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O perigo de estarmos no raso
A cultura das respostas fáceis nos faz ignorar a complexidade da política, dos mercados e da vida. Uma reflexão sobre por que nem tudo pode ser reduzido a soluções simples.
Olá, olá, tudo bem?
Quando o cientista político Creomar de Souza veio ao Market Makers ele nos entregou os primeiros exemplares de seu primeiro livro, “Gestão de risco político”. Eu li em alguns poucos dias e me chamou a atenção o fato de que Creomar foi corajoso. Tocou num tema delicado, num ano de eleição e com a complexidade que o tema merece. Não houve alívio ou tentativa de simplificar o tema para ganhar a audiência.
E isso é um feito raro nos dias de hoje.
Cada vez mais somos dragados pela cultura do raso. Explique-se num vídeo de 90 segundos, senão o algoritmo te pune. Escreva em 140 caracteres. Me dê 5 formas de resolver o problema X e “o jeito certo” de solucionar a questão Y. Não há espaço, nem interesse para ideias bem desenvolvidas, tudo tem que parecer simples e fácil.
Considero que a maioria dos leitores deste espaço tem mais de 30 anos. Talvez isso tenha um impacto menor. Nossa mente e ideias primárias sobre a vida e o mundo estão formados. Mas imagine o impacto dessa loucura na vida das crianças e adolescentes. Estamos construindo uma geração que tira a complexidade da equação da vida, que vai chegar à vida adulta entendendo que tudo pode ser simples e se não for, está errado. Que tudo deve caber em 90 segundos, que tudo funciona no espaço de um tweet ou vídeo do TikTok.
O que vai acontecer quando eles se depararem com a complexidade da vida? Com as nuances que existem entre o bom e o mau, a direita e a esquerda, o pobre e o rico, os vilões e os mocinhos.
Estamos prestes a entrar na campanha eleitoral e a simplificação e a “rasabilidade” (termo que eu acredito ter inventado aqui e agora) serão explorados ad nauseum. “Para resolver o problema fiscal, basta isso. Para a segurança pública, a receita é essa. E aqui eu soluciono com isso a crise internacional”. |
Se fosse fácil como parece, não seria um problema, convenhamos.
E aqui eu conecto essa reflexão com um fato desta semana que dominou as rodas de conversa do mercado financeiro. A Gávea, gestora de Armínio Fraga, anunciou o fechamento de sua atuação em fundos multimercados. É mais um fato novo na crise dessa classe de ativos que vem se descortinando dia a dia. Mas que não é simples.
Não é “os multimercados vão acabar”, nem é “só uma marolinha”. Ouvimos recentemente vários gestores e alocadores para uma reportagem especial em The Report, nossa revista digital (assine aqui para ler) e as opiniões mostram que o modelo está esgotado e precisa mudar. O caminho, no entanto, tem várias nuances e possibilidades – cada olhar, um olhar.
Mas nas conversas de elevador da Faria Lima, a complexidade se reduz a “tem que acabar, é uma merda”, ou “merda é quem não sabe gerir, é bom”. É uma experiência transcendental.
Por fim, uma vivência pessoal: nesta semana, encontrei um motorista de Uber, Samir. Emendamos uma conversa sobre o filho dele que está indo fazer um intercâmbio fora do país, depois falamos de filosofia e psicanálise. Samir me contou que é jornalista, psicanalista, mas trabalhou muito tempo na Faria Lima.
Ao mesmo tempo, tentou abrir a franquia de uma academia e levou um golpe – o que o levou a complementar a renda com o aplicativo de transporte. Foi uma corrida longa, o que deu tempo para conhecer toda a história dele. Ao final, essa conversa me deu um exemplo concreto do assunto que vinha dominando minha semana: a vida é complexa, cheia de possibilidades, viradas, desvios de rota. Não há linearidade possível.
Negar isso, em qualquer área da vida, é perder de vista a realidade.
Um abraço,
Leopoldo Rosa