos sobre o texto que emocionou o mundo
O alcance da figura e da sabedoria de Warren Buffett vão além do mercado. Por isso, não acho exagero dizer que a carta divulgada por ele – a última aos acionistas no comando da Berkshire Hathaway – rodou o mundo e emocionou a todos. Aliás, emocionar é vago: ao longo da leitura eu chorei, ri e refleti sobre a vida. Buffett tem esse poder – um poder, aliás, que vai muito além de sua capacidade de multiplicar dinheiro.
Em cinco pontos, tentei destacar o que mais importante e o que mais me tocou do que o oráculo de Omaha trouxe no texto.
#01 – Um amigo fiel
Logo na segunda página da carta, Buffett tira um tempo para lembrar de seu melhor amigo, Charlie Munger, morto há dois anos. A bela amizade entre os dois, que vai além dos negócios que criaram juntos, é descrita por Buffett no presente.
“Charlie Munger, meu amigo há 64 anos. […] Por mais de 60 anos, Charlie teve enorme impacto sobre mim e não poderia ter sido melhor professor e “irmãozão” protetor. Tivemos diferenças, mas nunca discutimos”, diz.
#02 – Buffett: um “bairrista assumido”
Esse foi o ponto da carta em que me identifiquei com Buffett. Ele assume seu bairrismo e carinho pela vizinhança em Omaha – coisa que eu faço cá com meu bairro e sou sempre julgado por amigos. Mas esse trecho traz uma lição importante no subtexto, que é como ele lida com o dinheiro e as posses.
“Em 1958, comprei minha primeira e única casa. Claro, em Omaha, a cerca de três quilômetros de onde cresci, a menos de dois quarteirões da casa dos meus sogros e a 6-7 minutos de carro do prédio de escritórios onde trabalhei por 64 anos”.
#03 – Um alívio cômico
Confesso que esbocei um sorriso quando ele diz que sua família não é muito longeva – segundo ele, o recorde até então era de 92 anos (ele tem 95). Mas é interessante como Buffett reflete sobre a longevidade.
“Tive médicos de Omaha sábios, amigáveis e dedicados, começando com Harley Hotz e até hoje. Pelo menos três vezes minha vida foi salva por médicos, todos localizados a poucos quilômetros de casa. […] dá para sustentar muitas excentricidades aos 95…mas há limites”, brinca.
#04 – Sorte e privilégios
Mesmo sendo reconhecidamente um dos homens mais competentes do mundo e um incansável trabalhador, Warren Buffett reconhece que teve sorte e privilégios na construção de seu patrimônio e legado, num exemplo de humildade pouco vista.
“Lady Sorte é caprichosa e – não cabe outro termo – terrivelmente injusta. Muitas vezes, líderes e ricos receberam mais do que a própria cota de sorte – que, muitas vezes, os beneficiados preferem nem reconhecer. Herdeiros dinásticos conquistaram independência financeira logo ao nascer, enquanto outros vieram ao mundo enfrentando infernos desde cedo ou, pior, sofreram limitações físicas ou mentais incapacitantes que lhes tiraram o que tomei como garantido. Em muitas regiões fortemente povoadas do mundo, eu provavelmente teria tido vida miserável e minhas irmãs ainda pior. Nasci em 1930, saudável, razoavelmente inteligente, branco, homem e na América. Uau! Obrigado, Lady Sorte. Minhas irmãs tinham igual inteligência e personalidade melhor que a minha, mas tiveram perspectivas diferentes.”
#05 – Buffett e o tempo
Num dos momentos de mais emoção, Buffett faz uma bela reflexão sobre o tempo, ao lembrar que o “Pai Tempo” sempre nos vence. Um reconhecimento de nossa limitação e finitude que só poderia vir de um sábio.
“Quando equilíbrio, visão, audição e memória decaem constantemente, você sabe que o Pai Tempo está por perto. Demorei para envelhecer – o começo varia muito – mas, surgindo, não há como contestar.”
Ponto final
Antes de falar do que vem por aí com sua saída do comando da Berkshire e a chegada de Greg Abel, novo CEO, Buffett nos dá uma última lição ao dizer que “ainda que me mova devagar e leia com dificuldade crescente, trabalho no escritório cinco dias por semana, junto a pessoas maravilhosas”.