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34 lições que extraí sendo um andarilho da Faria Lima

34 lições de 18 anos circulando pela Faria Lima, entre conversas com investidores, empresários e grandes nomes do mercado.

Thiago Salomão

Por Thiago Salomão

10 Aug 2026 10h00 - atualizado em 10 Aug 2026 05h51

Um dos maiores bônus da minha “profissão” de transeunte do mercado financeiro é conseguir me conectar com todo tipo de pessoa desse meio.

Nesses 18 anos convivendo e entrevistando gente bem mais experiente, vivida e vencedora do que eu, absorvi muitos aprendizados que uso nos investimentos, na minha empresa e na vida pessoal.

Esse processo ganhou outra dimensão com o Market Makers.

Depois de centenas de horas sentado diante de gestores, empresários, economistas, políticos e outros espécimes exóticos, aprendi que esse mercado é uma enorme fábrica de paradoxos.

Gente muito inteligente fala muita bobagem. Gente que parece maluca enxerga coisas que ninguém mais viu.

Também descobri que os melhores ensinamentos raramente são apresentados como ensinamentos. Às vezes, eles aparecem em uma frase atravessada, em uma contradição ou na resposta que o convidado tentou evitar durante dez minutos.

As 34 lições abaixo não são leis universais. São conclusões provisórias de alguém que ganha a vida fazendo perguntas — algumas até meio idiotas — para pessoas que sabem muito mais do que ele.

 

1. Inteligência não vacina ninguém contra a estupidez

Quanto mais inteligente a pessoa, mais sofisticada pode ser a justificativa construída para defender uma ideia ruim.

2. Convicção é indispensável. Apaixonar-se pela tese é fatal

Convicção permite suportar volatilidade. Paixão faz o investidor ignorar fraude, alavancagem, má decisão de gestão e até a realidade. A ação não sabe que você é acionista.

3. O consenso protege mais carreiras do que patrimônios

Em contraponto à lição acima, o consenso raramente destrói a reputação de um gestor, enquanto errar sozinho pode ser imperdoável.

4. Previsão macroeconômica é uma ótima forma de parecer inteligente

Guilherme Aché, da Squadra, disse que, depois de 35 anos de bolsa, acredita cada vez menos em projeções macro

5. Planilha aceita qualquer desaforo

Basta ajustar crescimento, margem e taxa de desconto até o preço-alvo concordar com a tese que você já queria defender. Carlos Woelz, da Kapitalo, chamou essa tribo de “cabeças de planilha” e fez a pergunta realmente importante: “Qual é a persistência desse negócio?”

6. Ter acesso a muita informação não impede ninguém de entender tudo errado

A informação está cada vez mais barata. O discernimento continua caro.

7. Uma boa empresa e um bom investimento são coisas diferentes

Essa frase de César Paiva, da Real Investor, deveria ser colada na tela de todo investidor. A Faria Lima está cheia de viúvos de empresas maravilhosas que foram compradas a preços absurdamente altos.

8. Empresa existe para remunerar o acionista

Octávio Magalhães, da Guepardo, colocou de uma forma menos romântica: “Empresa foi feita para você tirar dinheiro, não para pôr.” Propósito, cultura e visão de longo prazo são importantes. Mas, se depois de 20 a empresa continua pedindo capital e entregando promessa, talvez o propósito dela seja financiar o sonho do controlador.

9. Comprar barato não é comprar algo que caiu

Preço baixo e preço em queda são conceitos diferentes. Algumas ações caem porque o mercado enlouqueceu. Outras caem porque finalmente começou a fazer as contas.

10. A tese precisa caber numa conversa

Se você não consegue explicar por que investiu sem abrir 37 abas, talvez não tenha uma tese. Talvez tenha um pedido de socorro em formato de Excel.

11. O dinheiro grande costuma estar onde o mercado não quer olhar

Raphael Maia explicou por que gosta de small caps: “É mais fácil ter assimetria de valor, tem mais oportunidades.” Quando 50 analistas acompanham uma empresa, a chance de se ter um diferencial intelectual diminui. 

12. Saber vender é muito mais difícil do que saber comprar

Comprar dá a sensação de começo. Vender exige admitir uma entre três coisas desagradáveis: a tese acabou, o preço ficou caro ou apareceu uma ideia melhor. É mais confortável mudar o preço-alvo.

13. Cuidado com as “palavras-chave”

” O mercado tá errado”, “essa ação não tem downside” ou “só um louco não compra isso”: se alguém usar uma dessas frases ou qualquer derivação disso para explicar uma tese de investimento, fuja ou ignore educadamente.

14. Se uma posição não deixa você dormir, o tamanho está errado

Autoexplicativo.

15. Alavancagem transforma opinião em sentença

Sem alavancagem, você pode estar errado e esperar. Alavancado, pode estar certo e quebrar antes.

16. Ausência de volatilidade não é ausência de risco

Autoexplicativo.

