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O aspirador de R$ 1,5 trilhão

E o value investor que virou trader de resultado

Por Gabriel Rosenbaum

21 fev 2024 15h09 - atualizado em 21 fev 2024 03h09

Já não é mais novidade para ninguém que a indústria de fundos de ações e multimercados sofreu muito com resgates nos últimos anos – somente em 2023, estas duas classes tiveram saída líquida de mais de R$ 150 bilhões, segundo a Anbima.

O culpado natural seria a alta taxa de juros, que deixa a renda fixa com uma melhor relação de risco x retorno, mas aqui tivemos um outro elemento que agravou a situação: as letras incentivadas do agronegócio e do setor imobiliário, mais conhecidas como LCIs, LCAs, CRIs e CRAs.

Esses títulos têm como objetivo fomentar essas duas indústrias tão importantes para o desenvolvimento da economia e, por tal motivo, possuem benefícios tanto para quem emite quanto para quem investe nelas.

E se os juros mais altos já funcionam como um “aspirador” de recursos da bolsa, esses produtos incentivados serviram para potencializar o efeito, dada sua atratividade para o investidor que consegue obter um retorno superior ao CDI e com isenção de imposto de renda. O produto também é bom para quem “vende”, pois o assessor consegue uma remuneração maior e imediata (aqui não há juízo de valor: mercado é movido por incentivos).

Para piorar a situação, algumas empresas, que não pertencem diretamente aos setores agro ou imobiliário, aproveitaram brechas das regras atuais vigentes para fazer emissões. Isso aumentou ainda mais a oferta desses títulos e, com isso, o aspirador de recursos ganhou ainda mais potência, sugando o dinheiro de investimentos como multimercados e fundos de ações.

A consequência disso: com tantos resgates na indústria de fundos, os gestores de ações, tradicionalmente “value investors” e com horizontes de investimentos para pelo menos 2 ou 3 anos, tiveram que também focar no resultado de curto prazo, para quem sabe dessa forma amenizar os resgates que vinham sofrendo mês a mês.

É como se, de uma hora pra outra, um maratonista tivesse que começar a competir em uma corrida de 100 metros.

O insight acima surgiu no painel com gestores de renda variável promovido semanas atrás pelo BTG Pactual, durante o CEO Conference. As novas restrições impostas recentemente pelo Banco Central para as letras incentivadas foram vistas pelos painelistas como uma correção de distorção necessária e que, embora não tenha impacto imediato, deve ajudar a trazer fluxo para os FIAs e FIMs no médio e longo prazo – se o mercado também ajudar, é claro.

Um dos painelistas, Laercio Henrique (gestor do BTG Pactual Asset Management), estima que o estoque de aplicações em LCIs, LCAs, CRIs e CRAs, que era de R$ 300 bilhões há dois anos, hoje mais que triplicou. Em complemento, Bruno Garcia, da Truxt, disse que se adicionarmos a esse montante as ofertas de FIIs e FIAgros, outros produtos também bastante oferecidos por assessores, o estoque chega a R$ 1,5 trilhão.

Um aspirador de R$ 1,5 trilhão, que sugou muito dinheiro do mercado… mas que finalmente deve ser desligado – ou no mínimo, perder a potência.

Se a filosofia value investing já é naturalmente mais desafiadora num país tão incerto e repleto de idiossincrasias como o Brasil, o fator acima ajudou a trazer ainda mais distorções no mercado. Se há um lado bom nessa história é que essa forte saída de recursos provocou quedas fortes de preços em algumas empresas, que foram quase que abandonadas pelo mercado. Isso gerou algumas oportunidades para o nosso fundo, o Market Makers FIA, comprar boas ações a ótimos preços, já que conseguimos manter o foco no longo prazo.

Esperamos que, com esse aspirador desligado, o fluxo comprador possa voltar de forma racional ao mercado de capitais.

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Por Gabriel Rosenbaum

gabriel.rosenbaum@empiricus.com.br