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Ele conseguiu segurar um trem-bala: Como Marcos Mendes ajudou a “stopar” um projeto megalomaníaco de R$ 35 bilhões do governo

Por Renato Santiago

17 mar 2023 14h30 - atualizado em 17 mar 2023 02h53

“Por volta de 2012 havia um projeto de Brasil grande. Tudo podia, o governo iria investir em tudo… Então surgiu um tal de Trem de Alta Velocidade, e todo mundo falava com a maior naturalidade daquilo. Aí eu fui olhar as contas”.

“O projeto tinha falhas graves. Era um custo de R$ 35 bilhões e não tinha previsão de contingência nenhuma. Os custos totalmente subfaturados em relação a projetos da China e da Europa, a quantidade de passageiros sueperestimada. Fiz uma nota de dez páginas e tenho a impressão de que eu fui o primeiro que se insurgiu contra aquilo”.

Cena do filme Homem-Aranha 2

O relato de Marcos Mendes no último episódio do Market Makers revela uma triste obsessão do Brasil: a de desperdiçar dinheiro em projetos e políticas de baixa qualidade e que, em vez de ajudar ou enriquecer o Brasil, empobrecem.

Quer outro exemplo? A política de desenvolvimento regional. “Desde os anos 50 gastamos 1% do PIB ao ano no desenvolvimento regional e isso não resultou em mais renda no Norte e Nordeste”, diz Mendes.

Mas por que políticas assim sobrevivem? Segundo Mendes, por que os governos parecem não se importar com seus resultados e por que muita gente acaba se beneficiando delas — de modo republicano ou não.

CPI dos Precatórios

No começo de sua carreira, Mendes trabalhou no Banco Central, onde monitorava operações de títulos públicos estaduais (hoje extintos). Por lá seu hábito de fazer contas e de tentar encontrar o que está errado também resultou em menos desperdício de dinheiro público.

“Os títulos de alguns estados tinham um caminho muito curioso. Por exemplo, no Paraná, O Banestado vendia uma letra do Estado com uma taxa X e passava para uma empresa do mercado por X + Y, que repassava por X + Y + Z. E no fim do dia o Banestado comprava por X + Y + Z + A. Eu olhava a aquilo e perguntava por que todos os dias acontecem essas operações? De venda no início do dia por cinco e venda por dez”, diz. “Eu escrevia meus relatórios e logo depois estourou as CPI dos Precatórios”, afirma

O episódio

episódio com Marcos Mendes é uma verdadeira aula magna sobre como os problemas que causam o atraso e o empobrecimento do Brasil moderno nasceram e se perpetuam há tantas décadas. Das ideias da Cepal nos anos 1940 ao patrimonialismo que distorceu e ajudou a derrubar o teto de gastos, Mendes explica tudo, com dados, lógica e uma profundidade ímpar. Se você gostou das entrevistas com Marcos Lisboa e Samuel Pessôa, não perca a entrevista com o homem que segurou um trem-bala e praticamente pariu uma CPI.

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Por Renato Santiago

Jornalista, co-fundador do canal Market Makers e do Stock Pickers, duas vezes eleito o podcast mais admirado do Brasil. Passou por grandes redações do país, como o jornal Folha de S. Paulo e revista Exame, e atuou na cobertura de diferentes temas, de cotidiano até economia e negócios. Sua missão, hoje, é a de usar sua expertise editorial e habilidades de reportagem para traduzir o mundo das finanças e mercado financeiro ao grande público.

renato.santiago@empiricus.com.br