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4min leitura

Duas regrinhas de bolso para o investidor de ações

Seja um "contrarian"

Por Thiago Salomão

23 jan 2023 10h58 - atualizado em 23 jan 2023 10h58

Contrarian: termo em inglês usado no mercado financeiro para designar pessoas que investem em ativos que ninguém está investindo – ou evita investir naquilo que todos investem. Numa tradução livre, seria um investidor “contrário” ou “do contra”, nomes que justificam o uso da terminologia estrangeira.

A definição parece bem simples, mas a utilização prática gera controvérsias. Muita gente se diz contrarian mesmo que, na prática, não seja.

Afinal, que investidor teria orgulho em dizer que se considera um “anti-contrarian”, ou o total oposto de um contrarian? Seria como dizer que ele segue a manada e investe naquilo que todos investem.

Existe uma pergunta cuja resposta pode te ajudar a definir se você é contrarian ou não: você prefere errar com todo mundo ou correr o risco de acertar sozinho (podendo errar sozinho também)?

Eu prefiro adaptá-la a um caso real: se você tivesse ações da Americanas (AMER3) na carteira desde antes do anúncio da fraude bilionária que fez a ação cair mais de 90% neste começo de ano, como você estaria se sentindo?

Claro que “muito puto” seria uma resposta óbvia, mas o foco deste autoexercício é tentar descobrir o quanto te incomodaria ter cometido este erro de análise ao seu investimento numa empresa grande e (até então) confiável quase que virar pó de uma hora pra outra.

É engraçado como nosso cérebro funciona, mas ao saber que muito mais gente também se ferrou junto contigo num investimento traz uma sensação de alívio. É como se o erro alheio amenizasse sua dor, por mais que ela seja exatamente a mesma caso você errasse sozinho.

Se essa sensação de “perda coletiva” te traz um alívio muito grande, dificilmente você será um investidor “contrarian”. Quem se dispõe a comprar na bolsa o que os outros negligenciam precisa estar disposto ao escrutínio de errar sozinho. Faz parte.

Um contrarian acredita que o comportamento de manada entre os investidores pode levar a preços exageradamente incorretos em certas ações. Por isso, ele evita estar comprado no que todos estão comprando ou ficar “short” no que todos estão vendendo. Tão simples quanto isso.

O pessimismo generalizado sobre uma ação pode deixar seu preço tão baixo que subestima a capacidade da empresa e seus líderes de voltar à lucratividade. Por outro lado, um otimismo em massa pode resultar em avaliações injustificadamente altas, e quando esse cenário perfeito não se concretiza, os preços cairão.

Tivemos muitos casos recentes na nossa bolsa de “choque de realidade” que veio após um otimismo generalizado: Natura e Hapvida são exemplos emblemáticos de ações que estavam nas carteiras da maioria dos fundos do Brasil mas que tiveram uma forte queda em 2022.

O principal benefício prático do contrarian que pouca gente comenta: todos os motivos para você comprar uma ação estão (ou deveriam estar) sob seu controle. Você não sofre a influência exógena que vimos no caso acima: “puxa vida, todo mundo tem Natura na carteira, não tem como ser um negócio ruim”.

Se o fundamento que fez um contrarian comprar uma ação não faz mais sentido, ele não tem nenhuma interferência externa que lhe impeça de vendê-la. Isso por si só já vai te obrigar a conhecer a empresa de maneira bem profunda.

Claro que esse lado bom tem um preço: você precisará se dedicar muito para entender tudo que se passa com a empresa, inclusive para entender qualquer novidade que possa surgir.

Sentimos isso na pele por duas vezes neste começo de 2023: duas empresas da carteira recomendada Market Makers foram alvo de notícias bem importantes para o futuro delas. O fato de conhecermos elas muito bem nos trouxe segurança para analisar com frieza o que pode acontecer com elas.

Se tivéssemos encarteirados elas apenas porque fulano ou beltrano também têm, teríamos tido dias bem mais difíceis (só pra não deixarmos os “não-assinantes” curiosos: mantivemos as duas ações na carteira).

Ser contrarian pode te fazer acertar sozinho quando todos errarem. Mas o oposto também é verdadeiro. Para mitigar esse risco, a solução é simples: diversifique.

Mais do que diluir o risco da tua carteira, diversificar é a maneira mais simples de tirar o viés da tua análise. Afinal, o excesso de exposição a uma única ação pode te transformar num “torcedor” da ação, que vai ser buscar as coisas boas da tese e ignorar os problemas.

Esse excesso de viés certamente ofuscará seu senso crítico, que é a característica fundamental que todo investidor precisa ter. Diversificar é o que manterá um contrarian vivo neste jogo, mesmo que ele faça escolhas solitárias muito erradas, como Americanas.

Ser contrarian e diversificar: a regra de bolso que todo investidor de ações deveria seguir.

Se quiser saber mais sobre a carteira recomendada Market Makers (das ações à filosofia de investimentos), faça parte da nossa comunidade. O link para tornar-se assinante está aqui.

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Por Thiago Salomão

Fundador do Market Makers, analista de investimentos CNPI-P, MBA em Mercados Financeiros na Fipecafi e na UBS/B3. Antes de fundar o MMakers, foi editor-chefe do InfoMoney, analista de ações na Rico Investimentos, co-fundou o podcast Stock Pickers e foi sócio da XP de 2015 a 2021

thiago.salomao@mmakers.com.br