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Autismo e investimentos: 4 lições de uma criança

Os aprendizados simples que uma criança autista pode trazer ao investidor

Por Josué Guedes

25 out 2022 10h41 - atualizado em 25 out 2022 01h19

Texto originalmente publicado na CompoundLetter, a newsletter do Market Makers. Inscreva-se na newsletter gratuitamente deixando o seu e-mail aqui!

por Daniel Galdini, CFP, Assessor de investimentos

Você já deve ter ouvido falar que as sensações de dor ou de sofrimento trazem aprendizados indeléveis para nossas vidas. Apesar de serem momentos que nós humanos procuramos evitar, é fato que eles nos tiram da zona de conforto.

Contarei duas histórias aqui, uma genérica, do mercado financeiro, e uma específica, da minha vida cotidiana, que terá como protagonista meu filho João Pedro, de 3 anos. Vamos a elas.

A primeira história é sobre o investidor de forma geral. Se observarmos o retrospecto de um investidor que está há anos no mercado, ele se lembrará com precisão de algumas datas, sobretudo daquelas em que ele não guarda boas recordações: o Joesley Day, que trouxe um grande impacto no mercado e uma queda de mais de 8,5% no dia 18 de maio de 2017; a greve dos caminhoneiros, que trouxe muita preocupação a todos os investidores em maio de 2018, onde o auge foi o dia 17; quando a Covid-19 começou a se alastrar mundo afora, provocando seis circuit breakers no Ibovespa, sendo o primeiro deles em 9 de março de 2020. Agora congelaremos brevemente esse caso.

A segunda história é sobre minha família. Existe uma data para a Luciana minha esposa e para mim que jamais iremos nos esquecer: o dia em que fomos visitar pela primeira vez a pediatra do desenvolvimento do João Pedro, a pedido do médico de rotina dele. Após realizar alguns exames, ela nos deu um laudo dizendo: “Relato, a pedido dos pais e com sua anuência, que avaliei o paciente João Pedro no dia 11 de junho de 2021. João Pedro apresenta um atraso global do desenvolvimento (F84).” Dando um Google, você facilmente descobre o que é F84: “transtorno global do desenvolvimento, que engloba a condição oficialmente denominada Transtorno do Espectro Autista (TEA).” Isso tudo, repito, no dia onze de junho, véspera do Dia dos Namorados. Sabe aquela famosa frase do Mike Tyson de que “todo mundo tem um plano até levar um soco na cara”? O nosso soco chegou naquele dia, e foi bem forte, mas era apenas o primeiro round da luta. Muita coisa mudou em nossas vidas desde então. Nossa missão passou a ser enxergar o mundo sob a perspectiva de uma criança autista.

E onde essas duas histórias se encontram? Sem dúvidas, no aprendizado que os momentos delicados trazem. No primeiro caso, esse investidor hipotético, que entrou no mercado nos últimos anos, já entendeu que simplesmente não existe “a janela ideal para os investimentos”, pois é impossível controlar todas as variáveis. Então, como sempre haverá momentos mais e menos favoráveis no ciclo econômico, o melhor a fazer é manter a disciplina de investir, independentemente do timing.

Na nossa história particular de vida, aprendemos que existem algumas características que são comuns a outros autistas, porém vamos falar especificamente daquelas que dizem respeito ao nosso João. Além disso, faremos um paralelo dessas características com o mundo dos investimentos, e como o investidor pode se beneficiar desses traços de personalidade.

Previsibilidade

Nosso filho fica bastante desregulado quando quer o celular para ver seu desenho favorito e dizemos a ele que ainda não é o momento. Como ele é não-verbal, mostramos no aplicativo de comunicação dele que, após uma sequência de tarefas cotidianas que ele deverá executar (tirar o pijama, colocar a roupa, escovar os dentes), ele vai receber o celular. Isso o tranquiliza de certa forma, pois ele sabe que se cumprir a parte dele no trato, nós cumpriremos a nossa.

