Tem gente que trata criatividade como dom.
Como se fosse uma espécie de “bênção” que cai na sua cabeça numa terça-feira iluminada — e, se não cair, azar: você nasceu do lado errado do gene.
Isso é uma grande bobagem. E posso dizer por experiência própria:
Nem de longe tenho esse tal dom, mas desde 2009 sou “obrigado” a produzir diariamente conteúdos de finanças para que pessoas com menos conhecimento no assunto possam entender a mensagem.
Foi assim minha carreira no Infomoney de 2009 até 2018, onde eu fui estagiário, redator, repórter, até me tornar chefe de toda redação e da TV do portal.
Sim, existem pessoas bem mais criativas do que outras. Mas o treino premia o esforçado no longo prazo. E um cérebro bem treinado poderá ser mais criativo por muito mais tempo, e não viver de lapsos de genialidade.
A analogia com o futebol é inevitável: Valdivia foi o camisa 10 mais genial que vi no Palmeiras, mas sua facilidade em se entregar à boemia e hábitos pouco saudáveis fizeram sua passagem ser muito menos marcante e vitoriosa do que de craques como Raphael Veiga – não tão genial quanto Valdivia mas muito mais dedicado.
Mas há um ingrediente fundamental neste treinamento e que fez toda diferença na minha vida: o prazo. O deadline. O “quando entregar”.
Numa redação, você não só precisa entender um assunto complexo a ponto de transformar em um texto fácil de ler, mas também fazer isso no menor tempo possível. “Texto não se finaliza, se entrega”, costuma-se dizer em redações.
Criatividade sem deadline é hobby. Criatividade com deadline vira entrega. E a diferença entre os dois é brutal:
Hobby te dá a delícia de começar coisas, mas a entrega te dá o incômodo de terminar.
Colocar prazo para as entregas é a melhor forma de aperfeiçoar uma habilidade.
“Mas Salomão, se eu não sou jornalista, pra que me serve esse papo?”
Qualquer pessoa que trabalha com cabeça (gestor, analista, empreendedor, escritor, criador, executivo, estudante, “cérebro profissional” em geral) precisa escrever suas ideias. E ter prazo para isso te torna desconfortavelmente eficiente.
Li Lu, conhecido como “Warren Buffett chinês” e um dos poucos homens a quem Charlie Munger confiou seu dinheiro, já disse uma vez que a profissão do analista e do jornalista muito se assemelham (eu já fiz um vídeo sobre a história dele – clique aqui para assistir).
Foi a mesma coisa que eu ouvi do Rodolfo, fundador da Empiricus, quando em 2011 ele me fez uma proposta para sair da Infomoney e virar analista na Empiricus. Ele me disse que eu ia ter que estudar uma empresa, apurar, conversar com pessoas para montar meu estudo, tal qual já fazia no Infomoney. A diferença é que em uma redação isso vira um texto sem opinião, enquanto numa casa de análise eu definirei se é pra investir ou não na empresa. Os inputs são os mesmos, o que muda é o output.
E até mesmo Ruy Alves, gestor da Kinea e um dos grandes ídolos da audiência do Market Makers, revelou isso na sua participação no nosso podcast Second Level. A própria Kinea decidiu externalizar pesquisa, publicando relatórios abertos em seu site.
Uma das coisas que Ruy citou como aprendizado desenvolvido com essa atividade é a mistura de inspiração com deadline. “Eu não preciso de mais tempo, eu preciso de deadline”, disse Ruy, citando o compositor Duke Ellington.
No mercado financeiro, tese sem prazo vira “convicção eterna”. Aquele PowerPoint que nunca acaba.
No trabalho “tradicional”, projeto sem prazo vira reunião, que vai virar um comitê e que vira cemitério.
Na vida, plano sem prazo vira desejo. Desejo vira frustração.
Por muito tempo eu sofri com a ilusão de que criatividade é melhor quando está solta. Mas quando você menos percebe, aquela ideia se tornou um Tamagochi: você se apega, alimenta, cria um nome, um vínculo emocional… o projeto virou um bichinho de estimação.
A criatividade floresce quando há sim a liberdade para pensar. Mas ela precisa também da obrigação para entregar.
É igual academia: você não fica forte lendo sobre musculação. Você fica forte repetindo o movimento — e respeitando a carga.
No caso, a carga é o deadline.
Se você quer ser criativo de verdade, pare de esperar o momento perfeito. Crie um sistema onde o perfeito não é permitido — porque o prazo chegou.
Criar um sistema vence esperar o cenário ideal — no mercado, isso significa se preparar antes do consenso.
É com essa mentalidade que eu e meu sócio Matheus Soares vamos realizar o “Mapa da Bolsa 2026: oportunidades e riscos de um ano eleitoral”, um encontro ao vivo e gratuito no dia 19 de janeiro (segunda), às 19h30, em um link restrito para inscritos.