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Carro elétrico vale mesmo a pena?
Leopoldo Rosa fala sobre a febre do carro elétrico e do que pode vir por aí
Carros elétricos (ou eletrificados) são uma febre. A questão que pega – e isso vale para quem quer comprar um ou investir numa empresa desse segmento – é se será uma febre passageira ou algo permanente, com lastro.
Sobre isso é a reportagem de capa da nova edição de The Report, a revista digital do Market Makers, assinada pelo repórter Hugo Passarelli e editada por mim.
E como é de hábito por essas bandas de cá, eu resumo um pouco desse tema em cinco pontos. A reportagem completa está aqui.
#01
O Brasil acelerou — e o mundo não vai frear
O Brasil saiu de 40 mil carros elétricos em 2020 para mais de 481 mil em meados do ano passado. Metade desse volume foi emplacado apenas em 2025. É uma curva de adoção que ganhou inclinação e não dá sinais de acomodar.
O dado mais revelador, porém, não é o crescimento absoluto — é o contraste. Enquanto o mercado automotivo tradicional avança míseros 2,7% em 2026, os veículos eletrificados já somam quase 49 mil novos emplacamentos no mesmo período. A participação desse segmento, que beirou 10% em 2025, pode chegar a 15% ainda este ano. São dois mercados dentro de um mesmo setor, se movendo em velocidades completamente diferentes.
Para o investidor, essa assimetria importa. Quando um segmento cresce na contramão do seu setor-mãe, algo estrutural está em curso. A questão não é mais se a eletrificação vai acontecer. É entender quem vai lucrar com ela e quem vai ficar para trás.
#02
O verde ou a tela?
Se você ainda acha que o consumidor compra carro elétrico por consciência ambiental, precisa atualizar a tese. O que está puxando a demanda hoje é tecnologia — e isso muda tudo na leitura do mercado.
Múltiplas telas, assistentes de condução, integração com smartphones, câmeras, sensores e sistemas de segurança ativa. O carro virou um dispositivo eletrônico sobre rodas. E o consumidor, já acostumado a trocar de celular a cada dois anos em busca do modelo mais avançado, está levando essa mesma lógica para a garagem. “Mais do que preço, o consumidor olha tecnologia”, resume Ricardo Bastos, presidente da Associação Brasileira do Veículo Elétrico.
Esse deslocamento do apelo — do ambiental para o tecnológico — amplia a base de potenciais compradores e torna o crescimento do setor menos dependente de incentivos governamentais ou convicções ideológicas. É demanda genuína, movida por valor percebido. Para quem analisa empresas, isso é exatamente o tipo de vento favorável que sustenta teses de longo prazo.
#03
A guerra dos motores – até agora
O 100% elétrico avança, mas quem está puxando o crescimento no curto prazo são os híbridos plug-in. E a lógica é simples: eles eliminam a principal objeção do consumidor brasileiro — a ansiedade de autonomia.
Com recarga doméstica no dia a dia e motor a combustão disponível nas viagens longas, o híbrido entrega economia sem exigir fé cega na infraestrutura pública.
No Brasil, essa equação faz ainda mais sentido. Um país continental, com uso intensivo em áreas rurais e uma malha de carregadores que ainda não acompanha o crescimento da frota, não tem perfil para uma transição abrupta ao elétrico puro. O híbrido, por ora, é o meio-termo racional — e o mercado está respondendo a isso.
O carro a combustão não morreu, mas está sendo empurrado para as margens da conversa. Montadoras tradicionais que não investiram em eletrificação estão enfrentando pressão crescente de competidores que chegaram mais preparados. A batalha não é entre motoristas — é entre modelos de negócio.
#04
China à frente na corrida
A indústria de carros elétricos deixou de ser uma disputa de inovação e virou uma guerra de escala, eficiência e custo. Quem entende isso tem uma vantagem analítica relevante. E quem entende escala, entende por que a China está ganhando.
Com produção anual superior a 30 milhões de veículos, as montadoras chinesas construíram uma vantagem estrutural que leva décadas para ser replicada. Isso permite diluir custos, lançar modelos em ritmo acelerado e operar com margens que nenhuma concorrente ocidental consegue sustentar. A BYD, em particular, vai além: é uma empresa verticalizada que controla desde as baterias (que podem representar até 60% do custo de um elétrico) até a experiência final do consumidor. Não à toa, ela hoje lidera vendas de elétricos em 40 mercados globais, contra 26 da Tesla.
A tese de crescimento, porém, não está mais dentro da China — está fora. Sudeste Asiático, Europa, América Latina e África seguem em estágios iniciais de eletrificação. Quem já tem escala e tecnologia para chegar nesses mercados com preço competitivo larga na frente. O jogo global está só começando.
#05
Tesla, gargalos e o que ainda trava a corrida
A Tesla, que já liderou a corrida dos elétricos com folga, vive um momento de reposicionamento delicado.
Pressionada em preço pelas chinesas, a empresa migra o foco para direção autônoma, robótica e inteligência artificial. E as ações da companhia seguem respondendo mais à figura de Elon Musk do que aos fundamentos do negócio. É um ativo difícil de precificar racionalmente.
Do lado da infraestrutura, o gargalo dos carregadores segue como o principal calcanhar de aquiles do setor. O Brasil conta com cerca de 21 mil pontos públicos e semi-públicos — um número que cresce, mas ainda não dá conta de uma frota em expansão acelerada. A prioridade agora é qualidade: mais carregadores rápidos, cobertura em rodovias e integração em rotas de viagem.
A expectativa do setor é de um salto mais relevante entre 2027 e 2028, com novas tecnologias de bateria reduzindo custos e ampliando autonomia. Para o investidor com horizonte de médio prazo, esse é o intervalo que merece atenção — quando a infraestrutura e os preços podem, finalmente, andar juntos com a demanda.
Ponto final
A eletrificação é uma reorganização profunda de uma das maiores indústrias do mundo — e ela está acontecendo agora, com vencedores se consolidando antes que a maioria dos investidores perceba o movimento.
Quem combinar custo, escala e inovação vai liderar a próxima fase. Quem ficar esperando a poeira baixar pode chegar tarde. A reportagem completa está na nova edição da revista e, modéstia à parte, vale cada página.