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Não tem meia conversa entre a gente
Áudios entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro abalam o mercado e reacendem debate sobre a sucessão da direita em 2026
Quarta-feira à tarde, reunião das lideranças do Market Makers para criarmos a agenda de uso de AI na nossa empresa. O celular estava no silencioso pra não atrapalhar, mas percebo pela quantidade de notificações na tela que algo estranho estava acontecendo no mercado.
Foi o momento que saiu a notícia da Intercept divulgando os áudios das conversas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.
Fim do treinamento para mim. Tira o jaleco de CEO do Market Makers, coloca o jaleco de podcaster + analista de investimentos.
Uma quarta-feira como essas nos faz lembrar por que um profissional do mercado não deve cair na cilada de ficar 100% do seu tempo ocupado de forma a obter o máximo de eficiência. Notícias como essa “são raras, mas acontecem com frequência” e óbvio que se tornarão prioridade para qualquer investidor.
Assim que a notícia corre os grupos de Whatsapp, já vemos o Ibovespa derreter, o dólar disparar para R$ 5,00 e o Polymarket indicando queda de 12 pontos nas apostas de Flávio tornar-se presidente.
Mas… será que era pra isso tudo mesmo?
Aproveitarei a liberdade poética que meu cargo de “CEO da minha própria empresa” concede para responder uma pergunta polêmica:
Uma possível desistência da candidatura de Flávio Bolsonaro deveria ser uma má notícia para os mercados?
Entendo a reação inicial e passional do mercado: como Flávio era o adversário óbvio de Lula num 2º turno, uma notícia como essa diminui drasticamente as chances de vencer uma disputa com o atual presidente. E como o mercado não quer viver um Lula 4, a resposta à notícia foi “Bye, Brazil”.
Mas não acho que essa reação seja a mais racional: essa notícia pode ter um viés mais otimista do que pessimista, na minha opinião.
Ora, se o estrago de uma notícia dessas na candidatura de Flávio Bolsonaro for irreversível a ponto de ele desistir ou ser impedido de disputar a candidatura presidencial, o que acontece com os 25%-30% dos votos estimados para ele no 1º turno? Duvido que seja pro Lula.
Ou seja: a não candidatura de Flávio automaticamente trará um novo candidato para enfrentar Lula (assumindo aqui que Lula não terá como ganhar no 1º turno).
E quem herdaria esses votos: Renan Santos? Caiado? Zema? Algum outsider?
(Enquanto escrevo, saiu a notícia de que Joaquim Barbosa se filiou ao DC para disputar a presidência no lugar de Aldo Rebelo. Ah, e sempre há um sopro de incentivo ao Luciano Huck).
Seja quem for, provavelmente este candidato terá uma rejeição muito menor do que a do Lula. Isso se traduzirá em votos? Não sei, mas certamente não jogaremos o jogo do “quem é menos rejeitado”, que já vimos em 2022 e se desenhava para 2026.
A minha percepção é que a maioria dos brasileiros não aguenta mais esse ambiente de polarização. Como o Felipe Nunes resumiu em sua vinda ao Market Makers: ninguém aguenta jogar uma final de campeonato todo dia, é desgastante demais.
A transferência dos votos de Flavio Bolsonaro para um outro candidato da direita poderia oxigenar essa disputa e trazer mais racionalidade para o debate.
Já trouxemos alguns pré-candidatos ao Market Makers neste ano, tanto da direita (Romeu Zema e Renan Santos) quanto da esquerda (Aldo Rebelo). Independente da corrente ideológica, pudemos discutir ideias para o Brasil nestes podcasts. E convenhamos: tanto Lula quanto Flávio pouco ou nada trouxeram de ideias do que pode ser o Brasil em 2027.
Por isso, o grande risco desta bomba envolvendo Flávio e Vorcaro, na minha opinião, é que ela não seja suficiente para tirar Flávio da corrida presidencial.
Isso porque ele claramente está mais fraco hoje do que estava semanas atrás, quando as pesquisas de 2º turno já mostravam uma relativa vantagem a favor dele. O telhado de vidro dele rachou e numa batalha de rejeições, isso pode ser vital.
Se Flávio sair da disputa, um novo candidato com menor rejeição poderá herdar seus votos – assim como o próprio Flávio herdou os votos de seu pai – e ser até mais competitivo contra um também rejeitado Lula.
Ou como perfeitamente resumiu meu amigo João Braga no Twitter:
Se o impacto [da notícia na candidatura de Flávio] for ruim, é péssimo. Mas se o impacto for muito ruim, é ótimo.

Estou sendo ingênuo demais? Bom, num país em que ainda tem gente que defende a agenda econômica do Lula ou defende os atuais desvios de conduta da família Bolsonaro, até que minha ingenuidade está aceitável.
A lembrar: esta quarta-feira de queda da bolsa e alta do dólar por conta dos áudios entre Flávio e Vorcaro ficou conhecida como “Flávio Day 2.0”. O primeiro “Flávio Day” foi ano passado, quando Jair anunciou que seria o 01, e não Tarcísio, o seu candidato à presidência. O que aconteceu com o Ibovespa e o dólar naquele dia?
É… o mercado se diz eficiente, mas às vezes é difícil de entendê-lo.