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A morte clássica é uma morte coletiva
Uma reflexão sobre como a sociedade se tornou mais individualista e como isso afeta a política e o debate público.
Olá, olá, tudo bem?
Estou fascinado pela minha leitura atual. Trata-se de “O sentido da vida”, último livro publicado por Contardo Calligaris, psicanalista ítalo-brasileiro, que morreu em 2021. O título do livro é autoexplicativo a respeito da reflexão que ele propõe. E uma das coisas que o autor mais fala é sobre o quanto nos tornamos uma sociedade individualista.
Calligaris explica que à luz da filosofia, o coletivo sempre importou mais que o individual e que a vida como valor supremo (ou seja, aquilo que vale mais do que todas as coisas) surge muito recentemente, no último século da história. Até então, seus valores eram medidos por aquilo que você estava disposto a morrer. Ou seja, uma “causa” era seu valor supremo quando você estaria disposto a morrer por ela. Sua família era o valor supremo quando você estaria disposto a morrer por ela.
Hoje, o entendimento é outro: não mais “daria minha vida por isso”, mas o oposto “daria tudo para me manter com vida”. Menos coletivo, mais individual. A morte, como a vida, também muda de significado. Se torna algo menos coletivo e mais individual. O autor usa como explicação a morte de Sêneca, um dos mais importantes filósofos de Roma, que tira a própria vida “a mando” de Nero. A morte de Sêneca ficou retratada num quadro (abaixo) e mostra que ele morre ao lado de seus amigos, num ato coletivo de despedida.
Meu fascínio sobre essa discussão avança para a política. Num ano em que vamos eleger nossos potenciais novos governantes, toda discussão deveria partir de um lugar coletivo: o que é melhor para a nação, o que fará o país ganhar mais. Mas é difícil ter essa discussão na era moderna (a que vivemos) dominada pelo peso da individualidade e pelo valor supremo de “salvar a própria pele”.
É motivado por esse desejo que o político costura seu apoio. O empresário faz suas doações eleitorais. O eleitor dá voto num político notadamente ruim. O debate nas eleições é acalorado e polarizado porque quase nunca parte do que é melhor para o coletivo, mas do que é melhor para mim.
No limite, direita e esquerda deveriam querer um país melhor para todos. O que as diferenciaria seria o método, não o objeto.
No fim, o método importa cada vez menos porque o objeto não é comum. A guerra do “nós contra eles” coloca todo mundo na discussão de salvar a própria pele e tira do foco o coletivo.
No livro “O sentido da vida”, Contardo Calligaris não faz nenhum juízo de valor sobre essas questões. Ao contrário, ele se admite como alguém do pensamento de que “sua vida vale mais”, pelo simples fato de ter nascido na época em que nasceu. Mas pondera as consequências desse pensamento.
O título desta newsletter “a morte clássica é uma morte coletiva” é uma frase que ele usa para sumarizar o pensamento. A ideia de que nascemos sozinhos e morremos sozinhos é nova. E, talvez, assim como eu, você prefira os clássicos.
Você pode ver mais sobre o livro neste link.
Um abraço,
Leopoldo Rosa