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É preciso alinhar as expectativas

Como uma ação pode perder três quartos do valor por causa de dois resultados trimestrais?

Por Renato Santiago

14 jul 2022 12h39 - atualizado em 14 jul 2022 02h44

O mercado costuma (ou costumava, até a recente extinção da era do dinheiro grátis) classificar as empresas entre as de valor e as de crescimento. No primeiro caso, trata-se de companhias maduras, com receitas consolidadas.

No segundo caso, de empresas das quais se espera um crescimento acelerado, maior que a média do mercado. Se a expectativa de crescimento se confirma, portanto, o preço sobe; se não, cai.

Nos últimos meses, assistimos um dos casos mais espetaculares de queda do preço de uma ação por uma quebra de expectativa: o da Netflix. E aparentemente isso diz mais sobre as expectativas do que sobre as empresas.

Em outubro de 2021 os papéis da companhia valiam US$ 690. Depois da divulgação dos resultados do terceiro trimestre, foi uma queda livre até os US$ 176. A empresa começou a perder valor ao divulgar os resultados do segundo trimestre do ano passado, quando revelou ter ganho 1,5 milhão de assinantes e previsto ainda uma perda de 2 milhões nos meses seguintes. Na última divulgação de resultados, a Netflix revelou ter perdido 220 mil assinantes.

Não quero aqui ensinar análise para analistas — tirei meu CNPI, mas até o momento ele permanece bem guardado — mas me parece que, quando um movimento de preço tão drástico acontece, é porque alguma das expectativas estava muito errada. Isso é lógica, não é valuation.

O que acontece em casos assim? Analistas esperavam um crescimento irreal? Ou estão esquecendo que o lucro pode vir de lugares que não são apenas o crescimento acima da média? Será que os analistas realmente esperavam que todas as pessoas do mundo viessem a assinar o mesmo streaming?

A resposta fácil está naquela frase feita: “o mercado é bipolar, não tem jeito.”

Isso pode até ser verdade, mas alguém aqui tem que estar errado.

Por isso nós perguntamos pro Gabriel Raoni, da IP, investidor e profundo conhecedor do case. Na opinião dele, a queda foi excessiva, por três motivos:

  • Netflix perdeu clientes por aumento de preço, não por que perdeu a mão no conteúdo
  • Esses clientes não estão assinando outros serviços
  • A companhia ainda tem duas poderosas armas de monetização: planos com anúncios e cobrança por compartilhamento de senhas

A IP comprou Netflix a US$ 350, portanto tem hoje uma perda de cerca de 50%, em uma posição que representa mais ou menos 5% da carteira. Mesmo assim o papel permanece no portfólio justamente pelos itens citados acima. “O mercado precifica o fim do crescimento, mas a empresa ainda tem muitos caminhos para crescer”, diz Raoni.

A explicação completa sobre o case está no nosso segundo episódio. Para assistir, é só clicar aqui.

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Por Renato Santiago

Jornalista, co-fundador do canal Market Makers e do Stock Pickers, duas vezes eleito o podcast mais admirado do Brasil. Passou por grandes redações do país, como o jornal Folha de S. Paulo e revista Exame, e atuou na cobertura de diferentes temas, de cotidiano até economia e negócios. Sua missão, hoje, é a de usar sua expertise editorial e habilidades de reportagem para traduzir o mundo das finanças e mercado financeiro ao grande público.

renato.santiago@empiricus.com.br