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MIRE NO ELEFANTE

Existe uma frase do livro 100 to 1 in the Stock Market, do Thomas Phelps, que me marcou.

Matheus Soares

Por Matheus Soares

28 Apr 2026 12h24 - atualizado em 01 May 2026 12h24

Phelps escreve que, por mais estranho que pareça, sendo a ganância humana o que é, a maioria de nós comete o erro de pensar pequeno demais e completa dizendo que em nenhum lugar isso é mais verdadeiro do que nos investimentos. E reforça que ao invés de procurar pelas empresas que podem se multiplicar por 100x – fenômeno conhecido como 100 to 1 – a maior parte dos investidores está tentando ganhar alguns pontos aqui e ali, antecipar o próximo trimestre com o objetivo de capturar pequenos movimentos.

Até já escutei de um grande gestor que se ele buscasse valorizações de 10% ele seria garçom, mas a real é que mesmo quando uma empresa realmente excepcional aparece, a reação mais comum é vender. Às vezes porque “já subiu demais”. Às vezes porque surgiu algo aparentemente melhor. Sempre tem um motivo que parece o certo para justificar uma venda.

Phelps conta uma história que ajuda a entender isso. Durante um período em que caçava elefantes na África, ele aprendeu uma regra simples: ao procurar a maior caça, não se deve atirar em algo pequeno. Depois de disparar um tiro em uma galinha-d’angola ou em um antílope, o barulho do tiro afastava os elefantes. A metáfora captura algo que acontece o tempo inteiro no mercado: ao focar em oportunidades pequenas, o investidor se distancia das grandes. É difícil buscar algo que pode multiplicar capital ao longo de décadas quando você está condicionado a reagir a movimentos de curto prazo.

E talvez seja por isso que uma das ideias mais desconfortáveis do livro seja a de que cada venda, em algum nível, é uma confissão de erro. Não no sentido literal – até porque errar faz parte do processo – mas no sentido de que vender frequentemente revela mais sobre a nossa incapacidade de sustentar uma tese do que sobre a qualidade do ativo em si. Phelps mostrou que centenas de ações se valorizaram cem vezes no mercado americano, mas quase ninguém permaneceu nelas tempo suficiente para capturar esse movimento.

E isso nos leva a um fenômeno que nós insistimos em ignorar: o tempo não distribui retornos de forma linear. Phelps mostra que, em uma trajetória de multiplicação de 100 vezes ao longo de 25 anos, cerca de 60% dos ganhos surgem nos últimos cinco anos. Ou seja, o investidor que sai cedo demais deixa muito dinheiro na mesa. E o que torna isso ainda mais difícil é o comportamento humano.

Tendemos a gostar mais das ações quando elas estão subindo do que quando elas estão caindo. Reagimos ao que acabou de acontecer como se fosse mais relevante do que aquilo que ainda pode acontecer. E chamamos isso de adaptação às condições de mercado, quando muitas vezes é apenas uma forma sofisticada de autoengano.

No meio disso tudo, existe uma ideia que parece simples, mas que é incrivelmente difícil de aplicar: nunca tomar uma decisão de investimento por um motivo que não seja de investimento. Parece óbvio, mas quantas decisões são tomadas simplesmente pela necessidade de fazer algo? Talvez por isso Phelps questione até mesmo o excesso de informação – e olha que o livro foi escrito em 1972!! Assim como em um avião os passageiros não ajudam o piloto a observar todos os instrumentos da cabine, investidores raramente tomam melhores decisões por estarem expostos a mais ruído.

E talvez seja aí que o livro começa a ficar ainda mais interessante, porque a dificuldade não está apenas em encontrar boas empresas ou em ter paciência para mantê-las. Está também em entender as pessoas por trás delas – e, principalmente, entender a si mesmo. Em um dos trechos mais sutis do livro, Phelps observa que “o maior problema nos negócios não é crescer – é envelhecer”, e conecta isso ao que ele chama de egonomics.

Ele descreve dois executivos igualmente capazes: um que aprimora ideias e dá crédito aos outros, e outro que busca falhas e afirma sua superioridade. O primeiro atrai talento e boas decisões; o segundo corrói lentamente a organização. É difícil superestimar o custo desse segundo perfil. E o ponto mais desconfortável é que esse problema não está apenas nas empresas – ele está também nos investidores. A relutância em aceitar ideias que não são nossas, a necessidade de proteger o próprio ego, a tendência de justificar decisões passadas, tudo isso interfere diretamente na nossa capacidade de identificar e, principalmente, de manter os grandes vencedores ao longo do tempo.

No fim, isso exige um tipo de análise que vai além de números. Exige julgamento sobre qualidade de crescimento, sobre alocação de capital, sobre pessoas. Talvez por isso Phelps – assim como Warren Buffett – sugeria que o investidor deveria comprar ações como se acreditasse que o mercado ficaria fechado pelos próximos dez anos. Se você não se sente confortável em manter uma empresa por esse período, talvez o problema não seja o mercado.

O livro não ensina como encontrar a próxima ação que vai subir 100 vezes. Ele mostra por que, mesmo quando essa ação aparece, a maioria de nós não consegue ficar com ela. A ideia é simples de entender – talvez até óbvia – mas extremamente difícil de executar na prática. E talvez o ponto mais honesto do livro seja quando o próprio Phelps admite que não conseguiu seguir plenamente aquilo que defendia.

Ps: Quando 100 to 1 in the Stock Market saiu pela primeira vez em 1972, custava seis dólares e noventa e cinco centavos. Décadas depois, quando esgotou e virou raridade, exemplares chegaram a ser anunciados na Amazon por mais de seiscentos dólares. O próprio livro se tornara um 100-bagger.
Um abraço,
Matheus Soares

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Matheus Soares
Por Matheus Soares

Fundador do Market Makers, analista responsável pela Carteira Market Makers de Ações. Antes de fundar o MMakers, foi analista responsável pela cobertura de Small Caps na XP Inc e analista fundamentalista da Rico Investimentos. Certificado no curso de Value Investing da Columbia Business School.

matheus.soares@mmakers.com.br