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R$ 110 bilhões preocupados com Brasil

O saldo de dois dias de LAIC (Latin America Investment Conference)

Por Thiago Salomão

03 fev 2023 11h18 - atualizado em 03 fev 2023 11h18

Marcamos presença nesta semana no LAIC (Latin America Investment Conference), evento que o Credit Suisse promoveu em São Paulo com importantes nomes do cenário econômico e político.

Mais do que acompanhar plenárias e palestras, este tipo de evento é excelente para trocar ideias e fazer networking, pois praticamente todas as gestoras marcam presença para ter as reuniões exclusivas com empresas listadas na bolsa.

Uma troca de ideias de alto nível com gente muito boa do mercado. Ideal para validar as nossas convicções da Carteira Market Makers e também estar aberto a ouvir novas ideias de investimentos que podem entrar no nosso radar de investimentos. Os membros da Comunidade Market Makers já receberam alguns insights.

Não é membro ainda? Então espere semana que vem: teremos novidades para quem quiser ingressar na nossa comunidade.

Como foi conteúdo pra caramba para digerir em apenas dois dias, preparei um resumo das melhores ideias que tirei dos painéis com gestores multimercados. Os porta-vozes representam mais de R$ 110 bilhões AuM (ativos sob gestão), distribuídos em 5 gestoras.

Um resumo: é possível dizer que temos mais de R$ 110 bilhões bem cautelosos com o Brasil.

Obs: os textos abaixo são feitos por mim com base no que foi dito, mas não refletem exatamente o que foi dito na conferência. Qualquer interpretação errada, a culpa é minha (risos)

Bruno Coutinho, gestor da Mar Asset (R$ 2,6bi em ativos sob gestão)

É difícil entender os movimentos atuais do Lula. Agora era hora de estarmos desacelerando a economia, mas as reações do Lula mostram que ele vê uma desaceleração como ameaça. A Dilma cometeu esse erro e apertou todos os botões possíveis para impedir o problema da desaceleração. Deu no que deu.

Apesar de aprovada a PEC da Transição, este dinheiro ainda não foi gasto. É como se o Lula tivesse parado na beira do Rio Rubicão e a PEC foi a ponte que ele construiu para cruzá-lo. Mas ele ainda não cruzou a ponte. Existe um debate sobre se ele vai gastar esse dinheiro. Mas como disse Tancredo Neves, “ninguém chega ao Rubicão para pescar”.

André Raduan, gestor da Genoa Capital (R$ 13,9bi AuM)

O estrangeiro olha para o Brasil de uma forma menos profunda do que o investidor local. Além disso, tivemos casos de Chile e México que fizeram bons ajustes. Então para o estrangeiro, a retórica é mais grave do que a realidade. Eu estou no meio do caminho: nem tão otimista como o estrangeiro, nem tão pessimista quanto o local.

Felipe Guerra, gestor da Legacy Capital (R$ 27,9bi AuM)

Eu acho o prêmio de risco embutido nos ativos brasileiros muito baixo, diante do cenário que teremos de baixo crescimento e inflação mais alta. Estrangeiro está comprando com base na reabertura da China, ou seja, mesmo que a gente faça muita bobagem, vamos ganhar dinheiro porque somos uma grande fazenda. Mas quando o cenário virar, aqui vai ser terrível e, nesse cenário, a porta de saída dada a liquidez vai ser bem mais estreita. Achamos perigoso isso. Vamos apertar muitos botões de “excepcionalizações”, anunciar várias medidas excepcionais que pressionarão a inflação e tirarão o efeito da política monetária. O final do filme a gente já conhece.

Daniel Leichsenring, economista-chefe da Verde Asset (R$ 29bi AuM)

O melhor que a gente pode esperar é permanecer medíocre. Isso já é ser otimista hoje. Se perdermos a âncora da política monetária, entraremos numa rota de Argentina ou Venezuela. Aumentar a meta da inflação significa “eu quero mais inflação”. Isso vai ter que fazer o BC subir mais os juros. Isso vai gerar ainda mais crítica, o que pode tirar a autonomia de fato do BC, mesmo ele continuando sendo ‘independente’.

Escute aqui o episódio que gravamos com ele diretamente da LAIC: A única coisa que (ainda) impede o Brasil de entrar no modo Venezuela

Rodrigo Azevedo, gestor da Ibiuna Investimentos (R$ 36,9bi AuM)

Tudo que temos visto da eleição pra cá é que não teremos um Lula pragmático. Estamos com mais cara de irmos para um Dilma 3. Isso criou uma dicotomia entre “local x estrangeiro”. O investidor local olha e diz: eu já sei onde isso vai me levar. Já o estrangeiro releva isso.

Isso nos leva a duas situações: achar que o Brasil vai acabar e ficar short aqui, o que eu acho que não faz sentido porque se vier esse caminhão de dinheiro dos gringos os preços subirão. Por outro lado, se o cenário positivo do exterior tornar-se negativo, num momento em que não temos mais ancoragem fiscal e monetária, as coisas podem piorar bastante aqui. Conclusão: é muito difícil tomar qualquer posição no Brasil neste momento. Diria que o Brasil é um “trade de Sharpe ruim”, que mesmo que tenha upside ele vai balançar tanto que vai te fazer “stopar”.

Agora, tem uma coisa que não dá pra voltar atrás: a conversa sobre meta da inflação. Na hora que o presidente fala “acho que a meta de inflação em 4,5% é melhor do que em 3%“, você impacta de fato a expectativa de inflação: não será mais a taxa de juros, mas sim a fala do presidente que afetará essa expectativa. Se o BC não sabe mais pra onde vai a inflação diante da política monetária dele, o que que ele deve fazer? Isso é muito difícil de voltar. Você tirou a pasta do tubo, não tem volta.

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Por Thiago Salomão

Fundador do Market Makers, analista de investimentos CNPI-P, MBA em Mercados Financeiros na Fipecafi e na UBS/B3. Antes de fundar o MMakers, foi editor-chefe do InfoMoney, analista de ações na Rico Investimentos, co-fundou o podcast Stock Pickers e foi sócio da XP de 2015 a 2021

thiago.salomao@mmakers.com.br