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A única maneira de permanecer rico

Duas histórias, um destino e o insight de Morgan Housel

Por Josué Guedes

17 maio 2023 12h42 - atualizado em 17 maio 2023 12h42

Na década de 1920, Abraham Germansky, um magnata do setor imobiliário e ávido investidor em ações, alcançou o status de multimilionário nos EUA.

Apesar disso, a alta aparentemente infinita do mercado de ações naquele período fez Germansky apostar pesado na bolsa em busca de mais dinheiro.

Com o crash de 1929, não só o dinheiro do magnata acabou como ele próprio também desapareceu (sem deixar vestígios).

Ninguém nunca soube de seu paradeiro.

Curiosamente, outro investidor na mesma cidade e no mesmo dia experimentou um destino muito diferente.

Jesse Livermore, especulador profissional, ao voltar para casa no dia 29 de outubro, foi recebido por sua esposa com disposição para consolá-lo, pois havia recebido a notícia do crash da bolsa naquele dia e achava que o marido também estava arruinado. No entanto, Livermore garantiu a ela que não havia necessidade de consolo. 

Na verdade, ele havia montado uma posição short (“vendida”) no mercado poucos dias antes do crash e acabou ganhando mais dinheiro naquele dia do que em toda a sua vida. “Quer dizer que não estamos arruinados?”, perguntou sua esposa, conforme conta a sua biografia. Ele respondeu: “Não, querida. Tive meu melhor dia de negociação na vida. Agora somos fabulosamente ricos e podemos viver como quisermos”. 

Em um único dia, ele ganhou o equivalente a US$ 3 bilhões.

Apesar de algumas semelhanças, essas histórias possuem desfechos completamente opostos: a queda de Germansky e a ascensão de Livermore para se tornar o homem mais rico do mundo no mesmo dia.

Porém, como Morgan Housel, escritor de A Psicologia Financeira, bem observou em um de seus ótimos textos, bastaram apenas quatro anos para que elas convergissem assustadoramente.

Livermore, cada vez mais confiante em seus acertos no mercado, continuou a fazer apostas maiores e mais arriscadas e acabou perdendo tudo em 1933. Oprimido pela vergonha, ele também desapareceu. Após 2 dias, reapareceu, mas seu destino estava selado: Livermore tragicamente tirou a própria vida.

Para Housel, embora o momento fosse diferente, Germansky e Livermore perceberam uma verdade profunda: alcançar a riqueza é uma coisa, mas mantê-la é um desafio totalmente diferente.

A economia opera em ciclos em que nada se expande para sempre e nem retrai eternamente. E as mesmas forças que impulsionam o crescimento ou o declínio também plantam as sementes para uma reversão. Os mercados em alta fazem os preços das ações subirem, aumentando a probabilidade de sua eventual queda. O mesmo vale para recessões. As recessões econômicas geram pessimismo, levando à subprodução, escassez e, finalmente, ao surgimento de um novo ciclo de expansão da economia.

Da mesma forma, indivíduos e empresas, influenciados por seus próprios sucessos, são vítimas desses ciclos.

Por meio da observação, para Housel, surge um padrão: o próprio ato de ficar rico pode impedir a capacidade de permanecer rico.

Veja como isso se desenrola: à medida que você alcança maior sucesso, fica cada vez mais convencido de que seus métodos são infalíveis. Essa convicção, por sua vez, o torna resistente à mudança. Quanto menos aberto você estiver para mudar, maiores serão as chances de tropeçar em um mundo que evolui constantemente.

Embora existam inúmeros caminhos para a riqueza, há apenas uma maneira de permanecer rico: por meio da humildade, muitas vezes beirando a paranóia. 

Ironicamente, poucas coisas corroem a humildade tão rapidamente quanto a própria aquisição de riqueza.

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Por Josué Guedes

josue.guedes@mmakers.com.br