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O investidor local superestima os ruídos da política nacional: descubra a verdade sobre os ciclos da bolsa

Esqueça a política e olhe para fora

Por Renato Santiago

26 maio 2023 14h41 - atualizado em 26 maio 2023 02h41

Não seria muito bom se nós, investidores, pudéssemos deixar a política um pouco de lado?

Não estou dizendo que eu gostaria de ignorar as eleições ou de não me importar com o que os mandatários fazem do Estado brasileiro. Minha vontade não é ser apolítico, mas não precisar prestar atenção em cada passo do presidente da República ou em cada ideia ruim que algum ministro apresente, com medo de como isso pode afetar meu patrimônio. 

Seria muito bom. E talvez seja, sim, possível.

Quem jogou uma luz sobre esse assunto foi o José Rochada Dahlia Capital, no episódio que foi ao ar ontem, no Market Makers. A tese é a de que nós damos valor demais para a influência que a política nacional tem na Bolsa e esquecemos que o mercado nacional é dependente e acompanha o que acontece lá fora.

Você já ouviu falar do viés caseiro, que define a tendência que o investidor tem de olhar e investir mais para seu país? Nesse caso, é como se tivéssemos um viés caseiro político. Damos importância demais para o que acontece na política local. 

José Rocha trouxe alguns exemplos sólidos. O primeiro vem de 2002. 

Diz a narrativa consagrada até hoje que a bolsa brasileira caía naquele ano devido ao temor em relação ao então candidato Luiz Inácio Lula da Silva, líder nas pesquisas, e suas possíveis medidas estatizantes e heterodoxas. Temendo perder a eleição, Lula então divulgou a sua Carta ao Povo Brasileiro, na qual prometia respeitar contratos nacionais e internacionais. Isso acalmou o mercado e fez a Bolsa subir. 

Essa é a história que o mercado acredita e repete. Mas Rocha tem uma visão diferente. 

“As pessoas dão à política interna um peso muito maior do que o que ela realmente tem. Em 2003, a bolsa brasileira em dólar, o EWZ, sobe muito e as pessoas explicam isso usando a Carta ao Povo Brasileiro. Só que quando você compara com o S&P por exemplo, um ano antes e um ano depois da eleição [de 2002], o EWZ cai juntinho com a bolsa americana, faz a mínima na mesma semana que o S&P, e dá um baita tiro, sobe 100% em dólares praticamente junto”, afirma. 

Este é o gráfico que descreve a ideia:

A linha laranja representa o S&P e as velas vermelhas e verdes, o EWZ. Veja como elas andam juntas praticamente todo o tempo. “É até difícil localizar a Carta ao Povo Brasileiro nesse gráfico”, completa.

Outro exemplo assim vem de 2016. “Quando as pessoas explicam a alta de 70% do EWZ em dólar, atribuem isso ao impeachment da presidente Dilma. Porém quando você faz a comparação, dessa vez com EEM, as bolsas de mercados emergentes, o mesmo fenômeno se repete. Ambas fazem o preço mínimo no mesmo dia e dão um baita tiro a partir desse ponto. O ano de 2016 é curioso porque a Vale, uma exportadora, subiu mais que a Petrobras e Banco do Brasil, que são estatais. Esses exemplos fazem a gente pensar qual é o peso da política nacional nos ativos”, resume José Rocha.

Além dessa reflexão sobre o verdadeiro peso da política na Bolsa, o episódio 46 do Market Makers trouxe muito mais. 

Completa a mesa com José Rocha o professor do Insper Roberto Dumas, um dos maiores entendedores das questões chinesas, que explicou o que está acontecendo na economia do país, por que não acredita na “desdolarização” global e muito mais. Clique aqui para assistir.

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Por Renato Santiago

Jornalista, co-fundador do canal Market Makers e do Stock Pickers, duas vezes eleito o podcast mais admirado do Brasil. Passou por grandes redações do país, como o jornal Folha de S. Paulo e revista Exame, e atuou na cobertura de diferentes temas, de cotidiano até economia e negócios. Sua missão, hoje, é a de usar sua expertise editorial e habilidades de reportagem para traduzir o mundo das finanças e mercado financeiro ao grande público.

renato.santiago@empiricus.com.br