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A narrativa de duas empresas gigantes que deu errado

O fim de um arco narrativo

Por Renato Santiago

20 jul 2023 15h46 - atualizado em 20 jul 2023 03h46

Uma das vantagens de se fazer a mesma coisa por muito tempo é conseguir ver as narrativas começarem, se desenvolverem e terminarem. Nessa jornada de mais de quatro anos conversando com gestores e analistas, já vi muitas tendências surgindo e se esvaindo, assim como arcos narrativos se abrindo e fechando.

Há mais ou menos dois anos, ainda em outra encarnação, os investidores não qualificados, como eu e você, puderam começar a investir em ações internacionais, lembra? Antes era algo só para os qualificados. Obviamente isso teve que virar pauta e começamos um novo projeto para falar de ações globais.

Na época, um assunto estava muito quente: era o início da guerra dos streamings, com a chegada da Disney no segmento, para bater de frente com a Netflix.

Abriu-se ali o arco de uma história de guerra e concorrência entre duas empresas gigantes e capitalizadas. Me lembro muito bem que, na época, grande parte da mídia dava como certo o fato de que a Disney certamente iria “reinar”, já que tinha uma propriedade intelectual (seus personagens) incomparável e grande capacidade de execução.

A narrativa era favas contadas, já que a Disney, em 16 meses, havia atingido 100 milhões de assinantes,  e a Netflix, apesar de já ter 200 milhões, mostrava redução em sua taxa de crescimento. Projetando ambos os dados, era questão de tempo ver a Disney no topo. Para muita gente, a guerra dos stremings já tinha vencedor.

Dois anos depois, uma tabela muito interessante chegou até mim, e confesso que me surpreendeu. Na imagem abaixo você pode constatar que quase todos os programas originais do top 15 da Nielsen são da Netflix e apenas dois da Prime Video. Não existe nenhum da Disney.

Em número de assinantes, a Disney perdeu nos dois últimos trimestres (4 milhões só neste ano), e hoje totaliza cerca de 231 milhões de contas (somando todos os serviços da empresa, Disney+, Hulu e ESPN). Enquanto isso, a rival chegou aos 232,5 milhões de assinantes.

Mas onde estou querendo chegar com tudo isso? 

Esse não é um texto sobre a guerra dos streamings, nem análise dos dois negócios. Para fazer isso, precisaríamos falar também do custo de aquisição das companhias, da receita por usuário e muitos outros aspectos que quem analisa a fundo esse tipo de empresa precisa conhecer. A ideia aqui é falar de narrativas fáceis que abundam no mercado. 

Quando a Disney+ surgiu, parecia tentador embarcar na ideia de que ela tomaria conta de tudo, pelos motivos que eu citei acima. Quem comprou fácil essa narrativa de que a Netflix seria atropelada pela Disney, não percebeu todas as fortalezas que a então incumbente tinha a seu favor: uma tecnologia consolidada, propriedade intelectual sólida, cerca de 15 anos de expertise em streaming, presença global entre outras forças. Falando em narrativas, seria melhor ter deixado para os criadores de conteúdo.

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Por Renato Santiago

Jornalista, co-fundador do canal Market Makers e do Stock Pickers, duas vezes eleito o podcast mais admirado do Brasil. Passou por grandes redações do país, como o jornal Folha de S. Paulo e revista Exame, e atuou na cobertura de diferentes temas, de cotidiano até economia e negócios. Sua missão, hoje, é a de usar sua expertise editorial e habilidades de reportagem para traduzir o mundo das finanças e mercado financeiro ao grande público.

renato.santiago@empiricus.com.br