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Por que o investidor não deve se levar tão a sério

O mercado é soberano

Por Renato Santiago

08 set 2023 14h51 - atualizado em 11 set 2023 02h55

Levar seu trabalho a sério é obrigação de qualquer um, ainda mais de quem cuida do dinheiro dos outros, caso da maioria das pessoas que senta na cadeira de convidado do Market Makers. Mas levar seu trabalho a sério é diferente de se levar a sério demais. O primeiro é uma qualidade que não pode estar ausente em ninguém; o segundo, um defeito, e que pode dar em prejuízo.

No episódio do Market Makers que foi ao ar nesta quinta-feira, conversamos com o Gustavo Salomão, gestor da Norte Asset, que fez essa reflexão. Gustavo tem quase 30 anos de mercado financeiro, passou 21 deles no Garantia e na instituição que o sucedeu, o Credit Suisse, onde chegou a chefiar a tesouraria. Para ele, um dos maiores defeitos de qualquer gestor é justamente esse.

O raciocínio do Gustavo é o seguinte: quem se leva a sério demais acredita piamente em suas próprias ideias, não consegue conceber que esteja errado, deixa de ler sinais do mercado e só consegue perceber mudanças de cenário quando já apanhou demais das cotações.

Nas palavras dele: “o pior erro de um gestor é se levar muito a sério. Quando o mercado dá alguns sinais e o gestor acredita na tese e acha que o mercado é burro, cai numa inércia, e só vai conversar com quem concorda com você, o tal do confirmation bias [viés de confirmação]. Você não liga para quem discorda, e só vai mudar de opinião depois de apanhar muito”, completa. 

(Ao ouvir isso, aliás, fiquei feliz com o nosso Quem Somos, publicado no nosso site: “buscamos ter conversas profundas com as maiores mentes do mercado financeiro, mas sem abrir de tornar esta conversa algo divertido e engraçado. Nós nos levamos a sério, mas não muito a sério”.)

Mas voltando ao Gustavo. Levar-se muito a sério é, portanto, um sinal de arrogância e uma armadilha para vieses que levam o investidor ao erro e ao prejuízo. Ele continua com um exemplo prático de uma mudança de mercado recente, quando situação começou a piorar na Bolsa e machucou muita gente:

“Após o primeiro semestre de 2021, com queda da bolsa, inflação subindo e índice de Small Caps ficando muito para trás do Ibovespa, o gestor que se levou muito a sério demorou muito para mudar de opinião e foi forçado a mudar com a queda dos papéis quando perdeu muito dinheiro”, conclui.

A solução para esse problema é o que Salomão chama de data science [ciência de dados] analógica. “Presto atenção a tudo que está acontecendo, ouvindo de todos os lados. É converso com executivos das empresas, ver balanços, falar com analistas do sell side, falar com buy side, falar com empresas competidoras e até não listadas”, diz. 

O antídoto para não se levar muito a sério, portanto, parece ser estar aberto a tudo e conversar. Tão simples quanto isso.

Nossa conversa completa com o Gustavo Salomão você pode conferir no YouTube ou na sua plataforma de streaming favorita (SpotifyApple Podcast e outras).

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Por Renato Santiago

Jornalista, co-fundador do canal Market Makers e do Stock Pickers, duas vezes eleito o podcast mais admirado do Brasil. Passou por grandes redações do país, como o jornal Folha de S. Paulo e revista Exame, e atuou na cobertura de diferentes temas, de cotidiano até economia e negócios. Sua missão, hoje, é a de usar sua expertise editorial e habilidades de reportagem para traduzir o mundo das finanças e mercado financeiro ao grande público.

renato.santiago@empiricus.com.br