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O Brasil é uma criança
Quase todo investidor brasileiro de ações aprende, cedo ou tarde, a desconfiar do macro. E com razão.
Quase todo investidor brasileiro de ações aprende, cedo ou tarde, a desconfiar do macro. E com razão. Quem passa o dia estudando empresa sabe que, no fim das contas, o que constrói retorno de longo prazo são negócios bem administrados, com vantagens competitivas reais, boa alocação de capital e, claro, um preço de entrada que ofereça margem de segurança. É por isso que eu, pessoalmente, sempre me vi muito mais confortável buscando teses que possam dar certo apesar do Brasil do que teses que dependam de Brasília.
Mas seria ingenuidade minha ignorar por completo o ambiente macroeconômico.
Nos últimos dias, ouvi dois episódios do Market Makers que ficaram martelando na minha cabeça. No Market Makers #347, com João Landau e Rui Alves, e no Risco Brasil #35, com Marcos Troyjo e Felipe Moura Brasil, apareceu uma ideia em comum que me parece poderosa: este momento internacional, tão carregado de tensão geopolítica, redesenho de cadeias produtivas, disputa por segurança energética e corrida por minerais críticos, é ruim para boa parte do mundo – mas pode ser surpreendentemente favorável para o Brasil.
O Brasil, por acaso ou por bênção geológica, resolveu estar presente em várias das grandes angústias do século XXI. Segurança alimentar? Presente. Diversidade energética? Presente. Minerais críticos e terras raras? Presente. Uma geografia relativamente distante dos principais conflitos do mundo? Presente também. Como resumiu Marcos Troyjo, este é um momento internacional “muito intensivo em geopolítica” que, embora piore o entorno para a maioria dos países, acaba sendo “particularmente favorável para nós”.
Mas foi o João Landau quem encontrou a imagem que melhor traduz essa contradição brasileira. Ao dizer que “o Brasil não é um pai sério” e que “o Brasil é uma criança”, ele conseguiu colocar em poucas palavras algo que todo brasileiro sente, mas raramente consegue formular tão bem: somos um país que fornece matérias-primas relevantes para o mundo, mas com uma discussão pública muitas vezes infantil, provinciana e incapaz de focar no que realmente interessa.
A genialidade da analogia está no fato de que o lado ruim de ser uma criança é a dependência. O lado bom é que, quando os adultos decidem te levar para passear, você vai junto.
Foi assim em 2002, quando a China resolveu crescer de forma descomunal e passou a demandar exatamente o tipo de coisa que o Brasil tinha para oferecer. E talvez seja isso que esteja novamente diante de nós agora. Não porque o Brasil tenha, de repente, amadurecido institucionalmente. Não porque nossa política tenha ficado sofisticada. E certamente não porque tenhamos virado exemplo de coordenação estratégica. Mas porque o mundo mudou – e, nessa mudança, os nossos ativos passaram a valer mais.
Nesta semana vimos um exemplo concreto disso. A americana USA Rare Earth anunciou a compra da brasileira Serra Verde por US$ 2,8 bilhões, em uma transação que dá aos EUA mais exposição a uma fonte relevante de terras raras fora da China.
É aqui que a fala do Landau sobre “os pais” do Brasil encontra a realidade. Em um mundo que redescobre a importância de segurança energética, autonomia industrial e resiliência estratégica, países com recursos escassos e localização relativamente segura passam a receber uma atenção diferente. E o Brasil, goste ou não de si mesmo, entrou nesse mapa.
Isso não significa embarcar numa tese ingênua de “Brasil vai dar certo” ou ignorar os nossos problemas. O próprio Troyjo faz a ressalva correta: o drama político-jurídico brasileiro atrapalha e reduz o universo de capital que poderia vir para cá sob outras circunstâncias. Mas talvez o ponto mais importante seja justamente este: mesmo com tudo isso, o Brasil continua aparecendo como destino relevante quando o assunto é acesso a recursos estratégicos.
E, para quem investe em ações, essa conclusão é importante. De repente, o investidor de ações brasileiro pode voltar a ter aquilo que raramente teve ao mesmo tempo: bons negócios dentro de casa e um vento estrutural soprando a favor do país.
Talvez a melhor forma de descrever o momento seja a analogia do próprio Troyjo sobre as terras raras brasileiras: é como a pessoa que antes de levar o paletó para lavar, põe a mão no bolso e encontra uma nota de R$ 100 esquecida ali.
E para quem passa os dias procurando assimetrias no micro, talvez valha prestar atenção quando o macro, pela primeira vez em muito tempo, deixa de ser só um peso e começa a parecer uma alavanca.