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Aprender com o diferente

Super Live pré-2ª turno e Episódio #18: uma lição sobre a importância de ter a mente aberta

Por Thiago Salomão

28 out 2022 10h32 - atualizado em 28 out 2022 10h36

Texto originalmente publicado na CompoundLetter, a newsletter do Market Makers. Inscreva-se na newsletter gratuitamente deixando o seu e-mail aqui!

De todas as coisas inusitadas que eu tenho presenciado nestas eleições, a mais reveladora foi a confirmação de que não existe mais o “candidato do mercado”, algo que era muito óbvio pelo menos nas duas últimas eleições. Tiramos a prova disso nas lives que fizemos nesta semana no Market Makers.

Na quarta-feira, conversamos com 7 profissionais que trabalham em gestoras de recursos de diferentes tamanhos, perfis e características. Apesar da fauna diversa, percebemos uma clara predileção pela vitória de Bolsonaro no pleito de domingo, o que seria muito positivo para a bolsa e traria a continuidade de uma agenda que, na visão deles, tem feito o Brasil figurar no grupo dos “melhores alunos da sala” na economia mundial.

Outra coisa que percebemos é que, mesmo se o Lula vencer, o mercado enxerga possibilidade de valorização na bolsa (mesmo que em menor intensidade e num prazo mais longo do que se o Bolsonaro ganhasse), pois o candidato petista se veria diante de um país e um Congresso claramente dividido, o que faria ele adotar uma postura conciliadora e responsável (escrevemos um resumo sobre a live de quarta aqui; destaco a análise da Marcela Rocha, economista da Principal Claritas).

Em outras palavras: sob os olhos do mercado, é possível ver o “copo meio cheio” seja quem for o vencedor do 2º turno.

Terminamos a quarta-feira otimista. Mas aí veio quinta-feira…

Na live de quinta, trouxemos Elena Landau e Alexandre Schwartsman, dois economistas super gabaritados, com ampla experiência tanto no setor público quanto no privado e conhecidos por terem uma visão bastante crítica sobre o Brasil. Foi nessa live que ficou evidente que a ideia do “candidato do mercado” não é mais uma unanimidade que vimos nas eleições anteriores.

Elena começou a live deixando claro que votará no PT (“olha o que o Bolsonaro me obrigou a fazer”, disse ela em um tweet recente), enquanto Alexandre, que não declarou seu voto na live, disse em uma reportagem recente do Estadão que votará nulo.

Me surpreendeu ver super economistas, frequentadores dos mesmos eventos e círculos de conversas do pessoal do mercado financeiro e assumidamente críticos ferozes do governo petista, votarão cada um nas duas opções alternativas à Bolsonaro.

Sugiro que você assista aos 80 minutos de conversa que fizemos com eles (link da entrevista está aqui) para entender os motivos. Mas em resumo: eles acreditam que boa parte dos avanços que tivemos em 2022 foram conquistados graças a eventos e medidas que não poderão se repetir em 2023, tais como isenções de impostos, reajustes salariais represados e programas assistencialistas. “Independentemente de quem for eleito, já está claro que ano que vem o teto de gastos não será respeitado”, disse Schwartsman.

Eles vão além: os desarranjos feitos principalmente nos últimos 12 meses de mandato os deixam profundamente pessimistas com 2023, não importa quem vença. Se Lula ganhar, ele vai ter que criar algo novo do zero (e sequer sabemos quem será o ministro da economia); se Bolsonaro for reeleito, Alexandre e Elena duvidam que Guedes dará um “cavalo de pau” para desfazer as medidas adotadas na reta final do governo.

A reflexão que te convido a fazer: você pode ser otimista que nem os participantes da Faria Lima ou pessimista como os economistas de fora do mercado, mas há um valor intelectual inestimável em ouvir quem pensa diferente de ti. Isso é fundamental para validar nossas teses e convicções. Isso está escrito inclusive em nosso Manifesto do Market Makers (“Porque eles sabem o valor de ouvir quem pensa diferente – e aprendem com isso. Pois os maiores aprendizados estão fora da zona de conforto”).

Não é um exercício confortável. Mas ao ver os primeiros comentários que surgiram no vídeo logo após o término da live, meu coração encheu de alegria ao ver os primeiros feedbacks:

Os pessimistas convictos dirão que a turma do mercado financeiro se ilude muito fácil.

Já os otimistas convictos dirão que é fácil ver problema em tudo quando não se tem “skin in the game”.

Minha sugestão: seja agnóstico e busque extrair um aprendizado com aquele que pensa diferente de você.

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Por Thiago Salomão

Fundador do Market Makers, analista de investimentos CNPI-P, MBA em Mercados Financeiros na Fipecafi e na UBS/B3. Antes de fundar o MMakers, foi editor-chefe do InfoMoney, analista de ações na Rico Investimentos, co-fundou o podcast Stock Pickers e foi sócio da XP de 2015 a 2021

thiago.salomao@mmakers.com.br