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Um caminho para cada peregrino

Investir é uma longa caminhada

Por Market Makers

18 out 2023 14h49 - atualizado em 18 out 2023 02h51

Colunista convidado: Luiz Alves Jr. (@luizfalvesjr), Portfolio Manager e Sócio na Versa Asset Management

Santiago de Compostela, na Espanha, virou destino de peregrinação a partir do século IX d.C., quando um eremita sonhou que ali estava sepultado o apóstolo Tiago, morto no ano 44 d.C. O eremita escavou no lugar revelado e encontrou três túmulos, um deles com as iniciais de um seguidor de Tiago. Com a notícia, o rei Afonso II das Astúrias, católico fervoroso, saiu em peregrinação do seu castelo em Oviedo até Compostela, abrindo a primeira trilha até hoje muito frequentada, o caminho Primitivo. Afonso mandou construir uma capela e um monastério no local sagrado, fixando o destino para peregrinação, que nos anos seguintes viu uma invasão de fiéis.

Os peregrinos partiram de todos os cantos da Europa, como Portugal, França e Itália, abrindo novos caminhos até Compostela. Ao longo do trajeto, sobre estradas romanas milenares, foram surgindo vilarejos com pontos de apoio como pousadas e restaurantes. A peregrinação diminuiu com as guerras santas entre católicos e muçulmanos pela Península Ibérica, e renasceu com força no século XX, estimulada até pelo livro O Diário de um Mago, do Paulo Coelho, que se passa no Caminho.

Atualmente as setas amarelas que guiam até a Catedral de Compostela, desenhadas a cada 200 metros em postes, guias, muros e caixas de telefonia, estão por toda a Europa. Os caminhos mais famosos são o francês, com 770 km a partir de Saint-Jean-Pied-de-Port, nos Pirineus, e o português a partir do Porto com 260 km pelo interior ou 280 km pela costa. O francês, a pé, dura 25 dias em média, enquanto o português leva 10 dias, opção para quem não tem muito tempo.

Caminho de Santiago de Compostela (Foto: Luiz Alves Jr.)

Cada um tem uma razão para fazer o Caminho. Alguns o fazem pela saúde, outros para pagar promessas, muitos estão sozinhos, vários acompanhados dos cônjuges, de amigos, e até de três gerações da família. Em comum, todos encontram o vazio e o preenchimento depois de muito tempo caminhando.

As primeiras horas são as mais penosas. Os pés doem, a mochila pesa e as dúvidas enchem os pensamentos. Só músicas e podcasts afastaram minha mente desse lugar sombrio. Depois de algumas horas os pés ficam anestesiados, o corpo se acostuma com a mochila, o espírito se eleva e os peregrinos começam a confraternizar. É praxe desejar “buen camino” para todo mundo levando conchas penduradas na mochila ou no pescoço, símbolo do apóstolo Tiago. A cordial saudação é suficiente para iniciar uma conversa que pode durar poucos minutos, algumas horas ou virar uma amizade para a vida inteira.

As últimas horas de caminhada são de meditação. Enquanto o corpo caminha, a alma vaga. A cabeça esvazia de pensamentos e inunda-se de sentimentos enquanto os olhos contemplam a linda paisagem bucólica e os ouvidos se preenchem com o barulho do vento na folhagem e o cantarolar dos galos. Foi nesse momento que cruzei a gratidão.

É um grande privilégio viver essa aventura, não por questões financeiras, já que as hospedagens e refeições são baratas. O Caminho é democrático. O privilégio é ter saúde, tempo e todos ao redor, da família que ficou no Brasil aos amigos peregrinos que compartilharam as dores, as aflições, e as conquistas a cada pernada. É um privilégio trocar experiências com pessoas do mundo inteiro. É um privilégio desconectar-se de tudo para conectar-se consigo mesmo. Nessa imersão concluí que era no momento delicado, de fragilidade, que deveria pregar a convicção que me faz um investidor em ações. Por isso aceitei o convite do Market Makers (confira aqui o episódio #65).

O Caminho é uma grande metáfora da vida, como os investimentos. Cada um caminha sobre os seus próprios pés, assim como as decisões de investimento são pessoais. Por outro lado, você nunca está sozinho, como em um grupo de acionistas ou cotistas. As pessoas entram e saem da sua vida, como as ações de uma carteira. Algumas amizades duram poucas horas, como investimentos de curto prazo. Outras pessoas ficam muito tempo ao seu lado, talvez a vida inteira, como investimentos bem sucedidos. O Caminho é permeado de momentos de alegria e euforia, como nos bull-markets, assim como de dor e tristeza, como nas crises. Precisa ter paciência, persistência e resiliência para chegar até o fim, afastando os pensamentos derrotistas e as dúvidas. Por fim, a recompensa é o coração cheio de alegria e gratidão, como o bolso cheio de um investidor. Os dias são longos mas a jornada é curta, e no final fomos todos peregrinos. Buen camino!

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