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O eterno retorno e a lição do 1º semestre da bolsa

Por que não se deve confiar cegamente em dicas de investimentos

Por Thiago Salomão

03 jul 2023 16h12 - atualizado em 05 jul 2023 04h16

“E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: ‘Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de lhe suceder novamente, tudo na mesma sequência e ordem (…)’. Você não se prostaria e rangeria os dentes e amaldiçoaria o demônio que assim falou? Ou você já experimentou um instante imenso, no qual lhe responderia: ‘Você é um deus e jamais ouvi coisa tão divina!’. O quanto você teria de estar bem consigo mesmo e com a vida, e não desejar nada além dessa última, eterna confirmação e chancela?”

(Friedrich Nietzsche)

Estou de volta após duas semanas de lua de mel com minha companheira de quase 11 anos – e agora esposa. O conteúdo por isso virá mais leve (ou talvez não).

Um aprendizado empírico que obtive com a Fe e que também vale para o mercado de ações: relacionamentos, assim como a bolsa, têm resultados muito mais transformadores no longo prazo. Mas é preciso ter paciência e saber lidar com os momentos difíceis e não desistir da tese na hora errada.

Se você fez uma boa escolha – seja no matrimônio, seja na bolsa -, tenha paciência e trabalhe com foco no longo prazo. Minha própria experiência fala por si: digo sem sombra de dúvidas que estamos no “All Time High” do nosso relacionamento. Mas nem sempre foi assim (não à toa demoramos quase 11 anos entre o início do namoro e o casamento de fato).

Vivemos muita “vol’ nessa década juntos, com altos e baixos tão extremos que, por algumas vezes, quase chegamos a stopar o trade. Hoje, posso dizer que sou feliz como nunca imaginei na vida. E não é aquela felicidade irritante de gente alegre, mas sim no sentido de “estar pleno”. É como estar vivendo um instante que você não quer que se torne passado. Que seja eternamente presente.

É assim que me sinto com a Fe. Certamente foi o investimento mais difícil que fizemos um no outro, mas o retorno no longo prazo fez tudo valer a pena. Esse retorno não é como uma explosão, estilo Magalu em 2016, ele é mais como a Equatorial, que ao longo de 13 anos entrega retornos mais tímidos, porém consistentes, o que faz o acumulado no período ser muito lucrativo.

Tá, mas não vim apenas falar de casamento. Tem outro insight que acho importante frisar neste momento de virada de semestre, pois é quando começam a pipocar as famosas projeções de mercado.

O recado aqui é bem direto: você, como investidor, nunca deve seguir cegamente esse ou aquele “guru” do mercado (me incluo nisso). Por maior que seja a nossa convicção para um determinado tema, temos plena noção de que não podemos cravar o que vai acontecer nos próximos dias/semanas/meses – e quem disser que sabe, ou é mal intencionado ou simplesmente não sabe que não sabe (Dunning Kruger explica).

Para justificar meu argumento, fiz um simples exercício de reler algumas CompoundLetters que escrevemos nos primeiros 20 dias de 2023. Fiquei feliz em ver como desde aquela época alertávamos para o quão barata estava a bolsa brasileira, mas algumas outras teses, que na época faziam tanto sentido, tiveram uma direção diferente 6 meses passados.

Veja por exemplo a 1ª newsletter de 2023: trouxemos dados históricos do S&P500 para explicar que, mesmo ele tendo um péssimo 2022, talvez ele pudesse cair ainda mais esse ano – mas até o momento, o índice americano sobe 14%.

Na 2ª newsletter do ano, um gestor explicou por que o petróleo era uma excelente opção de investimento, mas a commodity caiu 13% no 1º semestre. Também em janeiro, um gestor disse a a única certeza no Brasil é que os juros teriam que subir, pois a nova matriz econômica seria testada de novo. E adivinha qual foi um dos melhores investimentos no 1º semestre? Fechamento (queda) dos juros futuros.

Tivemos a Petrobras, que muitos gestores mantiveram distância e foi um dos melhores investimentos da bolsa no ano, o próprio dólar como indicação de proteção mas que teve queda livre de quase 7%… são vários os exemplos que poderíamos citar, mas creio que já deu pra entender a ideia.

Todas essas teses tiveram uma mudança de rota por eventos que ocorreram ao longo do ano. E como o gestor João Braga, da Encore, adora repetir: “eu sou pago para mudar de opinião”. A lição que quero deixar aqui é: não tenha receio em mudar de opinião caso as premissas para o cenário anterior tenham mudado.

Dito isso, esqueça o “headline” da tese e foque no que está por trás dela. Entender por que o petróleo caiu ao invés de subir ou por que as bolsas americanas contrariaram a projeção inicial é muito mais produtivo e valioso do que ir nas redes sociais e dizer que “fulano errou”.

Ok, mas quais as convicções atuais de vocês? Aqui no Market Makers, nossas convicções estão expostas na nossa carteira recomendada de ações, a qual possui um fundo que se inspira nas nossas recomendações e que nós, sócios da empresa, investimos nossa grana nele. Acredito que esse “skin in the game” garante maior peso para nosso argumento, já que (ainda) somos os maiores cotistas do fundo.

Dito isso, nossa carteira está desde maio com praticamente 100% do capital alocado em ações (isto é, quase não temos mais dinheiro em caixa), o que denota nosso otimismo com as empresas que estamos investindo. Repare que eu não disse “bolsa brasileira” ou “Ibovespa”: embora eu goste da classe de ativos “ações”, acredito que a carteira que temos, que é compostamente majoritariamente de small caps criteriosamente selecionadas, tenderá a surfar melhor o ciclo de queda da Selic e estarão mais protegidas caso o ambiente macro piore.

Assim como escolher o parceiro certo trará tranquilidade para enfrentar os momentos difíceis de um relacionamento matrimonial, montar uma carteira com boas empresas e ideal para o seu perfil te trará conforto para enfrentar aquilo que todo mundo finge saber no mercado mas ninguém de fato conhece: o amanhã.

Caso não conheça nosso fundo, ele está disponível na plataforma da Empiricus Investimentos e também no BTG Pactual. Basta ter conta em um dos dois que você pode virar cotista.

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Por Thiago Salomão

Fundador do Market Makers, analista de investimentos CNPI-P, MBA em Mercados Financeiros na Fipecafi e na UBS/B3. Antes de fundar o MMakers, foi editor-chefe do InfoMoney, analista de ações na Rico Investimentos, co-fundou o podcast Stock Pickers e foi sócio da XP de 2015 a 2021

thiago.salomao@mmakers.com.br