Notícia

4min leitura

Os dois grandes temas deste novo trimestre

Veja o que irá movimentar os mercados nos próximos meses

Por Thiago Salomão

03 abr 2023 15h16 - atualizado em 03 abr 2023 03h16

Não está sendo um período fácil para a renda variável brasileira. Terminamos o primeiro trimestre de 2023 com o Ibovespa sendo uma das piores bolsas do mundo. No acumulado em 12 meses, o CDI, se fosse um gestor, figuraria na liderança dos rankings de fundos multimercados e long bias.

Neste segundo trimestre, os dois temas que já surgem para serem os principais pontos de atenção do mercado são: a inflação lá fora e as medidas adicionais que o governo brasileiro anunciará após o arcabouço fiscal.

No exterior, a notícia do corte surpresa de produção de mais de 1 milhão de barris anunciado pela OPEP+ neste domingo já deu o tom: os contratos futuros de petróleo sobem mais de 6% e os futuros do Nasdaq e S&P500 caem entre 0,5%-1%, ao mesmo tempo que a curva dos yields americanos “abre” (ou seja, a expectativa para os juros nos EUA subiu).

Basicamente, o mercado precifica agora que o anúncio atrapalhará o processo de desinflação de bens ao redor do mundo. Com isso, as apostas para a continuidade do processo de aperto monetário pelo Fed voltam a ganhar força.

Vale lembrar que a última reunião do BC dos EUA trouxe alívio ao sinalizar que um corte de juros estaria em aberto diante das pioras das condições de crédito. Falamos bastante sobre isso no episódio da semana retrasada – vou deixar aqui o trecho de 7 minutos dessa parte.

Pra fechar o assunto, compartilho este conjunto de gráficos do Goldman Sachs super legal que o CIO da Tag Investimentos, Dan Kawa, postou no twitter. Dá pra perder uns 5 minutos olhando para todas as linhas até entender tudo, mas o resumo é: normalmente o S&P500 costuma subir após o fim de um ciclo de alta de juros (gráfico da direita), isso só não ocorreu em 2000, ano em que o P/L (Preço/Lucro) da bolsa estava no maior patamar das séries analisadas: 22x. O P/L atual do S&P500, nas contas do Goldman, está em 18x.

E já que falamos de S&P500, a alta de 7% do índice no 1º tri trouxe uma curiosidade interessante: em todos os 17 anos que o S&P500 subiu 7% ou mais no 1º trimestre, ele fechou o ano acumulado no positivo. Mas somente em um ano a alta anual foi menor que a trimestral: em 1987, quando ele subiu 20,5% nos três primeiros meses mas fechou os 12 meses com leve valorização de 2% – ano do “Black Monday”.

(A título de curiosidade: adoro esse tipo de estatística, mas não tomo nenhuma decisão de investimento baseada nela. Só pra ficar claro).

No Brasil, muito se falou sobre as consequências do arcabouço fiscal. Olhar a reação do mercado nem sempre é a maneira mais fiel de interpretar se as medidas foram boas: o Ibovespa subiu forte na quinta-feira após a medida anunciada mas caiu forte na sexta. É preciso lembrar que em fechamento de trimestre nosso mercado de ações fica mais suscetível a volatilidade por causa do balanceamento de carteira dos fundos – isso é tema para uma newsletter a parte, inclusive.

Pra quem estiver completamente perdido sobre o tema, sugiro assistir a live que fizemos na sexta-feira com Rafael Favetti, chefe de análise política da Fatto. Fizemos um resumo sobre ela, que compartilhamos com os assinantes da Comunidade Market Makers, mas deixarei aqui os principais trechos:

Após a apresentação do plano, pode-se dizer que um dos maiores receios do mercado é em relação ao aumento da tributação, uma vez que a arrecadação é o principal pilar do projeto. O governo, por outro lado, nega o aumento da carga tributária, apostando que suas receitas devem escalar de acordo com o crescimento econômico, o que é incerto. Por outro lado, o arcabouço trouxe alívio em relação a como os gastos estariam vinculados ao crescimento da receita, a qual poderia ser superestimada pelo governo. Ao utilizar os dados de receita do exercício anterior, este risco foi afastado.

Ainda sobre o aumento de tributação, Favetti tem uma certeza: o governo vai taxar dividendos e veículos de investimentos isentos.

Subsídio era um palavrão. Agora que o governo atual montou uma reforma baseada em crescimento de receita, subsídio agora é mais que um palavrão, é inimigo.

A didática do Favetti ajudou a esclarecer o que está em jogo nos bastidores desse arcabouço fiscal. Para os próximos meses, vamos monitorar como o Congresso irá reagir à nova LDO e à tramitação do arcabouço fiscal no Congresso.

O link pra ver a live inteira está aqui. Vale a pena conferir.

Compartilhe

Por Thiago Salomão

Fundador do Market Makers, analista de investimentos CNPI-P, MBA em Mercados Financeiros na Fipecafi e na UBS/B3. Antes de fundar o MMakers, foi editor-chefe do InfoMoney, analista de ações na Rico Investimentos, co-fundou o podcast Stock Pickers e foi sócio da XP de 2015 a 2021

thiago.salomao@mmakers.com.br