Notícia
2min leitura
O investidor que nunca tentou parecer um gênio
Walter Schloss provou que investir bem exige menos previsões e mais disciplina, paciência e margem de segurança.
Sempre que pensamos nos maiores investidores da história, lembramos de figuras como Warren Buffett, Charlie Munger, George Soros ou Peter Lynch. Pouca gente, porém, coloca Walter Schloss nessa lista. É curioso, porque poucos conseguiram entregar um histórico tão consistente por tanto tempo. Durante quase cinco décadas, Schloss obteve retornos próximos de 16% ao ano, superando o mercado americano sem alavancagem, sem derivativos, sem visitar empresas e praticamente sem conversar com executivos. Sua principal ferramenta era uma calculadora, os balanços financeiros e uma disciplina quase inabalável.
Recentemente, por recomendação de um membro do M3 Club (que inclusive vai fechar para novos membros) li uma entrevista que ele concedeu à Barron’s em 1985 e o que mais me impressionou não foi sua metodologia, mas sua postura diante do mercado. Em um momento, o entrevistador pergunta como ele decide o momento certo para comprar uma ação. A resposta é quase decepcionante: “Não sou muito bom com timing”. Em outro trecho, perguntam quando vender. Novamente, nenhuma fórmula sofisticada. Ele admite que vender talvez seja a parte mais difícil do processo e que frequentemente erra. Há ainda uma pergunta sobre previsões econômicas. Sua resposta resume boa parte de sua filosofia: “Nunca fui muito interessado nisso.”
Vivemos em uma indústria que recompensa quem parece ter todas as respostas. Todo dia alguém prevê onde estarão os juros, o dólar, o petróleo, a inflação ou a bolsa daqui a seis meses. Schloss construiu uma das carreiras mais extraordinárias do mercado justamente fazendo o contrário. Em vez de tentar prever o futuro, aceitava que ele era imprevisível. Como não conseguia adivinhar o amanhã, concentrava toda sua energia na única variável sobre a qual tinha algum controle: o preço que pagava hoje.
Essa talvez seja a essência da margem de segurança. Muita gente enxerga esse conceito apenas como comprar ações baratas. Para Schloss, era muito mais do que isso. Era uma forma de admitir a própria ignorância. Se inevitavelmente vamos errar parte das nossas premissas, o preço precisa nos proteger desses erros. A margem de segurança não existe porque somos pessimistas; existe porque somos humildes.
Outro aspecto que me chamou atenção foi sua simplicidade. Em nenhum momento ele tenta transformar o investimento em algo complexo. Ele diz que nunca comprou opções, que evitava empresas que não entendia, que não fazia apostas macroeconômicas e que sequer gostava de visitar companhias para não correr o risco de ser influenciado pelo carisma dos executivos. Seu trabalho consistia basicamente em procurar empresas
negociadas abaixo do seu valor e esperar pacientemente que o mercado corrigisse essa distorção.
Talvez essa seja a maior ironia do mercado financeiro. Quanto mais experiência alguns investidores acumulam, mais sofisticados parecem querer se tornar. Walter Schloss fez exatamente o caminho inverso. Ao longo da carreira, foi eliminando tudo aquilo que não aumentava suas chances de sucesso até restar apenas o essencial: comprar barato, diversificar, ter paciência e manter a humildade para reconhecer que prever o futuro nunca foi – e provavelmente nunca será – uma vantagem competitiva.