17. Diversificação é a tradução financeira da frase “posso estar errado”

Quem concentra precisa conhecer profundamente o ativo. Quem concentra porque viu três vídeos está apenas transformando ignorância em coragem.

18. Antes de ouvir uma opinião, descubra quem paga por ela

O mercado financeiro não é uma instituição de caridade. Se você não entendeu como alguém ganha dinheiro, cuidado com a recomendação que recebe desta pessoa.

19. O conflito de interesse raramente chega usando crachá

Ele costuma aparecer como “oportunidade exclusiva”, “produto sofisticado” ou “condição disponível apenas até sexta-feira”. O assessor pode ser competente e bem-intencionado. Ainda assim, a comissão continua existindo.

20. Quem não perde nada quando erra não deveria decidir tudo

Esse é um dos motivos pelos quais gosto tanto do conceito de skin in the game. Opiniões mudam quando uma parte relevante do patrimônio está do mesmo lado da recomendação.

21. Reputação é um ativo. Fama é apenas distribuição

Ter seguidores ajuda a espalhar uma ideia. Mas não torna a ideia correta.

22. Incentivos vencem discursos motivacionais

Se a empresa remunera venda a qualquer custo, não adianta colocar “cliente no centro” na parede. O cliente continuará no centro — cercado por vendedores.

23. Caixa compra tempo

Negócios não morrem quando acabam as apresentações otimistas. Morrem quando acaba o dinheiro.

24. Faturamento é vaidade quando a margem é uma ficção

Crescer vendendo uma nota de R$ 100 por R$ 90 não é apenas um jeito moderno de quebrar.

25. Sócio errado é dívida com juros emocionais

Uma sociedade ruim drena dinheiro, energia e tempo. E não existe marcação a mercado que mostre o tamanho do prejuízo antes disso aparecer.

26. Foco é recusar oportunidades que parecem boas

Recusar ideias ruins não exige disciplina. O teste começa quando a ideia é boa, o mercado é grande e, mesmo assim, ela atrapalha aquilo que você decidiu construir.

27. Não subestime o poder da paixão de um fundador

Momentos de crise podem paralisar ou provocar a desistência de executivos e até sócios, mas raramente derrubará um fundador. Acredite no poder de superação e reinvenção do criador de uma ideia.

28. Networking não é colecionar contatos. É acumular confiança

A pessoa que aparece apenas quando precisa de algo não construiu uma rede. Construiu uma lista de possíveis vítimas.

29. Competência abre portas; caráter decide quanto tempo elas permanecem abertas

O mercado é grande, mas a memória dele é maior do que parece.

30. Você pode aprender com alguém sem querer ser aquela pessoa

Há investidores brilhantes e políticos vitoriosos com vidas e posições que eu não gostaria de ter. E pessoas muito bem-sucedidas cuja principal lição é justamente o que não fazer.

31. Todo sucesso tem um passivo escondido

Patrimônio, poder e reconhecimento costumam cobrar em tempo, saúde, casamento, amizade ou paz. A entrevista exibe o ativo. Quase nunca mostra a dívida.

32. O Brasil continuará sendo o Brasil

João Landau chamou o país de “um aluno nota 6”. Quem espera um 10 ou a derrocada para a nota zero costuma se frustrar. Enquanto isso, a nota 6 continua entregando oportunidades e vexames com admirável regularidade.

33. Dinheiro resolve muitos problemas. Só não resolve todos

Quem diz que dinheiro não traz felicidade provavelmente nunca teve uma dívida séria. Quem diz que dinheiro resolve tudo provavelmente nunca teve um problema sério.

34. Curiosidade é o único ativo que sempre quero carregar

Comecei a entrevistar pessoas para entender melhor o mercado. No caminho, acabei aprendendo sobre negócios, política, vaidade, medo, fracasso, família e escolhas.

Depois de tantas conversas, hoje tenho uma ideia muito melhor de como investir bem, construir uma empresa ou viver uma vida interessante. Mas tenho absoluta certeza de que jamais saberei tudo que preciso saber em nenhum destes campos da vida.

Talvez a principal vantagem de ser um andarilho da Faria Lima seja justamente esta: circular o suficiente para perceber que ninguém sabe tudo, todo mundo tem algum ponto cego e as maiores certezas costumam durar até o próximo drawdown.

Por isso pretendo seguir nessa toada: fazendo perguntas, ouvindo gente boa (e ruim também, por que não?), desconfiando de respostas fáceis e com humildade de ouvir e aprender com quem já viveu algo diferente de mim.

Seguirei andando.

Um forte abraço, Thiago Salomão

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Thiago Salomão
Por Thiago Salomão

Fundador do Market Makers, analista de investimentos CNPI-P, MBA em Mercados Financeiros na Fipecafi e na UBS/B3. Antes de fundar o MMakers, foi editor-chefe do InfoMoney, analista de ações na Rico Investimentos, co-fundou o podcast Stock Pickers e foi sócio da XP de 2015 a 2021

Thiago.Salomao@btgpactual.com