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Investir é fazer a lição de casa

Aprenda o que realmente importa com um dos maiores investidores do mundo

Por Matheus Soares

23 maio 2024 10h27 - atualizado em 23 maio 2024 10h27

A CompoundLetter de hoje é na verdade a transcrição de um trecho do podcast de Lex Fridman com Bill Ackman, um dos maiores investidores do mundo e fundador e CEO da Pershing Square, hedge fund americano que possui mais de US$ 18 bilhões em ativos sob gestão. Ele é conhecido por ser um investidor ativista, tendo participado, inclusive, de um dos maiores e mais controversos ‘trades’ do mercado financeiro norte-americano: o short em Herbalife e seu embate com Carl Icahn, outro investidor ativista, comprado na tese – história que foi documentada aqui

Em minhas horas de lazer, eu gosto de acompanhar as notícias e podcasts que ele participa não só porque o que ele fala faz preço, mas principalmente para absorver os valores do value investing, que é a filosofia que ele e nós, do Market Makers, acreditamos.

Nos 18 minutos iniciais que ele gravou com o Fridman ele traz conceitos importantíssimos sobre análise de investimentos e sintetiza incrivelmente bem o coração da profissão de um analista fundamentalista que tem como objetivo investir em empresas listadas em bolsa. O trecho é tão legal que decidi traduzi-lo para o português de modo que esses conceitos – os quais eu tento trazer aqui semanalmente – possam chegar até você. 

Acompanhe abaixo:

(Lex Fridman) Em sua palestra sobre noções básicas de finanças e investimentos, você menciona um livro, “Investidor Inteligente”, de Benjamin Graham, como importante em sua vida. Que lição você tira daquele livro que moldou seus próprios investimentos?

Claro. Na verdade, foi o primeiro livro de investimentos que li e, como tal, foi uma espécie de inspiração para minha carreira e grande parte da minha vida, então é um livro importante. Tenha em mente que ele foi escrito depois da Grande Depressão, as pessoas perderam a confiança em investir nos mercados, depois vem a Segunda Guerra Mundial e então ele escreve este livro. Foi escrito para qualquer pessoa ler. 

E basicamente ele diz que você tem que entender a diferença entre preço e valor: preço é o que você paga, valor é o que você recebe; e que o mercado de ações está aqui para servir você. É como o vizinho que faz uma oferta pela sua casa. Se ele fizer uma oferta estúpida, você ignora, mas se fizer uma ótima oferta, você pode aceitar, e esse é o mercado de ações. A chave é descobrir o valor das coisas.

No livro, ele ainda diz que, no curto prazo, o mercado de ações é uma máquina de votação, representando interesses especulativos – oferta e demanda das pessoas no curto prazo – mas que no longo prazo o mercado é uma balança – muito mais precisa e que sabe mensurar o valor das coisas. Então, se você pode estimar o valor das coisas, você pode realmente tirar proveito do mercado, porque ele está aqui para te ajudar. Essa é a mensagem do livro.

(Lex Fridman) A diferença entre especulação e investimento:

Especulação: É como negociar criptomoedas a curto prazo. Muitas vezes, os especuladores não sabem exatamente o valor de algo; eles simplesmente veem os preços subindo e tentam lucrar com essas movimentações de curto prazo. Durante uma bolha, muitos especuladores entram no mercado sem uma compreensão clara do valor intrínseco dos ativos, apenas seguindo a tendência de alta. A especulação é movida por interesses especulativos e a oferta e demanda de curto prazo.

Investimento: Envolve fazer sua lição de casa, aprofundando-se em entender um negócio, a dinâmica competitiva de uma indústria, os executivos da empresa e o preço que você está pagando. Então, investir é basicamente construir um modelo do que esse negócio vai produzir ao longo de toda a sua vida.

(Lex Fridman) Como você chega a essa ideia chamada investimento em valor? Como você chega ao valor de qualquer coisa?

