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A última decisão – uma carta ao Thiago Salomão
Walter Maciel, CEO da AZ Quest, escreve neste espaço uma nova reflexão sobre Daniel Kahnemann
*Por Walter Maciel, CEO da AZ Quest
Meu caro Salomão,
Li sua CompoundLetter sobre a última decisão de Daniel Kahneman. Li mais de uma vez. E ouvi sua conversa com Martin Escobari, que me trouxe ainda mais camadas. Você disse que o texto lhe trouxe inúmeras reflexões e nenhuma conclusão.
Eu também não cheguei a conclusões. Mas cheguei a lugares diferentes dos seus, e acho que vale compartilhá-los. Antes de qualquer coisa: respeito absoluto. A vida é dele. A decisão é dele. Nada do que escrevo aqui é acusação. É reflexão de quem leu, sentiu e não conseguiu ficar quieto.
O timing
Kahneman não esperou o primeiro sintoma. Estava em Paris, com Barbara, rindo, caminhando, escrevendo. E de dentro desses dias bons — não dos ruins — ele partiu. Eu entendo o medo dele. Ele viu a mãe se deteriorar. Viu a esposa, Anne Treisman, percorrer o mesmo caminho. Não consigo imaginar o que é ver alguém que você ama perder a consciência de si. Mas imagino que seja devastador.
Mas existe uma diferença entre decidir ir e decidir quando ir. Se ele tivesse esperado — não o colapso, não a indignidade, mas os primeiros sinais perceptíveis, aquele momento em que as pessoas próximas começam a notar que algo mudou — a família teria tido uma narrativa para se apoiar. “Ele viu o que estava vindo. Nós vimos junto. E ele escolheu poupar a si e a nós do que viria depois.” Isso é processável. Isso é humano. Em vez disso, ele saiu do meio de dias felizes. E quem ficou precisa conviver com a memória de um homem que ria na terça e morreu na quarta. Não por doença. Por decisão.
A família sofreria de qualquer maneira — isso é inevitável. Mas o sofrimento de perder alguém para a doença tem uma lógica que o coração reconhece. O sofrimento de perder alguém que escolheu ir embora enquanto ainda estava bem não tem.
A morte perfeita é a perspectiva de quem ficou, não de quem foi
Philip Tetlock disse que nunca viu uma morte tão bem planejada. Annie Duke ficou frustrada. Jason Zweig ficou sem se despedir. Todos descrevem a decisão de fora. Como observadores. Como quem analisa um case study. Mas ninguém sabe o que aconteceu dentro da cabeça de Kahneman naquela última semana. Ninguém sabe se ele dormiu bem. Ninguém sabe se, nas horas silenciosas da madrugada em Paris, ele não teve dúvidas que nunca confessou.
Eu desconfio que a serenidade que ele demonstrou foi, em parte, construção. Não por desonestidade — por necessidade. Quando você toma uma decisão irreversível, você precisa se convencer de que está em paz. Caso contrário, você não consegue executá-la. A serenidade pode ter sido menos uma conquista e mais uma armadura. Se a decisão fosse tão natural quanto ele descreveu — “dormir e não acordar” —, então por que não simplesmente viver até que isso acontecesse sozinho?
A armadilha do ego intelectual
E aqui eu preciso ser honesto, mesmo correndo o risco de parecer duro. Kahneman passou a vida inteira construindo uma reputação: o homem que entendia as falhas da mente humana melhor do que qualquer outro. O homem que via vieses onde os outros viam racionalidade. E se — apenas se — parte dessa decisão foi uma última demonstração? A prova definitiva de que, até no fim, ele era o homem que decide melhor? Isso seria o viés supremo: a consistência com a própria imagem, disfarçada de lucidez. O ego vestido de lógica.
Eu não estou dizendo que foi isso. Estou dizendo que, vindo do homem que nos ensinou que todos somos prisioneiros dos nossos vieses, é no mínimo irônico que ele talvez não tenha enxergado o seu.
Warren Buffett tem uma expressão que uso como bússola: o inner scorecard versus o outer scorecard. O que importa — ser o melhor amante ou ser visto por todos como o melhor amante? Viver bem ou parecer que viveu bem? Morrer com coragem ou morrer de uma forma que os outros consideram corajosa?
