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Chico Buarque e o Banco Master
Devia fazer uns 10 anos que eu não escutava “O Malandro”, obra de Chico Buarque.
Devia fazer uns 10 anos que eu não escutava “O Malandro”, obra de Chico Buarque. Mas essa música veio como um raio na minha memória enquanto Juliano Custódio, fundador e CEO da EQI Investimentos, me explicava no episódio 354 do Market Makers (https://youtu.be/9S5y9fdt6zA?si=TVGOQdVR9z1KqAdS) sobre a injusta decisão da sociedade de que o assessor de investimentos é o vilão do caso Banco Master.
Se um dos 3 leitores desta newsletter não conhecem a música, deixo aqui o link dela no Youtube.
Em resumo: a música conta, em um tom humorado, o efeito cascata após um malandro beber uma dose de cachaça e não pagar. O prejuízo no dono do boteco é repassado pro distribuidor, que repassa pro usineiro, que não paga o banco… e como tudo isso volta até o garçom do boteco.
No final, o malandro, autuado, é “julgado e condenado culpado pela situação”. Tal qual o assessor foi escolhido pela sociedade como o culpado pelo escândalo do Banco Master, argumenta Custódio em meu podcast.
Assim como em “O Malandro”, o sistema inteiro funciona numa cadeia que envolve permissões e carimbos institucionais, mas também envolve políticas de incentivos e omissões. E quando a conta chega, a opinião pública prende (ou “cancela”, pra usar um termo mais moderno) o último da fila.
No samba do Chico, sobrou pro malandro que bebeu uma cachaça sem pagar. No Banco Master, querem que sobre pro assessor, que é quem está na última ponta da cadeia, mais visível aos olhos do povo.
Custódio é direto: não foi o assessor que inventou o Banco Master, nem mesmo auditou o balanço ou autorizou o banco a funcionar. O assessor sequer colocou o produto na plataforma das corretoras ou criou o FGC (Fundo Garantidor de Crédito), que foi uma das “justificativas” para se correr o risco de se investir nesses ativos.
Para cada etapa do processo, havia uma parte envolvida: auditoria, Banco Central, CVM, Anbima, corretoras, plataformas… além dos próprios investidores e a imprensa.
Aliás, fica a reflexão: o FGC tem uma importância enorme para o desenvolvimento das operações de créditos de bancos pequenos e médios. Mas quantas vezes ouvimos a frase “mas tem FGC, né?” pra justificar o investimento no CDB do Banco Master?
Veja você, investidor: se te oferecem dois CDBs, sendo um de um bancão que paga 102% do CDI e outro que paga 140% do CDI mas é “esquisito”. Só que ambos têm cobertura do FGC, que vai te devolver o dinheiro investido em caso de quebra do banco. Qual você escolheria?
Se escolher o banco esquisito e ele quebrar, você recebe o dinheiro de volta dentro do limite de R$ 250 mil por CPF. Se ele não quebrar, você leva 140% do CDI.
Pronto. Criamos a versão “Faria Limer” da cadeia da cachaça do Chico Buarque.
O banco emite. A plataforma distribui. A auditoria assina. O regulador observa. O FGC dá a sensação de rede de proteção. O cliente pede rendimento. O assessor vende. A bomba explode. A mídia noticia. A opinião pública se indigna. E, no final, prendem o malandro. Ou melhor: o assessor.
Longe de mim querer inocentar todo mundo que está na ponta da assessoria. Tenho tempo suficiente de mercado para saber que tem muito assessor bom mas também tem muito pilantra.
Por isso nunca neguei ajuda quando alguém me pergunta “Salomão, tem uma indicação de assessor de confiança?”, pois sei que é nada trivial identificar um profissional sério ou não.
É preciso reconhecer que vivemos uma política de incentivos no mercado financeiro que permite que casos “estranhos” como o Master não sejam freados ao primeiro sinal de fumaça. Mas achar que toda essa culpa recai no assessor é acreditar que mais ninguém da cadeia tirou benefícios dessa operação.
Esse é o ponto que o Custódio enfatizou na conversa.
O mais curioso é que o próprio caso Master revela uma contradição incômoda: durante muito tempo, para muita gente, o produto funcionou. Ou seja: o problema não começou como uma fraude óbvia para qualquer mortal. Começou como uma história que fazia algum sentido.
E uma multidão repetindo: “se está na plataforma, se está dentro da regra e se tem FGC, então deve estar tudo bem”.
Aprenda uma coisa: as grandes bombas do mercado raramente chegam usando um crachá escrito “bomba”. Mas depois que explodem, todo mundo olha para trás e pergunta: “como ninguém viu?”
A (desconfortável) resposta: muita gente viu pedaços. Pouca gente quis interromper o filme. Se uma grande plataforma para de vender um CDB pagando 140% do CDI e diz ao mercado que está preocupada, pode antecipar uma corrida bancária.
Da mesma forma, se o assessor recomenda o produto conservador de 102% e o cliente vê o vizinho ganhando 140%, ele perde o cliente.
Se o regulador age cedo demais, é acusado de precipitar a crise. Se age tarde demais, é acusado de omissão.
Se o cliente escolhe o produto mais seguro, sente que está sendo trouxa. Se escolhe o mais rentável, depois diz que foi mal orientado.
Como se fosse um sistema desenhado para que todo mundo tenha uma desculpa elegante.
Até a música parar.
Talvez a grande lição desse episódio não seja dizer que o assessor é santo, porque ele não é. Como disse o próprio Custódio, somos todos conflitados: assessores, corretora, banco, influenciador, jornalista, gestor, podcaster… até o dentista tem conflito!
O problema não é existir conflito. O problema é fingir que não existe. E essa é a grande lição: desconfie quando alguém chegar dizendo “eu sou o único puro desse mercado”.
Ou você acha que a simples mudança da política de remuneração dos assessores, saindo da comissão por produto e indo para o “fee fixo”, vai purificar todos eles?
Esse foi outro ponto levantado pelo Custódio: sim, o modelo comissionado tem muitos conflitos que serão resolvidos pelo “fee fixo”. Mas o fee fixo também tem seus próprios conflitos.
No final, o problema não está no modelo. Está nas pessoas e nos incentivos dados a elas.
Está no quanto uma organização consegue centralizar risco, controlar a prateleira, treinar assessor, explicar produto e, principalmente, dormir à noite bem, sabendo o que tem na carteira dos clientes.
Na EQI, Custódio tomou a decisão de centralizar a alocação justamente por essa angústia. Ele acordou um dia e pensou: “não posso simplesmente torcer para que ninguém tenha feito besteira.”
Mercado financeiro é, antes de tudo, fidúcia. Confiança. E confiança não é criada com discurso bonito. É criada quando alguém assume responsabilidade antes da bomba explodir.Esse episódio com o Juliano Custódio foi uma aula do momento atual do mercado financeiro, contada por um dos maiores empreendedores do segmento. O link para assistir está aqui.