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O resumo do mercado em 6 atos – pra você que ficou focado na Copa do Mundo
A Copa acabou, mas os impactos no mercado continuam. Veja o que mudou durante esse período.
A Copa do Mundo acabou, para minha tristeza e alegria.
Tristeza por todas as sensações e momentos únicos que este evento esportivo despertou em mim e nos apaixonados por futebol.
Mas alegria por não precisar brigar mais pela atenção das pessoas com a CazéTV – não, não foi só a Globo que foi impactada com o sucesso de audiência desses caras.
Como o algoritmo do Youtube trabalha entregando conteúdo de acordo com o que as pessoas querem consumir, alguns de nossos podcasts ficaram em segundo plano nas prioridades enquanto a Copa rolava.
Contudo, confesso que me adaptei bem a esta realidade passageira: aproveitei os jogos da Copa que rolaram em horário comercial para marcar encontros e conversas de atualização de mercado. Papo leve e fluido durante o jogo mas a cada intervalo ou “pausa pra hidratação”, um superfoco no que realmente importava. #MeSigaParaMaisDicas
Em uma dessas conversas com um grande amigo e excelente analista macro, fiz um verdadeiro “deep dive” de tudo que o investidor deveria ter ciência que aconteceu durante a Copa do Mundo mas que, por não estar devidamente atento ao mercado, deixou algumas coisas passarem.
Agradeço ao Matheus Spiess, analista macro da Empiricus Research, por essa e várias conversas tão boas de mercado.
O saldo você confere abaixo:
1. O petróleo não tirou férias
Aquele cessar-fogo entre EUA e Irã que todo mundo comemorou em junho durou menos do que a esperança do brasileiro quando o Neymar entrou em campo contra a Noruega (não, eu não superei ainda…)
Trump decretou que a trégua “acabou” e autorizou uma nova rodada de bombardeios contra portos e instalações militares iranianas. O Irã revidou atacando bases americanas no Bahrein, Jordânia, Kuwait, Omã, Catar e Síria, e ameaçou (de novo) fechar o Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de um quinto de todo o petróleo negociado no mundo.
Resultado: o Brent, que é a referência internacional do petróleo, subiu mais de 14% só nesta última semana e fechou sexta-feira perto de US$ 88, no maior patamar em um mês. Em 12 meses, a alta acumulada passa de 27%. A lembrar: o preço do barril chegou a US$ 120 em março/abril, nos piores momentos da guerra.
Petróleo mais caro significa combustível mais caro, frete mais caro, insumo mais caro pra praticamente tudo que você compra. É inflação chegando sem pedir licença.
2. Enquanto isso, a inflação “passada” trouxe alívios
Enquanto o petróleo gritava lá fora, o IPCA de junho trouxe sussurros otimistas aqui dentro: subiu apenas 0,16%, bem abaixo da projeção do mercado, que era de 0,31%. Foi a menor leitura mensal desde outubro do ano passado.
Com isso, a inflação acumulada de 12 meses desacelerou de 4,72% para 4,64% – ainda bem acima da meta de 3%, mas já dando sinais de uma mudança de direção. Boa notícia! Mas difícil ficar muito animado com todo esse impasse sobre a guerra.
Aliás, é preciso mencionar a confusa comunicação do Copom na reunião que culminou no corte de 25 pontos-base na Selic. Mas ruídos à parte, o fato é que com a economia dando sinais de fraqueza e a inflação perdendo forças, cada vez mais economistas projetam mais um corte na Selic, no mínimo.
Inflação também foi um tema nos EUA: por lá, vimos em junho bons sinais de desaceleração, o que fez o mercado jogar para o final do ano as apostas de alta de juros por parte do Fed.
3. O Fed trocou de treinador
Jerome Powell encerrou seu período à frente do Federal Reserve depois de dois mandatos marcados por ataques públicos de Trump praticamente todo mês. Quem assumiu foi Kevin Warsh, ex-diretor do Fed entre 2006 e 2011, crítico histórico da expansão monetária pós-pandemia e indicado pela Casa Branca justamente por prometer um banco central mais “disciplinado”.
E Warsh não perdeu tempo em mostrar diferença. Na primeira coletiva como presidente, anunciou cinco forças-tarefa pra reavaliar praticamente tudo dentro do Fed — comunicação, fontes de dado, balanço patrimonial, produtividade e emprego — e disse que vai enxugar comunicados e “excomungar” o dot plot, o gráfico trimestral que sinaliza a trajetória de juros. Mas fez questão de deixar um recado curto: a meta de inflação de 2% é intocável.
