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O próximo presidente não deveria decidir suas ações
Eleições passam, mas bons negócios permanecem. O segredo é investir em empresas sólidas, não em quem será o próximo presidente.
Se você compra ações por conta das eleições presidenciais, sinto lhe dizer, mas você está comprando pelos motivos errados. E eu não afirmo isso por acreditar que eleições não importam. Pelo contrário: eu realmente acredito que uma eventual continuidade do atual governo faria a bolsa cair, enquanto um governo mais pró-mercado faria a bolsa subir. E esses movimentos – para cima ou para baixo – acontecem muito antes do fato se materializar.
O problema é que esse é um argumento extremamente frágil. Comprar ações única e exclusivamente por causa das eleições ignora o fato de que uma ação só existe porque há pessoas interessadas em financiar o crescimento de uma empresa para, em algum momento, ganhar dinheiro – seja com a valorização das ações, seja com a distribuição de proventos. Ninguém compra ações de uma empresa se não for para ganhar dinheiro dessas duas formas.
Ao comprar uma ação, você se torna sócio de uma empresa. E existe uma grande diferença entre ser dono de negócios e ser dono de ações. Se você é proprietário de um negócio, mesmo que pequeno – digamos que você tenha uma concessionária, um posto de gasolina ou uma lavanderia – você sabe que o negócio terá bons e maus momentos. Isso é certo. E nenhum dono de negócio diz: “Ah, minha concessionária está indo muito mal, vou vender agora e, quando o lucro melhorar, eu recompro.” Isso seria loucura.
Um dono permanece no negócio nos bons e maus momentos. Claro que, se você não gosta de um negócio, não precisa estar nele. Mas se os fundamentos do negócio ao longo do ciclo são bons, e ele é um negócio que vale a pena ter, então faz sentido segurá-lo por muitos anos.
Para saber se um negócio é bom e se faz sentido tornar-se sócio, sua preocupação deveria ser responder perguntas como:
- Os sócios dessa empresa são honestos e competentes?
- Os executivos estão conseguindo fazer o negócio prosperar?
- A empresa está crescendo? As margens estão expandindo?
- Qual é o histórico de retorno sobre o capital investido?
- A empresa está endividada?
Eu poderia listar algumas dezenas de perguntas importantes antes de entrar em um negócio, mas esse é justamente o ponto: sua preocupação não deveria se limitar ao futuro presidente do Brasil.
Como brasileiro, eu adoraria ver a política promovendo uma agenda de prosperidade econômica e social. Mas como investidor, eu preciso encontrar as empresas que vão prosperar – às vezes mais, às vezes menos – em qualquer governo e em todos os possíveis patamares de juros.
O valor intrínseco de uma empresa – ou seja, o quanto ela poderia valer – é o valor presente dos fluxos de caixa que ela vai gerar ao longo de sua vida econômica, independentemente da cotação. Você ganha dinheiro se o negócio gerar o caixa que você projetou e se tiver pagado um bom preço. Não porque o mercado concordou com você.
Agora, se você quer ser dono de um negócio por anos e gerar retornos extraordinários, você precisa considerar uma grande margem de segurança ao investir. Isso é condição necessária.
Como os mercados geralmente são eficientes demais para permitir preços com grande margem de segurança o tempo todo, oportunidades reais só aparecem quando há incerteza em torno de um negócio. Às vezes é algo específico da empresa, como a perda de um grande cliente. Às vezes é o risco de o filho do antigo presidente do país se candidatar à presidência.
A incerteza gera medo e o medo gera vendas forçadas. Nesses momentos, negócios saudáveis aparecem à venda e, como value investors, nosso trabalho é fornecer liquidez para esses vendedores.
E é justamente por isso que, no fim das contas, focar obsessivamente no próximo presidente para comprar ações não é o motivo correto. Os governos mudam, os ciclos políticos passam e o que permanece são os fundamentos das empresas das quais você escolhe se tornar sócio.