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“Caiu, comprou?” Não mais

Estamos entrando no terceiro grande ciclo do mercado e a história não parece nada boa

Por Thiago Salomão

10 abr 2023 11h17 - atualizado em 10 abr 2023 11h26

Ao longo dos quase 15 anos que acompanho o mercado brasileiro de ações diariamente, vivenciei dois grandes ciclos na bolsa. Claro que esses ciclos tiveram “mini-ciclos”, mas entendo que existia uma realidade entre 2009 e início de 2016 que foi totalmente diferente do que vivemos entre 2016 e 2021.

De 2021/2022 pra cá, acredito estarmos entrando num 3º ciclo.

Ciclo 1: Onde os Fracos Não Têm Vez

O primeiro veio após a crise de 2008. Tivemos uma forte queda no Ibovespa naquele ano e em 2009 recuperamos praticamente tudo que caímos (a alta do IBOV naquele ano foi de 82%!) e parecia que voltaríamos ao normal. Mas não: de 2010 a 2015, nossa bolsa foi caindo em ritmo de escada rolante, até ter um mergulho no final de 2015 e início de 2016.

Eu definiria esse período como “Onde os Fracos Não Têm Vez”. Na carteira de ações, ganhava quem investia no que com certeza sobreviveria numa grande crise. Eu não estou brincando: se você acha que as carteiras dos fundos de ações hoje em dia são parecidas entre si, precisava ver naquela época. Era como querer encontrar novidades num museu.

Na imagem abaixo, você pode ver a forte queda em 2008, a recuperação em 2009 e depois a longa “lateralização + queda” entre 2010 e janeiro de 2016.

Pra ter uma noção de como era o mercado naquela época, vou deixar aqui a tabela que montei para uma matéria que escrevi em 2014 na extinta Revista InfoMoney, citando um estudo que a Verde Asset preparou na época, mostrando quais os “tipos” de empresa que eram as vencedoras da bolsa brasileira entre 2008 e ago/2013.

Dentre os dois grupos vencedores (“Qualidade” e “Oligopólio”), considere como exemplos Itaú/Bradesco, Cetip, Renner, Cielo, Localiza, Raia Drogasil… companhias que entregavam resultados consistentes e/ou que tinham uma bela distância (de market share e de margem) para os segundos colocados de seus setores.

Ciclo 2: Caiu, comprou

Esse primeiro ciclo durou até janeiro de 2016. Em fevereiro começou a surgir uma nova fase do mercado, mais otimista. Naquele mês, tivemos a condução coercitiva de Delcídio do Amaral, que foi o primeiro grande evento de uma série que culminou no  impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Quem demorou demais para desligar a chavinha de “pessimista” ficou pra trás: o Ibovespa disparou 20% em poucas semanas entre fevereiro e março e empresas que antes jamais entrariam na carteira de grandes gestores eram as grandes estrelas desse rali: estatais, siderúrgicas, imobiliárias, varejistas…

Óbvio que tivemos grandes solavancos entre 2016 e 2021 (this is Brazil). Quem estava por aqui nessa época vai se lembrar do pânico que foi o “Joesley Day” em maio/17, a “Greve dos Caminhoneiros” em maio/18 e o “efeito Covid” em mar/20 (claro que a pandemia durou muito mais que isso, mas o impactos negativo na bolsa limitou-se a um mês).

Os três eventos tiveram algo em comum: quem comprou após estas grandes quedas não teve do que reclamar. Surgiu o “caiu, comprou!”, uma versão tupiniquim do “buy the deeps” lá fora.

Em 2021, tivemos a máxima histórica (131.190 pontos) e o maior fechamento do Ibovespa (130.776 pontos) alcançados no dia 7 de junho. Também nesse período, tivemos uma enxurrada de investidores pessoa física chegando na B3 (hoje temos 5 milhões de CPFs na bolsa, 10 vezes maior do que no primeiro ciclo) e um “boom” de IPOs.

Febre de pessoa física + IPOs a rodo: sinto cheiro de fim de festa. Parafraseando o presidente do Citi em 2008, Chuck Prince, que na época da crise disse: “As long as the music is playing, you’ve got to get up and dance” (tradução livre: Enquanto a música estiver tocando, você tem que levantar e dançar).

Uma hora, a música precisava parar. E parou.

Ciclo 3: ainda sem nome (mas tem cara de filme de terror)

A partir da metade de 2021, tivemos um mercado muito errático, que se agravou em 2022: o conflito armado entre Rússia e Ucrânia, a falta de insumos em diversas indústrias por conta do choque entre oferta e demanda provocado pela pandemia e o início do ciclo de alta dos juros deixaram investidores superlativos nesse período.

Howard Marks e muitos outros estudiosos já nos ensinaram muito sobre ciclos de mercado. Depois de uma grande alta, vem uma grande queda. Vale dizer: se aqui tivemos duas fases nesses 15 anos, na bolsa dos EUA essa fase foi basicamente uma só: “caiu, comprou”. De 2008 até 2021, os juros praticados por lá foram bem próximos de 0% e o Fed estimulou o máximo que pode sua economia, fazendo com que cada queda das ações fosse vista como uma oportunidade.

A previsão de que uma grande crise virá para corrigir todas as benesses feitas por governos e BCs mundo afora vem de muito tempo. Só que essa crise iminente nunca parecia chegar nos mercados. Pelos eventos de março, parece que ela chegou.

Em apenas uma semana, dois bancos foram liquidados nos EUA – e muitos outros estão com um sinal amarelo gigantesco. O dano podia ser ainda maior se o Credit Suisse não fosse “salvo” pelo UBS. Em meio a esses eventos, tivemos as maiores oscilações intradiárias dos yields das treasuries americanas – e se a mãe de todos os mercados balança, o resto do mundo vai sacudir.

“Então é hora de ficar 100% fora de bolsa?” Claro que não. Da mesma forma que não era pra ter 100% de bolsa nos ciclos de bonança (aliás, preguiça de falar isso de novo, mas mercado não é uma coisa binária, de “vende tudo” ou “all in”, pelo menos isso não funciona pra mim. Tenha sempre diversificação, alocando mais dinheiro onde você acha que tem que ter mais para determinado momento. Tão simples quanto isso).

Mas o momento não é óbvio e, mesmo tendo muita coisa barata na bolsa, essas ações podem ficar ainda mais baratas – ou baratas por muito tempo. A filosofia “caiu, comprou!” deu muito certo por muito tempo. Mas talvez agora seja hora de mudar a estratégia.

Fizemos mudanças significativas na Carteira Market Makers na última semana. Aumentamos ainda mais a posição de caixa da nossa carteira, trouxemos uma ação mais defensiva para o time e reduzimos a concentração que tínhamos em alguns ativos.

Vejo muita coisa barata na bolsa, mas a recompensa que recebemos esperando um melhor momento (leia-se “deixar o dinheiro na renda fixa”) está pagando bem o suficiente para exercitarmos nossa paciência ficando do lado de fora. Gravamos um vídeo para os nossos assinantes explicando sobre essas mudanças e a inclusão desta nova empresa.

Deixo aqui o link se você não é assinante e quer conhecer nossa comunidade.

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Por Thiago Salomão

Fundador do Market Makers, analista de investimentos CNPI-P, MBA em Mercados Financeiros na Fipecafi e na UBS/B3. Antes de fundar o MMakers, foi editor-chefe do InfoMoney, analista de ações na Rico Investimentos, co-fundou o podcast Stock Pickers e foi sócio da XP de 2015 a 2021

thiago.salomao@mmakers.com.br