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Há risco no risco

Em um país dividido, toda manifestação pública pode gerar ganhos e perdas. A questão é saber se o risco vale a pena.

Leopoldo Rosa

Por Leopoldo Rosa

05 Jun 2026 10h00 - atualizado em 07 Jun 2026 07h49

Olá, tudo bem? 

Me lembro vivamente de um causo que vou compartilhar.

Uma profissional de saúde, amiga querida, vinha se posicionando politicamente durante a pandemia e o governo Bolsonaro. Forte nas redes sociais, ela aproveitava a capilaridade de seus conteúdos para falar de seus posicionamentos. Mas começou a perder seguidores, atrair haters (ou como chamamos no mundo offline, críticos ferozes) e isso se refletiu nos convites para palestras, nos pacientes e nas vendas de seus cursos. 

Ela me perguntou o que eu achava disso. 

Contei esse caso para Creomar de Souza, analista de risco político que entrevistamos no Market Makers na última terça-feira. Se você perdeu o episódio, recomendo fortemente que assista aqui.  

Para dar a resposta à amiga na ocasião, tive que unir minha formação de jornalista (que entende o bicho feroz que é a comunicação) à de gestor de negócios. Disse que ela deveria parar de se posicionar politicamente nas redes sociais imediatamente.  

Ela ficou surpresa – e talvez tenha me achado (e você também) um mau cidadão. Um antidemocrático.  

Mas meu raciocínio é puramente de negócios.  

O uso que ela fazia das redes era: criar conteúdo para chamar atenção para si e com isso: ganhar pacientes, palestras e vender cursos. Se, ao se posicionar politicamente (e aqui independente de qual era o posicionamento), isso estava dando o efeito contrário, ela deveria parar.  

Porque não era sobre a cidadã. Era sobre o CNPJ, a empresa, o negócio. Que era dela – mas que alimentava uma cadeia de pessoas e negócios que ia além.  

Descobri na terça-feira, através da resposta do Creomar de Souza, que eu dei o conselho certo. E reafirmo ele aqui para um ano de eleição num país em que todo mundo parece convicto de que precisa se posicionar sobre tudo o tempo todo. 

A resposta curta é: não precisa.  

Posicionar-se politicamente é tomar risco. E se você é um investidor inteligente sabe que risco só vale ser tomado se houver um retorno consoante na outra ponta da linha. 

Num Brasil dividido ao meio, qualquer posicionamento político significa se posicionar contra metade do país.


O Habib’s, rede de restaurantes, percebeu isso em 2016. Depois de mostrar um posicionamento favorável aos protestos a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff, a rede usou o Ragazzo, uma de suas marcas para lançar a coxinha de mortadela, uma forma de unir dois signos da direita e da esquerda (como eram chamados na época) para pregar a união entre os dois lados polarizados. Não dá para dizer se deu certo ou errado. O gosto da coxinha, lembro, era surpreendentemente agradável. 

O ponto é que você pode tomar seu lado e falar sobre ele como cidadão, se quiser.  Mas como empresa e investidor, será que faz sentido? Não é uma resposta fácil.  

Volto aqui ao competente Creomar de Souza, em seu livro “Gestão de risco político”, recém lançado pela editora Alta Books. Ele diz: “Nem sempre as organizações tem controle sobre variáveis influentes na sua reputação. A vinculação entre a persona de uma liderança e a reputação/imagem de uma organização. […] fundamental para os gestores e tomadores de decisão estarem informados sobre os mais diferentes tipos de ameaças e vulnerabilidades que cercam eles e suas organizações”. 

Daí aqui vão alguns contrapontos doloridos. A gente pode pensar: “ah, mas essa é a minha missão”. É mesmo? Ou só estamos movidos por revolta e uma distorção egoica que nos fazem acreditar que somos mais relevante do que somos? 

Ou ainda: “mas é meu dever como cidadão”. Mas somos mesmo imbuídos de nossos deveres como cidadão (todos) ou só deste porque, afinal, “todo mundo está se posicionando”?

Respondidas essas perguntas, talvez a gente chegue a algum lugar. 

“Poxa, Lepo, quer nos censurar?”. Jamais. Logo eu, um perguntador cuja única coisa que sabe fazer na vida depende da liberdade de expressão.  

Volto ao professor Creomar e seu livro. “Estar disposto a ouvir os argumentos das outras partes é indispensável. Combinar interesses não significa consenso. A essência da política é a convivência com a divergência. […] É impossível fugir da política. Quanto antes aprendermos a usá-la para nos proteger, menos danos ela pode nos causar.”

Daí, vale repetir a platitude que coloquei no título dessa newsletter: há risco no risco.  Estamos cientes?

Um abraço, Leopoldo Rosa.

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Leopoldo Rosa
Por Leopoldo Rosa

Leopoldo Rosa é COO do Market Makers. Jornalista com MBA em Mercado de Capitais pela UBS/B3 e em Gestão de Negócios pela Fundação Dom Cabral. Tem passagens por Globo, CBN, CNN e Abril.

leopoldo.rosalino.ext@mmakers.com.br