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2min leitura

Sobre Netos e Pedrinhos

Por um debate com menos "foguetinhos" e mais técnica

Por Renato Santiago

04 maio 2023 16h30 - atualizado em 05 maio 2023 04h30

Acredito que pelo menos dois dos três leitores desta newsletter devem acompanhar a fintweet, comunidade de usuários do Twitter que gostam de falar de finanças e investimentos. Às vezes algumas ideias e reflexões legais saem dali, mas ontem o que me chamou a atenção foi algo que estava na futetweet (de futebol). 

Esta comunidade (da qual confesso que me sinto mais pertencente) encontrava-se alvoroçada graças a dois ex-jogadores comentaristas que resolveram se estranhar.

Neto, ex-Corinthians, atual Band, resolveu comentar os comentários que Pedrinho havia feito na transmissão do jogo Vasco e Bahia. Para Neto, Pedrinho estava se valendo de conceitos excessivamente complexos e que não têm respaldo na realidade do campo, como “linha alta”, “linha de três” e “linha de cinco”. 

“Muita gente gosta de falar coisas que não acontecem no campo. O futebol é coisa simples: arroz, feijão, batatinha, às vezes um ovo por cima. O Vasco foi muito pra cima e perdeu”, disse Neto, taxativamente, em suas redes sociais. Para ele, a verdade é essa, e quem não acha aparentemente está errado.

Pedrinho, ex-Vasco, atual Sportv, não gostou e respondeu também em suas redes sociais. “Está incomodado que eu falo de transição defensiva, transição ofensiva? Pressão pós-perda? (…) Futebol mudou e você tem que sair de sua zona de conforto”.

Esse caso me lembrou outro de uns seis meses atrás, no qual Fabiano Baldasso, comentarista esportivo gaúcho, disse que jornalistas como Paulo Vinícius Coelho (PVC), famoso por embasar suas opiniões com dados e estatísticas, estão fazendo as pessoas perderem o interesse pelo futebol com tantos números. “As pessoas querem é me ver reproduzindo a raiva que elas estão sentindo”, disse. 

O curioso é que Baldasso constrói sua tese citando uma pesquisa: 22% dos brasileiros não têm interesse em futebol. PVC respondeu, mas nem usou esse argumento. Disse simplesmente que estatísticas são informação e jornalistas deveriam gostar delas.

Mas onde eu quero chegar com isso?

Certamente não vim aqui comentar comentários de comentaristas sobre comentários de outros comentaristas. Meu ponto é que no nosso mercado a mesma divisão existe. 

De um lado estão Netos e Baldassos, intuitivos, emotivos, impulsivos, claros e diretos, transbordando sinceridade, cravando verdades simples, como “ABCD é 10”, “EFGH é 20” ou “quem não tem IJKL é louco ou burro”. 

Eles são carismáticos e costumam arrebanhar muitos seguidores justamente por parecerem sinceros e terem coragem de dizer o que pensam. Por outro lado, agem muito mais por impulso e podem fazer sua enorme comunidade perder dinheiro.

Se você é um dos dois leitores que frequenta a fintweet já viu muito disso. 

Por outro lado, temos também os Pedrinhos e PVCs, mais estudiosos e diligentes, atualizados, que embasam suas teorias em dados, números, fatos e são muito mais cuidadosos com o que falam. Eles buscam mais informações corretas e menos manchetes, portanto soam mais tediosos e podem não te fazer imaginar-se rico amanhã. No longo prazo, porém, quem te ajudará a cuidar melhor do seu patrimônio? Quem te trará mais retorno?

É por isso que, aqui no Market Makers, preferimos ficar mais perto dos Pedrinhos que dos Netos.

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Por Renato Santiago

Jornalista, co-fundador do canal Market Makers e do Stock Pickers, duas vezes eleito o podcast mais admirado do Brasil. Passou por grandes redações do país, como o jornal Folha de S. Paulo e revista Exame, e atuou na cobertura de diferentes temas, de cotidiano até economia e negócios. Sua missão, hoje, é a de usar sua expertise editorial e habilidades de reportagem para traduzir o mundo das finanças e mercado financeiro ao grande público.

renato.santiago@empiricus.com.br