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Você compraria ações da M3RDA em Pó S.A.?

O investidor precisa ficar atento com a nova onda de IPOs

Por Market Makers

06 set 2023 15h27 - atualizado em 06 set 2023 03h43

Texto escrito por Luiz Cezar Fernandes, fundador do Pactual (hoje BTG Pactual). Luiz Cezar também esteve ligado ao Garantia, Selic, Cetip e Anbima. Ele participou do episódio #20 do Market Makers, até hoje um dos programas de maior repercussão que já fizemos. Hoje, Luiz Cezar é sócio da GRT Partners e da eNor. Em colaboração com Humberto Nader.

Quem embarcou recentemente num IPO sabe o tamanho da dor de cabeça que esse tipo de operação tem condições de gerar. Investidores desafortunados amarguram uma desvalorização de 70%, 80% no valor de seus portfólios. 

Não acredita? 

O mercado nacional produziu diversos exemplos desse fenômeno. É o caso dos papéis de Enjoei (-84%), TC (-85%), Infracommerce (-89%), Espaçolaser (-90%), Sequoia (-95%), entre outros.

Na minha opinião, esse cenário é resultado da convergência de fatores bem característicos do Brasil. 

Em primeiro lugar, no geral, o investidor brasileiro não tem o hábito de analisar com rigor os ativos que pretende adquirir. Chego a dizer que sequer existe o hábito de checar as informações do material publicitário — materiais, aliás, feitos sob medida, deixando por vezes aspectos cruciais do negócio propositalmente de fora do seu conteúdo. 

Some-se essa postura à muito característica e desmedida euforia de participar desse tipo de operação. Quem nunca se inebriou pela possibilidade de ganhar dinheiro, que jogue a primeira pedra. O problema é que, ao contrário daquilo que parece ter virado uma crença de muitos investidores, nem sempre um IPO é um bom negócio. Muitas vezes é justamente o oposto. 

Mas, obviamente, não é tudo “culpa” do investidor. 

Grande parte desses problemas seriam evitáveis caso o ordenamento jurídico nacional abrigasse mecanismos verdadeiramente eficientes em coibir e responsabilizar agentes financeiros que viabilizam e endossam esse tipo de operação. Muito fácil colocar um papel desses na praça quando não se sofre um pingo de responsabilização. Não se engane, essas ações despencam porque assim estavam destinadas a se comportar. A seleção de empresas para abertura de capital é pouco criteriosa e não guarda compromisso com o seu sucesso a médio prazo.

A CVM e a B3 demonstram uma incapacidade crônica na atividade de fiscalizar a venda desse tipo de ativos. A CVM, em especial, é obrigada por lei a ser eficiente. Deveriam ter uma postura diferente frente aos números terríveis que são apresentados. Em recente levantamento realizado por Lucas Agrela e publicado no Estadão, “na Janela de IPOs de 2020 e 2021, 72 empresas entraram na B3 e levantaram capital para reinvestir. Dessas, apenas 15 empresas estavam com as ações em alta na Bolsa em maio deste ano”. Fala-se em janela, porque de 2021 em diante, não tivemos novas empresas indo à Bolsa para esse tipo de operação. 

Essa ausência de IPOs é um indicador muito ruim, que vem atrelado ao ciclo dos juros. De todo modo, acredito que poderia ser, ao menos em parte, revertido a partir de uma atuação mais rigorosa da CVM, respaldada por uma regulação eficiente capaz de proteger o investidor. 

Observo, inclusive, um paralelo com outro fenômeno semelhante tido no final dos anos 60. Naquela época, em razão de uma profusão de ofertas irresponsáveis, alguns investidores criaram um papel chamado Merposa, ou “M**** Pó S.A.”. Tudo para chamar a atenção dos mais desavisados para um problema que, quase 60 anos depois, parece estar de volta à moda.

Como há uma tendência de melhora no cenário dos juros, cria-se demanda por novos IPOs. O investidor precisa, portanto, ficar atento, pois o risco de tomar um tombo nessa empreitada nunca vai sair de moda.

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