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Sexy sem ser vulgar: compre bolsa com diversificação

Por Thiago Salomão

17 abr 2023 12h33 - atualizado em 17 abr 2023 12h33

Escrevo esta newsletter cansado, porém revigorado. Neste domingo, encerramos a Copa do Condado, torneio organizado por mim e que reuniu 32 times masculinos e 4 times femininos formados por profissionais do mercado financeiro. Eu, que amo futebol, me senti realizado por conseguir conectar tanta gente apaixonada por este esporte. Rolou até transmissão no Youtube e eu pude narrar ao melhor estilo “Rock & Gol” (o link tá aqui).

Mas não é pelo futebol que todos vocês, 3 leitores desta newsletter, abrem meu email. Então, vamos falar de mercado.

Do começo da semana passada (quando eu trouxe um tom bem preocupado pra minha newsletter) pra cá, tivemos uma clara melhora de cenário. Isso se deu pelo IPCA de março, que veio melhor que o esperado, e pelos dois dados de inflação nos EUA que também evidenciaram uma menor pressão de preços.

Não que um único resultado de inflação resolva todos os problemas do mundo. Mas há um processo em construção que, de tijolo em tijolo, pode trazer uma grande oportunidade para os tão desvalorizados ativos brasileiros.

Vamos lembrar que:

– Antes dos dados de inflação, tivemos semanas atrás a apresentação do novo arcabouço fiscal do ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Nas palavras de Luis Stuhlberger na última carta da Verde, o arcabouço foi “pior que o necessário, mas melhor do que o temido” – essa frase me lembrou aquele meme do “muito bom, nota 2”.

– Um grande anseio de toda sociedade brasileira é a queda de juros de maneira consciente (importante enfatizar isso). Um arcabouço “ok” era condição fundamental para isso. O dado de inflação melhor que o esperado logo depois foi o tiro certeiro para essas apostas ganharem força.

– Juntando esses dois fatores com nossas ações em com valuations pornograficamente baratos e o mercado muito “leve” por conta da onda de resgates dos fundos desde 2022, e tivemos uma correção muito forte no Ibovespa: alta de 5,4% só na semana passada.

– Além da bolsa estar barata, o que vimos na terça (alta de mais de 4% do Ibovespa, com ações subindo 15% num único dia) deixa evidente um “short squeeze”, que é quando os vendidos correm para fechar suas posições “short” em ações (e pra isso, eles compram ações). Ou seja, tivemos a pressão compradora de quem se animou com a chance de quedas de juros e tivemos a pressão compradora de quem zerou shorts.

Apesar destes pontos citados acima, é importante dizer que esse corte de juros não deve vir agora em maio, segundo o mercado de opções de Copom. O contrato que indica queda de 25 pontos-base na Selic na reunião de maio (CPMK23C099750) fechou o último negócio valendo 5,0. Neste mercado, o valor de face do contrato indica qual a chance deste evento acontecer – no caso, 5% de chance da Selic cair 25 pontos. A aposta majoritária é de manutenção.

A pergunta que fica é: faz sentido uma alta tão forte se há tantos problemas a frente? Tivemos essa reflexão no “Puro Malte”, podcast da Empiricus o qual eu tive a honra de participar do último episódio (link do ep no Spotify). Na conversa, o Felipe Miranda trouxe uma reflexão importante para entender o momento atual:

“Se você ouvir o que Marcos Lisboa e Marcos Mendes falarem, claramente vai ficar pessimista [dois dos convidados do Market Makers que mais deram repercussão]. Só que macroeconomia é diferente de gestão de portfólio”.

O arcabouço fiscal foi bom? Para um macroeconomista, certamente foi péssimo. Mas para um trader, ele foi bom dado o nível de preços que estamos. E como um arcabouço fiscal “ok” era condição para a Selic começar a cair, bastou uma inflação abaixo do esperado para que essa expectativa viesse com tudo nos preços de mercado – como vimos semana passada.

A conclusão importante aqui é: não era o fim do mundo antes do IPCA, nem é a chegada ao paraíso após estes dados. De fato, coisas boas aconteceram na última semana, mas ainda há muita casca de banana nesse caminho, então seguir com uma carteira diversificada, com uma parcela em ações, uma boa parte em caixa e uma proteção em dólar/ouro ainda fazem sentido.

Eu sei que é uma dica menos sexy do que falar “compre tudo em bolsa” ou “quem não tem bolsa é louco”, mas meu intuito aqui é traduzir em palavras o que estamos fazendo com a Carteira Market Makers – e como somos os maiores cotistas do fundo que segue a carteira, na prática estamos mostrando o que temos feito com nosso próprio dinheiro.

A diversificação é importante pois os cenários estão muito em aberto. Pensando com uma cabeça pessimista, esse plano fiscal não vai dar certo e em 2026 teremos que discutir isso novamente – ou seja, a qualquer alta, é motivo pra vender. Pensando como um otimista, o plano fiscal chega até 2026 e lá poderemos ter uma discussão política com nomes bem melhores do que nas últimas eleições (Tarcísio, Zema ou Eduardo Leite).

Nestes dois cenários, quanto deveria valer a bolsa?

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Por Thiago Salomão

Fundador do Market Makers, analista de investimentos CNPI-P, MBA em Mercados Financeiros na Fipecafi e na UBS/B3. Antes de fundar o MMakers, foi editor-chefe do InfoMoney, analista de ações na Rico Investimentos, co-fundou o podcast Stock Pickers e foi sócio da XP de 2015 a 2021

thiago.salomao@mmakers.com.br