O valor de um título de renda fixa é o valor presente do dinheiro que o título vai te pagando ao longo de sua vida. Então, um título [do governo americano] paga uma taxa de juros de 5%, você recebe isso, digamos, todo ano ou duas vezes por ano e é muito previsível. Se for um título do governo dos Estados Unidos, você sabe que vai receber, então é algo bem fácil de avaliar. Uma ação é uma participação em um negócio. É como possuir uma parte de uma empresa. E um negócio, se for lucrativo, é como um título, pois gera esses lucros ou fluxo de caixa todo ano [assim como um título de renda fixa]. A diferença entre uma ação e um título é que o título é um contrato, você sabe o que vai receber desde que não entrem em falência e inadimplência. Com a ação, você precisa fazer previsões sobre o negócio: quantos produtos vão vender este ano e no próximo ano? Quais serão os custos? Quanto do dinheiro que geram precisa ser reinvestido no negócio para mantê-lo funcionando? E isso é mais complicado. Mas o que fazemos é tentar encontrar negócios que sabemos quais serão esses fluxos de caixa por um longo período de tempo com um grau muito alto de confiança.

E há pouquíssimos negócios dos quais você pode ter uma confiança realmente alta. E, como resultado, muitos investimentos são especulações porque é realmente muito difícil prever o futuro. Então, o que eu faço da vida é encontrar essas raras empresas das quais você pode prever como serão ao longo de um período muito longo de tempo.

(Lex Fridman) Então, quais são os fatores que indicam que uma empresa vai ser algo que vai gerar muito dinheiro, terá muito valor e será confiável ao longo de um longo período de tempo? E qual é o seu processo para descobrir se uma empresa é ou não isso?

Então, cada consumidor tem uma visão sobre diferentes marcas e empresas. O que procuramos são negócios que não sejam disruptados. Um negócio onde você pode fechar os olhos, a bolsa fechar por uma década, e você sabe que daqui a 10 anos será uma empresa mais valiosa, mais lucrativa. Então, nós possuímos uma empresa chamada Universal Music Group. Ela está no negócio de ajudar artistas a se tornarem artistas globais, no ramo da música gravada e detém os direitos de publicação das músicas de compositores. E você sabe, a música é para sempre. A música é uma parte da experiência humana de milhares de anos e acredito que continuará sendo por milhares de anos a partir de agora. Então, esse é um cenário bastante bom para investir em uma empresa. Basicamente, a empresa possui um terço do mercado global de música gravada, a participação de mercado mais dominante no setor. Eles são os melhores em transformar um artista de 18 anos, com uma ótima voz e que começou a ter presença no Youtube e Instagram, em uma superestrela, e isso é um talento único, e o resultado é que os melhores artistas do mundo querem trabalhar para eles. 

Além disso, eles têm uma incrível biblioteca de música dos Beatles, Rolling Stones, U2 etc. E se você pensar no que a música se tornou, costumava ser sobre discos, CDs e fitas cassete de oito faixas para aqueles que se lembram. Agora se tornou um negócio semelhante ao negócio de podcasts, baseado em streaming, e o streaming é muito mais previsível do que vender discos. Você pode dizer: “Ok, quantas pessoas têm smartphones? Quantas pessoas terão smartphones no próximo ano? Existe uma penetração global ao longo do tempo de smartphones e você paga, digamos, 10 ou 11 dólares por mês por uma assinatura individual ou para um plano familiar e você pode meio que construir um modelo do que o mundo parece e prever o crescimento do negócio de streaming, prever qual será a participação de mercado da Universal ao longo do tempo, e você não pode chegar a uma visão precisa do valor. Você pode chegar a uma aproximação, e a chave é comprar a um preço que represente um grande desconto para essa aproximação. E isso remete a Ben Graham.

Ben Graham inventou o conceito de margem de segurança. Você quer comprar uma empresa a um preço em que, se estiver errado sobre o que pensa que ela vale e acabar valendo 30% a menos, você pagou um desconto profundo o suficiente em relação à sua estimativa. Uma grande parte do investimento é não perder dinheiro. Se você pode evitar perder dinheiro e depois ter alguns grandes acertos, pode se dar muito, muito bem ao longo do tempo.