Kahneman morreu pelo outer scorecard. A decisão foi perfeitamente coerente com a imagem pública. Mas o inner scorecard — aquele que só ele veria — ninguém sabe. E como ele mesmo nos ensinou, a confiança que sentimos sobre nossas decisões não é evidência de que elas estão certas.
Os Estoicos e o Amor Fati
Existe uma ideia no estoicismo que me acompanha: Amor Fati — o amor ao destino. Todo ele. Não apenas as vitórias, não apenas os dias de Paris, mas também o declínio, a perda, o corpo que falha, a mente que escurece.
Amor Fati não é resignação. É abraçar o que vem como parte integral do que somos. É dizer: isso também é meu. Isso também me constitui. Eu não escolhi, mas é meu.
Kahneman não amou o destino. Ele editou o destino. Com elegância, com inteligência, com planejamento impecável — mas editou. E ao editar, recusou exatamente aquilo que os estoicos pedem que abracemos: a totalidade da experiência humana, incluindo as partes que não controlamos.
E se o estoicismo oferece uma perspectiva, a empatia oferece outra. Empatia é se colocar no lugar do outro. E naquele momento, Kahneman se colocou apenas no lugar de si mesmo. Calculou o próprio saldo hedônico — o benefício versus o custo de continuar — e otimizou
para si.
A dor dos que ficaram entrou na equação apenas como uma variável reconhecida, não como um fator determinante. Ele mesmo escreveu: “O último período realmente não foi difícil, exceto por testemunhar a dor que causei aos outros.”
Exceto. Essa palavra carrega o peso de tudo que ficou de fora do cálculo.
O que isso diz sobre o nosso mercado
E aqui, Salomão, é onde eu acho que a história de Kahneman cruza com o mundo em que vivemos todos os dias.
O mercado financeiro é cheio de gente brilhante que confunde inteligência com sabedoria. Gente que prefere perder dinheiro de forma “intelectualmente elegante” a ganhar de forma simples. Gente que carrega posições erradas porque admitir o erro destruiria a narrativa que construiu sobre si mesma. Gente que administra a reputação com mais disciplina do que administra o risco.
Eu conheço — e você também — gestores que vivem pelo outer scorecard. Que citam Sócrates, Howard Marks e o próprio Kahneman para construir uma persona de humildade intelectual, enquanto por dentro são movidos por uma necessidade insaciável de parecerem certos.
“Tudo que eu sei é que não sei nada.” Essa frase soa sofisticada. Soa profunda. Mas se você não sabe nada, vá para casa. Não gerencie o dinheiro dos outros. Você tem que saber algo. Pode não saber tudo — ninguém sabe —, mas tem que ter a coragem de plantar uma bandeira e dizer: nisso aqui, eu acredito. E se eu estiver errado, eu mudo. Não porque é conveniente, mas porque a realidade mudou.
A humildade verdadeira não é dizer que não sabe. É saber, agir, errar e recalibrar — sem que o ego entre na equação. É o inner scorecard funcionando.
O que Kahneman fez com a própria morte, muita gente no mercado faz com a própria carreira: sacrifica o resultado real pela coerência com a imagem. E nos dois casos, quem paga o preço são os outros — a família, os cotistas, os sócios.
Uma reflexão, não uma conclusão
Não é como se nós devemos viver, mas como vivemos. Não é o que conquistamos, apenas, mas como conquistamos. Os estoicos sabiam. Os que amamos sabem.
Kahneman foi um gênio. Transformou a forma como a humanidade entende a si mesma. Eu devo a ele conceitos que uso todos os dias para tomar decisões melhores — e, mais importante, para reconhecer quando estou tomando decisões piores.
Mas a última decisão dele me trouxe, assim como a você, Salomão, mais reflexões do que conclusões. E a principal delas é esta: a racionalidade, levada ao extremo, pode se tornar o mais sofisticado dos vieses. Quando você aplica lógica fria à vida — que é quente, bagunçada, cheia de gente que te ama e que você vai machucar — o resultado pode ser impecável no papel e devastador na prática.
Martin Escobari disse que “escolher como morrer é divino.” Pode ser. Mas os que ficam são humanos. E é com eles — sempre com eles — que a conta chega.
Abraço, Thiago. Obrigado pelo texto e pela coragem de publicá-lo. Espero ter contribuído com mais algumas camadas.