No caso do investidor, não é possível saber com precisão o que vai acontecer no mês que vem, no semestre que vem, no ano que vem, muito menos daqui a cinco anos. De qualquer forma, a melhor forma de buscar alguma previsibilidade é ter uma carteira bem balanceada, ou seja, aquela ideia de que ativos devem proteger ativos, independentemente do momento de mercado e do perfil do investidor. Embora não exista a alocação perfeita, que garanta que o investidor não vá sofrer um pouco mais em determinados momentos, usar a correlação histórica entre as classes de ativos para definir a alocação traz algum conforto, pois mesmo que o pior aconteça no mercado, a carteira irá conseguir se defender bem.

Hipersensibilidade

Alguns autistas são hipersensíveis em alguns dos seus sentidos do corpo humano. O João é levemente sensível ao som alto, já que ele não gosta de entrar em locais muito cheios e nem barulhentos. Embora não seja o caso dele, há casos em que essa hipersensibilidade provoca uma crise sensorial: a criança pode chorar, correr, se bater, se jogar no chão, dentre outras coisas. Nessas horas, os pais ou responsáveis devem permanecer calmos e trocar a criança de ambiente se possível, para que ela se autorregule.

No caso do investidor, a hipersensibilidade principal se dá por conta da flutuação dos preços dos ativos nos momentos de estresse, a famosa volatilidade. O fluxo de notícias negativas somado ao fato de ver seu patrimônio investido momentaneamente diminuir, gera bastante insegurança em alguns. Em março de 2020, por exemplo, muitos investidores que estavam bastante alocados em renda variável, liquidaram suas posições no pior momento. No nosso comparativo, isso pode ser avaliado como um momento de crise do investidor. Nesse caso, é sempre importante contar com o aconselhamento de um bom profissional, que possa trazer mais racionalidade à tomada de decisão.

Estereotipias

Esse é um dos principais traços dos autistas. São movimentos repetitivos que ajudam a pessoa a lidar com excesso de estímulos. O João, por exemplo, quando está assistindo ao seu desenho no celular, gosta de ficar correndo de um lado para outro. Essas repetições geram segurança na criança autista. Quanto mais ela repete os mesmos rituais, mais aquilo gera bem-estar nela.

Pois bem, imagine o nosso investidor que começou a investir há pouco mais de cinco anos. Ele já viu muita coisa acontecendo no mercado desde então, e quanto mais os eventos se sucederam, mesmo que não tenham sido exatamente repetidos, a tendência é que tenha se sentido cada vez mais seguro à medida que via as coisas sempre voltando ao normal após cada susto. É essa sucessão de eventos similares que faz com que o investidor consiga cada vez mais assimilar suas consequências.

Hiperfoco

Talvez você já saiba, mas o autista tem um grande poder de concentração sobre determinado assunto de interesse, o que é conhecido como hiperfoco. No caso do João, por ser uma criança de 3 anos, esse hiperfoco é o seu desenho no celular, como já mencionei anteriormente. No momento em que está assistindo, não importa absolutamente nenhum ruído ao seu redor, ele simplesmente se concentra em seu objetivo: assistir ao desenho. Em casos de crianças maiores, adolescentes ou pessoas adultas, o hiperfoco chega a atingir um nível de profundidade impressionante, como por exemplo, saber em que dia da semana ocorreu determinada data no passado, fazer contas de cabeça com vários dígitos, e assim por diante.

O investidor é diariamente bombardeado com informações das mais variadas fontes e, muitas vezes, é facilmente convencido por esses ruídos a mudar o rumo que estava tomando até então. Conseguir filtrar esses “trash talks”, ou seja, separar aquilo que não vai fazer diferença nenhuma na sua estratégia no longo prazo, e se manter focado no básico, é o que vai fazer a diferença na construção do patrimônio. O básico, nesse caso, nada mais é que: aportes frequentes, uma carteira balanceada e tempo.

Espero que a nossa jornada no mundo do autismo, mesmo que ainda curta, tenha conseguido trazer algumas reflexões para você como investidor.

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