Outro exemplo poderia ser apenas a indústria de restaurantes. Você pode olhar para negócios como o McDonald’s. É um negócio dos anos 1950 e aqui estamos 74 anos depois e você pode prever como será ao longo do tempo e o cardápio vai se ajustar ao longo do tempo aos gostos dos consumidores, mas acho que o hambúrguer e as batatas fritas provavelmente são para sempre.

(Lex Fridman) Qual é o processo real que você segue? Literalmente: o processo de descobrir qual é o valor de uma empresa? Tipo, como você faz a pesquisa? É lendo documentos? É conversando com pessoas? Como você faz isso?

Então, com Chipotle, o que nos atraiu inicialmente foi que o preço das ações caiu cerca de 50%. Ótima empresa, ótimo conceito, atletas adoram. Consumidores adoram. Comida saudável, fresca e sustentável feita diante dos seus olhos. E Steve Ells, o fundador, fez um trabalho incrível, mas, no final das contas, a empresa carecia de alguns sistemas e teve um problema de segurança alimentar. Consumidores ficaram doentes e quase não conseguiram pagar o aluguel. Mas a realidade da indústria de fast-food é que quase toda empresa de fast-food teve algum problema de segurança alimentar ao longo do tempo, e a grande maioria sobreviveu.

Mas geralmente começamos lendo os documentos da SEC [CVM dos EUA]. As empresas apresentam um 10-K ou um relatório anual [equivalente ao formulário de referência no Brasil], elas apresentam esses relatórios trimestrais chamados 10-Q. As empresas têm um documento que descreve um pouco a governança, a estrutura do conselho, as transcrições de teleconferências estão disponíveis publicamente, é muito útil voltar cinco anos e aprender a história. [É onde] a administração descreve o negócio deles, o que dizem que vão fazer e você pode acompanhar para ver o que eles fizeram. É como um registro histórico de quão competentes e verdadeiros eles são. É um dispositivo muito útil. E então, é claro, olhamos para os concorrentes e pensamos no que poderia deslocar essa empresa. E então vamos falar com pessoas da indústria. Li um livro sobre a indústria da música ou alguns livros sobre a indústria. É um grande projeto de pesquisa. E agora existem redes de especialistas e você pode praticamente falar com qualquer pessoa por telefone e eles vão conversar com você sobre um aspecto da indústria que você não entende, que quer aprender mais. Os registros públicos das empresas geralmente fornecem muitas informações, mas não tudo o que você quer saber. E você pode aprender mais conversando com especialistas. Você quer ter uma noção da administração. Gosto de assistir podcasts, se um CEO estiver em um podcast ou em uma entrevista no YouTube, você tem uma noção das pessoas.

O tipo de negócio que procuramos é mais ou menos o tipo de negócio que todos deveriam estar procurando: um ótimo negócio com uma trajetória de crescimento de longo prazo. Esses são os tipos de negócios que você quer possuir. Você quer negócios que geram muito dinheiro. Você quer negócios que você possa entender facilmente, aqueles que têm enormes barreiras à entrada, onde é difícil para os outros competirem, que não precisam constantemente levantar capital. Mas esses são alguns dos grandes negócios do mundo e as pessoas já sabem disso. Então, o problema é que as ações dessas empresas tendem a ser mais caras e o valor geralmente está embutido no preço que você tem que pagar pelo negócio. Então não podemos obter os retornos que queremos para os investidores pagando um preço muito alto. O preço importa muito. Você pode comprar o melhor negócio do mundo e se pagar demais, não vai obter retornos particularmente atrativos. Então, nos envolvemos em casos em que uma grande empresa cometeu um grande erro ou você tem uma empresa que meio que perdeu o rumo, mas é recuperável. E compramos de acionistas desapontados, que perderam a confiança vendendo a um preço baixo em relação ao que vale se for corrigido e então tentamos ajudar a empresa.

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Por Matheus Soares

Fundador do Market Makers, analista responsável pela Carteira Market Makers de Ações. Antes de fundar o MMakers, foi analista responsável pela cobertura de Small Caps na XP Inc e analista fundamentalista da Rico Investimentos. Certificado no curso de Value Investing da Columbia Business School.

matheus.soares@mmakers.com.br