O detalhe que fez o mercado sentar na ponta da cadeira veio na própria reunião de estreia: pela primeira vez em anos, a mediana dos membros do Fomc passou a projetar alta de juros em 2026, não corte — de 3,4% pra 3,8% até o fim do ano. Nove dos dezoito participantes esperam juro mais alto. O dólar reagiu na hora, subindo contra o real para perto de R$ 5,12.
Em julho, no Fórum do Banco Central Europeu em Sintra, Warsh evitou dar pistas sobre a próxima decisão, mas soltou a frase que virou manchete: “vamos ter uma boa discussão familiar quando nos reunirmos”. Tradução: existe divergência séria dentro do comitê sobre o que fazer com o petróleo empurrando a inflação americana pra cima bem no momento em que a Casa Branca quer juro mais baixo. E, no depoimento semestral ao Congresso na semana passada, Warsh reforçou o compromisso do Fed com a independência “mesmo diante de pressões políticas” — um recado nada sutil pra quem o indicou.
4. O ouro não reluz mais como ouro
Em janeiro deste ano, o ouro bateu recorde atrás de recorde, chegando a flertar com os US$ 5 mil a onça, em meio a um clima de desconfiança sobre a independência do Fed. Nas últimas semanas, o movimento se inverteu: o metal caiu abaixo de US$ 4 mil, a maior queda semanal em mais de um mês.
Parece contraintuitivo: com guerra e petróleo subindo, o ouro deveria disparar como proteção, certo? Pois bem, mas como o petróleo está mantendo a inflação lá em cima e o Warsh sinalizou juro mais alto em vez de corte, o ouro (que não paga juro nenhum) fica menos atraente na comparação com renda fixa em dólar.
É o tipo de coisa que só faz sentido quando você junta os pontos. Sozinho, cada dado parece ruído. Juntos, contam a história real: o mercado está reprecificando quanto juro alto os EUA vão precisar segurar por mais tempo.
5. A água no chopp da festa da IA
Wall Street teve sua própria zebra durante a Copa: a Broadcom, uma das principais fornecedoras de infraestrutura pra data centers de IA, divulgou um dos melhores trimestres da história — receita 48% maior, lucro acima do esperado, guidance também acima do consenso. Resultado: as ações despencaram 12,6% no dia seguinte, e mais 5,8% dois dias depois.
Motivo? Um único número de projeção de receita com chips de IA que ficou aquém do que o mercado, inflado por dois meses de rali de 69% da ação.
O índice de semicondutores americano teve a pior sessão de 2026. A Nvidia, que chegou a valer mais de um trilhão de dólares a mais do que hoje, devolveu boa parte do ganho e voltou a múltiplos de preço/lucro parecidos com os de antes do boom.
Longe disso ser o prenúncio do fim da história da IA – embora toda grande mudança de tendência começa com uma leve correção. Mas o ponto mais importante aqui é ter em mente o quão sensível o investidor está com esta temporada de resultados, tendo em vista a forte expectativa embutida nestas empresas.
6. No Brasil, teremos o início da “nossa” Copa do Mundo
Um pouco mais próximo do noticiário do brasileiro, a pauta política pegou fogo durante a Copa. De um lado, Flávio Bolsonaro colheu os ônus das conversas vazadas com Daniel Vorcaro e com o vídeo da madastra Michelle sucumbindo qualquer aliança entre eles. Do outro, Lula perdeu um importante aliado com o envolvimento de Jacques Wagner no caso do Banco Master.
As pesquisas ainda mostram Flavio e Lula num virtual segundo turno, com o atual presidente levando vantagem no segundo turno. Mas a mínima distância entre eles revela o quão difícil será qualquer previsão de cenário antes da corrida eleitoral chegar na reta final.
Mas a real é que somente agora que boa parte da população vai se ater às eleições. Por enquanto, boa parte dos interessados no assunto eram os políticos envolvidos e nós, investidores que tentam a todo momento entender o que é impossível explicar.
Aqui eu deixo uma dica quente: entrevistamos Ronaldo Caiado, candidato à presidência pelo PSD. Dentre as “vozes alternativas” que temos para presidente, Caiado mostrou uma profundidade ao falar de temas como Inteligência Artificial e terras raras. Algo raro em conversas com políticos. Ouça aqui e tire suas próprias conclusões.
Que esse breve resumo te ajude a voltar para o mercado com o mesmo afinco que os ingleses tiveram de entregar a semifinal para a Argentina (também não superei essa aí… felizmente a Espanha tirou o doce da boca deles).
Um forte abraço, Thiago Salomão