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O negócio dos sonhos segundo a IP

Visa e Mastercard: duas empresas excelentes a um preço atraente

Por Renato Santiago

14 jul 2023 11h02 - atualizado em 14 jul 2023 11h02

Às sextas-feiras costumamos usar a CompoundLetter para destrinchar ou nos aprofundarmos sobre algo que aconteceu no episódio publicado na véspera. Hoje, no entanto, vamos fazer o contrário: falar sobre algo que não tivemos tempo de comentar no programa.

episódio de ontem foi uma espécie de passeio pelas teses e pela carteira da IP Capital. Falamos de alocação no Brasil versus no exterior, sobre BTG, XP, Vivara, Multiplan, Hapvida, Netflix e Universal. Mas não sobrou tempo para falarmos de uma das teses mais legais da IP hoje: seu investimento em Mastercard e Visa. Prometemos no ar que falaríamos disso, e para nós, promessa é dívida. 

Por isso segue abaixo a tese da IP sobre Mastercard e Visa, segundo Bruno Barreto e Gabriel Raoni.

“Mastercard e Visa são líderes no mercado de bandeiras de cartão do mundo, com suas redes processando trilhões de dólares todo ano. 

Elas têm um valor muito grande para a sociedade, permitindo que as pessoas consigam comprar em praticamente qualquer estabelecimento no mundo, sem que eles precisem ter qualquer informação sobre elas. Além disso, as bandeiras trazem segurança para as pessoas, ainda mais para nós brasileiros que sabemos o que o ladrão consegue fazer com um celular roubado, por exemplo — diferentemente de um cartão, que pode ser bloqueado facilmente com uma ligação de poucos segundos.

Elas são praticamente o negócio dos sonhos: empresas que crescem sem precisar investir,  cujo caixa gerado nas suas operações pode ser pago integralmente aos acionistas na forma de dividendos, além de margens sempre subindo. Neste contexto, sempre que o mercado dá a oportunidade para a IP se tornar acionista dessas empresas a um preço atraente, compramos.

Estes momentos de oportunidade surgem quando reaparece a narrativa de que o modelo de negócios das bandeiras sofrerá disrupção. Há três anos, por exemplo, a nova onda do blockchain prometia dar um fim de vez às bandeiras de cartão. Hoje, elas estão associadas às bandeiras para que os pagamentos em cartões possam ser feitos usando criptomoedas. 

Esses pânicos que ocorrem de tempos em tempos são sintoma de uma compreensão equivocada da vantagem competitiva das bandeiras. Ela não é a tecnologia, mas sim a capacidade de conectar com segurança quatro bilhões de cartões no mundo, 100 milhões de lojistas e 20 mil instituições financeiras. Esta rede gigante faz com que as bandeiras possam ser lucrativas cobrando uma taxa baixíssima sobre cada transação. Por isso, contestar seu mercado significa conseguir superar esta rede a um custo mais baixo, o que é um enorme desafio. Um exemplo disso foi o Apple Pay, que tomou conhecimento do desafio e decidiu se aliar às bandeiras incumbentes.

Um outro momento de pânico foi em 2017, quando algumas notícias sobre novas tecnologias para transações na Europa repercutiram no preço das ações e aproveitamos a queda para comprar Mastercard pela primeira vez — temos investido no setor desde então.

A escolha de Mastercard refletia a visão de que suas margens inferiores às da Visa eram fruto de maiores investimentos, cujo reflexo seria um crescimento maior de lucros no futuro. Além disso, a maior presença dela em países emergentes — ainda atrasados na onda da digitalização dos meios de pagamento — era mais um motivo para que ela merecesse um múltiplo maior que a Visa. 

De lá para cá, as ações de ambas as empresas valorizaram bastante, mas não no mesmo ritmo que o crescimento de lucro delas. A escolha de carregar Mastercard foi um acerto, dado que elas subiram mais que as da Visa. Agora, a diferença entre as duas ações parece mais justa. Há pouco tempo, aproveitamos a compressão dos múltiplos para comprar ações da Visa.

Em termos de valuation, as ações da Visa negociam a um múltiplo preço/lucro de 22 vezes para os próximas doze meses, sendo que o crescimento anualizado dos lucros para os próximos anos é de 15% — estamos falando de uma ação sendo negociada abaixo de 11 vezes o seu lucro em 5 anos. Poder comprar ações de uma “empresa dos sonhos” a um baixo preço é uma oportunidade única.

Para nós, investidores brasileiros, um crescimento de lucros de 15% para empresas já consolidadas no seu mercado pode parecer exagerado — mas nesse caso só parece. Acreditamos nisso porque as empresas brasileiras são, em sua maioria, intensivas em capital. Ou seja, precisam reinvestir boa parte de seus lucros, e sua estrutura de custos aumenta conforme suas receitas sobem. Já no caso das bandeiras, existem economias de escala, e aumentos de receita significam margens maiores, daí o alto crescimento dos lucros.

Por fim, as bandeiras vão continuar surfando a tendência secular da digitalização dos meios de pagamento. Ainda há muito papel moeda e cheques sendo utilizados no mundo — a título de curiosidade, foram quase 700 bilhões de reais transacionados em cheques só no Brasil no ano passado — e sua substituição é apenas uma questão de tempo.”

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Por Renato Santiago

Jornalista, co-fundador do canal Market Makers e do Stock Pickers, duas vezes eleito o podcast mais admirado do Brasil. Passou por grandes redações do país, como o jornal Folha de S. Paulo e revista Exame, e atuou na cobertura de diferentes temas, de cotidiano até economia e negócios. Sua missão, hoje, é a de usar sua expertise editorial e habilidades de reportagem para traduzir o mundo das finanças e mercado financeiro ao grande público.

renato.santiago@empiricus.com.br