Notícia

5min leitura

icon-book

Três perguntas essenciais antes de investir em uma empresa

Tento respondê-las sempre que interajo com novos clientes

Matheus Soares

Por Matheus Soares

11 Mar 2026 15h02 - atualizado em 11 Mar 2026 03h02

Hoje eu gostaria de relembrar o primeiro episódio que eu e o Salomão gravamos com o Cristiano Souza, fundador da Zeno Equity Partners. 

Depois daquela conversa – e de algumas outras interações que tive com ele ao longo do tempo – posso dizer que acabei absorvendo uma parte importante do modelo mental do Cristiano. 

Desde então, praticamente toda vez que eu interajo com uma empresa, acabo tentando responder a três perguntas que ele trouxe naquele episódio: 

(I) Existe mentalidade de fundador? 

(II) A empresa possui poder de mercado? 

(III) Há oportunidades relevantes de reinvestimento? 

Para o Cristiano, a ausência de qualquer um desses três pilares já é suficiente para excluir uma empresa do seu universo de investimentos. 

Nesta carta, eu quero explorar cada um deles. 

Mentalidade de fundador 

Um dos três pilares que o Cristiano procura em todos os negócios em que investe é o Founders Mindset, ou mentalidade de fundador.  

As pessoas que pensam com mentalidade de fundador de verdade entendem que toda vez que você maximiza o lucro [no curto prazo], tem uma chance enorme de você estar prejudicando o lucro no longo prazo. […] o que você quer como um investidor de longo prazo é estar investido com pessoas que têm o interesse alinhado com o seu na perspectiva temporal com o seu. 

De acordo com ele, é como se pessoas com essa mentalidade de fundador estivessem dispostas a deixar dinheiro na mesa visando a perpetuidade da companhia.  

Quando a companhia chega no topo da montanha, 90% das vezes, as pessoas que estão sentadas lá vão maximizar o resultado de curto prazo. “Cheguei no topo da montanha e estou numa posição dominante? Vou aumentar o preço, vou maximizar minha margem, vou parar de investir em P&D, vou tratar mal meus funcionários, meus fornecedores”. Já o founder, o cara que pensa geracionalmente no negócio, o que ele vai fazer? Ele chega no topo da montanha e vai falar: “como eu faço pra ficar aqui o maior tempo possível? Pra eu conseguir ficar aqui nos próximos 20 anos eu não posso aumentar demais meu preço, não posso tratar mal meu fornecedor, não posso tratar mal meu funcionário porque são esses vetores que permitem com que eu fique aqui. Então não vou aumentar meu preço tanto quanto eu poderia. São raríssimas as histórias do cara que brilha como um sol por gerações.  

Poder de Mercado 

Já que o maior inimigo do investidor de ações é a competição, é necessário encontrar negócios que tenham escapado da força competitiva do capitalismo. Poucos negócios escapam e eles só escapam por possuírem Poder de Mercado – e deixarem ‘dinheiro na mesa’. 

São as companhias que criaram em torno de si os famosos moats do Buffett. O cara [empresa] tem um retorno sobre o capital investido alto. Tá bom. Como é que ele chegou lá? O que ele faz que outros não conseguem repetir. Por que não aparece alguém que rouba o monte dele? Ah, ele tem um custo de troca alto porque o produto dele é tão embrenhado no modelo operacional do cliente que o cliente não consegue jamais se desvencilhar dele. Ah, o cara criou um vínculo emocional com o seu consumidor que ele sabe alimentar muito bem e que é quase impossível de ser replicado, que é o que a gente vê muito nas empresas de luxo. O cara [empresa] tem uma cultura de criar valor incremental para o seu consumidor o tempo todo, obsessiva, que permite a ele estar sempre na frente dos seus competidores, que eu vejo muito a Amazon com essa característica. A Amazon é um exemplo incrível de companhia que passou décadas deixando dinheiro na mesa. A Amazon poderia ser muito mais lucrativa do que ela é, mas ela ESCOLHE não ser. Por que? Porque ele está ‘compounding’ aquela posição de mercado dela por muitos e muitos anos. Esse é o poder de mercado.  

Oportunidade de reinvestimento 

Durante o episódio, Cristiano citou o exemplo da Coca-Cola, empresa que teve um retorno medíocre na bolsa nos últimos 20 anos por não conseguir gerar valor incremental para o seu consumidor: 

“Tá bom, a Coca-Cola gera um montão de lucro em excesso, ele consegue reinvestir esse lucro de volta no negócio àquelas mesmas taxas de retorno que ele gera no negócio dele?” Durante muitos anos a Coca-Cola fez isso, só que qual foi a última grande inovação dela? Foi a Diet Coke há quase 40 anos. 

Ou seja, não basta ter (i) Mentalidade de Fundador, e (ii) Poder de Mercado apenas. É preciso que exista (iii) oportunidade de reinvestimento no negócio. Nas palavras do Cristiano, essa é uma condição imprescindível para o compounding

A conta é simples: você tem um negócio que gera 20% de retorno sobre o capital e consegue reinvestir metade desse lucro de volta no negócio. A 20% de retorno, ele vai crescer 10% ao ano. E se o negócio negocia a 20 vezes P/L [preço sobre lucro], que é 5% de earning yield [1/20 = 5%], você vai receber 2,5% de volta porque o cara vai reter metade e vai te distribuir metade, e o negócio vai crescer 10% porque ele reinvestiu metade a 20% ao ano. Ou seja, 2,5% + 10,0% dá 12,5%. Esse é o teu compounding.  

Então, o que você precisa ter: precisa ter a convicção de que aquele poder de mercado vai sustentar os retornos altos por muito tempo e você precisa ter a convicção de que ele vai conseguir reinvestir aqueles lucros a taxas altas de retorno. E daí entra o terceiro pilar, voltando para o fundador, que você precisa ter gente lá que vai trabalhar dia e noite para preservar essa equação. Que não vai acelerar demais e nem ficar complacente.  

Poucos episódios impactaram tão profundamente o meu jeito de investir, quanto esse. Se ainda não assistiu, eu recomendo que o faça. O link está aqui

Compartilhe

Matheus Soares
Por Matheus Soares

Fundador do Market Makers, analista responsável pela Carteira Market Makers de Ações. Antes de fundar o MMakers, foi analista responsável pela cobertura de Small Caps na XP Inc e analista fundamentalista da Rico Investimentos. Certificado no curso de Value Investing da Columbia Business School.

matheus.soares@mmakers.com.br