
Se você olhar o retorno do Ibovespa em março, pode até acreditar que o Brasil entrou em modo bull market ao subir 6,1% em reais e 9,1% em dólares – o melhor mês da Bolsa desde agosto do ano passado. No acumulado de 2025, já são impressionantes +17% em dólar. Mas antes de comemorar ou raspar todas as ações da B3, vale entender o que realmente está por trás dessa alta.
A XP soltou recentemente mais uma edição do XP-Ray, relatório mensal sobre os mercados, e o que mais me chamou a atenção foram os dados de fluxo. E aqui vai o ponto principal: o rali da bolsa brasileira em 2025 não tem nada a ver com Brasil – pelo menos não ainda.
A alta dos mercados é global, o Brasil só pegou carona
Boa parte dos retornos recentes pode ser explicada por uma rotação global de capital: os investidores estão reduzindo exposição aos Estados Unidos e aumentando posições em Europa e mercados emergentes. O Ibovespa, o Euro Stoxx e até o índice de Hong Kong vêm performando melhor que os índices americanos, tanto em março quanto no acumulado do ano.
Em março, o S&P 500 caiu 5,8% e o Nasdaq afundou 7,7%. No ano, a queda é mais contida: -4,6% e -7,7%, respectivamente.
Apesar da alta no ano, o Ibovespa ainda continua bem para trás quando olhamos o retorno desde o início de 2024:

Mas de onde vem o dinheiro?
Dos ETFs globais e de emergentes. O relatório mostra que os fundos de índice com foco em mercados emergentes captaram mais de US$ 5 bilhões no ano, enquanto os ETFs voltados para Europa receberam mais de US$ 14 bilhões. Já os ETFs especificamente brasileiros, como o EWZ, viram resgates líquidos. Isso mesmo: apesar da alta do Ibovespa, o EWZ perdeu dinheiro.
Ou seja: o gringo está comprando Brasil via ações específicas, dentro de ETFs globais, e não necessariamente porque acredita no país. O fluxo está vindo mais pelo contexto macro global do que por alguma convicção em relação às eleições de 2026, ao arcabouço fiscal ou qualquer melhora estrutural doméstica.
Será que o investidor estrangeiro, de fato, não está ligando para o aumento da desaprovação de Lula?

O dólar ajudou – e muito a bolsa
Outro fator importante foi o comportamento do câmbio. Em 2024, o real foi uma das moedas que mais se desvalorizou no mundo, perdendo 25% frente ao dólar. Já em 2025, só no mês de março, o real valorizou 3,1%, acumulando alta de 7,6% no ano. Como o Ibovespa tem um beta negativo frente ao dólar (ou seja, sobe quando o dólar cai), isso amplificou os ganhos da bolsa, especialmente para o investidor estrangeiro.
Com o dólar próximo de máximas históricas (em termos de índice ponderado pelo comércio global), analistas começam a questionar se a moeda americana não estaria esticada demais. E, se isso for verdade, o movimento de rotação global pode continuar – o que continuaria beneficiando mercados como o Brasil.

E daqui pra frente?
O investidor local continua fora da bolsa. Mesmo com a alta, os fundos de ações brasileiros seguem com resgates e o interesse de pessoas físicas ainda é baixo.

Quem tem sustentado o rali são os investidores estrangeiros, que já trouxeram mais de R$ 12 bilhões líquidos para a bolsa brasileira só em 2025 — sendo R$ 5,2 bi só em março.

A pergunta que fica é: até quando?
Enquanto o fluxo continua positivo, a festa pode seguir. Mas se o humor lá fora mudar, ou se o dólar voltar a se fortalecer, o Ibovespa pode sentir. Não se trata de pessimismo, e sim de reconhecer que a bolsa brasileira, hoje, depende mais do gringo do que de qualquer outro fator.
Por isso, mais do que se perguntar se “o Brasil voltou”, talvez a pergunta certa seja: o fluxo vai continuar?