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O mercado financeiro fora do eixo Faria Lima-Leblon

Duas histórias de empreendedorismo fora do Condado

Por Gabriel Rosenbaum

02 fev 2024 13h41 - atualizado em 02 fev 2024 01h51

Numa conferência após o anúncio da fusão entre a Drogasil e a Raia, um analista perguntou: 

– Se você já tem uma farmácia em cada esquina, agora vai passar a ter duas farmácias por esquina? 

O CEO da nova empresa respondeu: 

– Você está precisando sair do seu escritório da Faria Lima e conhecer o Brasil.

Esse curto diálogo representa bem a realidade do mercado financeiro brasileiro, que nas palavras de Sandro Sobral – head de tesouraria do Santander e que já apareceu no Market Makers – é uma província. Isso porque não há diversidade de pensamento, todo mundo foi educado nas mesmas escolas, frequenta os mesmos lugares e compartilha as mesmas ideias. Sobral diz que essa estrutura provinciana e autocentrada prejudica a rentabilidade dos investidores locais, que se prendem a determinados vieses e atribuem mais importância do que deveriam aos ruídos internos do país.

Mas há um grupo de gestores no Brasil que furam essa bolha. É o caso dos dois convidados do episódio #81 do Market Makers dessa semana, Luiz Fernando Araújo, de Recife, e Rafael Gama, de Fortaleza. 

Luiz é gestor do fundo de ações Finacap Mauritsstad, o qual tem 15 anos de história e uma performance acumulada de 360%, o triplo do Ibovespa no mesmo período. Já Rafael é gestor da Grifo Asset, que tem um fundo de crédito com pouco mais de um ano de cota e que conseguiu ter uma performance acima dos fundos da mesma categoria em 2023 (14,5% vs 12,7%), se esquivando de eventos como Americanas e Light.

Os dois gestores contaram como é empreender no mercado financeiro fora do eixo Faria Lima-Leblon, as vantagens e desvantagens de estar longe do Condado, as perspectivas de mercado para 2024 e, no caso de Luiz, algumas ações da sua carteira. Se você ainda não assistiu, clique aqui para ver o episódio.

Destaco abaixo duas lições que tirei do episódio: a importância do processo e a “mão trocada” dos investidores.

A importância do processo

O Luiz compra ações com foco no longo prazo, aproveitando momentos em que o mercado está de mal humor com alguma empresa para montar suas posições – ele comprou as ações de Magazine Luiza com esse viés em 2016, antes de seu valor multiplicar em mais de 100x. Da mesma forma, ele evita se render às tentações e euforias de mercado, o que também trouxe resultados ao longo do tempo. Em 2008, por exemplo, acreditando que o mercado estava caro, o seu fundo tinha muito caixa, e Luiz aproveitou da grande queda da bolsa para comprar ações de empresas que ele acompanhava de perto.   

Essa rigorosidade no processo é um dos motivos que fez seu fundo Finacap Maurisstad captar tanto nos últimos anos – o patrimônio do fundo multiplicou 4x desde 2020 -, mesmo durante anos tão desafiadores para a indústria.

Rafael também destacou a importância do processo, o qual foi determinante na tomada de decisão em alguns momentos de 2023. Ele conta que viu uma boa oportunidade em títulos da Light que estavam negociando a 30% do seu valor de face, mas decidiu não investir por reconhecer que o seu produto tem como objetivo trazer ao investidor um retorno proveniente de crédito de maior qualidade, não se expondo a riscos como esse.

A importância de se manter firme ao processo é um dos critérios mais importantes na seleção de fundos, como explicou Bruno Mérola no episódio # 79 do Market Makers, pois sem um processo bem definido é impossível distinguir se a performance de um fundo é resultado da sorte ou do mérito de sua gestão. 

A “mão trocada” dos investidores

Luiz afirma não ter visto nos últimos 20 anos a bolsa brasileira tão barata como hoje. Porém, ele acredita que os juros ainda precisam cair bastante para atrair o fluxo de investidores locais. Ele dá como exemplo os fundos de pensão, que conseguem atingir sua meta atuarial de rentabilidade no atual patamar de juros e que só devem migrar para a bolsa depois que os juros caírem. Mas provavelmente a bolsa estará bem menos descontada quando esse movimento acontecer, e é normalmente quando todos querem comprar bolsa que ela marca um topo.

Com a renda fixa não é muito diferente: Rafael contou que depois da crise na Americanas e Light, os fundos de crédito privado sofreram grandes resgates dos investidores, os quais só passaram a conhecer o risco dos produtos de renda fixa após verem o valor dos seus investimentos caírem. Para honrar os resgates e com o prazo apertado, os fundos começaram a vender títulos mais líquidos, em geral de empresas de menor risco. 

O resultado foi que o valor desses títulos caíram, ou seja, passaram a oferecer um retorno maior – e quem se beneficiou foi quem tinha liquidez para comprar esses títulos, como foi o caso de Rafael que chegou a entregar 150% do CDI em meses. Poucos tempo depois, o valor dos títulos em geral se recuperaram. “Foi um fechamento histórico dos spreads de crédito privado”, comenta Rafael. 

Esse é mais um caso em que o investidor comum vende na baixa e compra na alta, caso decida alocar novamente nesta classe de ativos, que agora oferece retornos bem menos atrativos.

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Por Gabriel Rosenbaum

gabriel.rosenbaum@empiricus.com.br