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Eu vim do passado e trago uma novidade: os fundos multimercados não vão acabar
Os hedge funds já foram considerados uma classe "morta" nos EUA após anos de baixo desempenho. Mas o tempo mostrou que a narrativa era simplista — e essa história pode se repetir no Brasil.
Virou lugar comum falar mal de fundo multimercado. Todo mundo tem uma opinião negativa para a classe: “esses gestores perderam a mão, ninguém mais bate o CDI, é questão de tempo até o dinheiro migrar todo pra renda fixa isenta”… pronto, fim da linha.
Foi justamente por isso que trouxemos na capa da última THE REPORT (a revista mensal do Market Makers) uma reportagem especial sobre o assunto: fomos atrás do que é verdade e do que é mito nessa história toda. Ouvimos CIOs, gestores de FOFs, sócios de multimercado, enfim, gente de dentro e de fora da indústria. Foi bem legal conseguir trazer um contraponto técnico aos vários argumentos fervorosos porém ausente de evidências.
Mas olha que coisa engraçada que aconteceu: no dia seguinte que publicamos a THE REPORT, conheci um cara que me trouxe um ponto de vista ainda mais profundo sobre esse debate. Ele trabalha há quase 20 anos na indústria de fundos e em 2016 foi mandado para os EUA pela empresa que ele trabalhava para se aprofundar na indústria de lá.
Uns chamariam de coincidência, embora eu tenha uma visão mais exotérica para encontros como esse. Mas isso não vem ao caso para esta coluna, pois o importante mesmo é o que este sujeito (que vou manter propositalmente em anônimo) me contou.
SPOILER ALERT: basicamente estamos vivendo aqui no Brasil uma versão americana da discussão que existia 10 anos atrás por lá.
2016: o ano em que os hedge funds “acabaram” nos EUA
Quando este rapaz chegou em 2016 em terras americanas, os hedges funds apresentavam uma performance ruim, consistentemente ruim (a tabela abaixo evidencia isso). E a narrativa que se formou em cima disso era exatamente a mesma que ouvimos hoje sobre os multimercados brasileiros: eles perderam a mão. Ou acabou o alfa. O futuro são os fundos passivos. Você não precisa mais de gestor ativo, é só comprar um ETF de S&P 500, porque “bater o mercado” virou uma habilidade extinta.
Veja a performance do índice de hedge funds contra o retorno da treasury americana de 3 meses, entre 2011 e 2018. Ou seja: o investimento mais “papai com mamãe” do mundo superou os sofisticados e imponentes hedge funds numa longa janela de 7 anos.
Outro número feio que ajudava a sustentar essa tese: Warren Buffett fez uma aposta pública, em 2007, de que um ETF de S&P 500 “sem gestão nenhuma” bateria uma cesta de hedge funds ao longo de 10 anos. Quando a aposta terminou, em 2017, o resultado foi humilhante: o S&P rendeu em média 14,4% ao ano contra 5% dos hedges funds.
O próprio CFA Institute publicou um paper chamado, sem ironia nenhuma, “Hedge Fund Performance: End of an Era?”, mostrando que entre 2008 e 2016 os hedge funds ficaram atrás até de uma carteira simples, metade em ações e metade em renda fixa.
Enfim, foi um período tão duro que várias gestoras de hedge fund simplesmente deixaram de existir. Em 2015, 979 fundos encerraram suas atividades, o pior ano desde a crise de 2008. Em 2016 foi pior ainda.
Uma outra evidência: em 2014, o Calpers — maior fundo de pensão dos EUA — zerou toda a sua posição em hedge funds, de US$ 4 bilhões, citando custo e complexidade como justificativa oficial. Foi manchete em todo lugar: se o maior alocador institucional do país estava batendo em retirada, quem discordaria que a categoria tinha acabado?
Só que não foi isso que aconteceu.
Voltando pro Brasil…
Junta isso com o que trouxemos na THE REPORT desta edição, e o quadro fica bem mais nítido do que no discurso de bar sobre “multimercado tá morto” sugere.
Sim, março foi um dos piores meses da história desta indústria e em um momento já bastante ruim. Sim, tem gestora com modelo de decisão ultrapassado. E sim, está cada vez mais difícil justificar investimento nesta classe num mundo com renda fixa isenta de IR, pagando muito bem e protegida pelo FGC.
Mas nada disso é sinônimo de “vai acabar”. É sinônimo de “precisa se atualizar” — o que é uma conversa completamente diferente.
A história americana de 2016 é basicamente isso: os sobreviventes saíram do outro lado maiores e mais sofisticados do que nunca. Os multimercados brasileiros estão exatamente na parte do filme em que todo mundo acha que já sabe o final.
Eu não sei se vai ser igual. Mas duvido que a resposta seja “vai acabar”. A resposta mais provável é: os bons vão se sofisticar, os ruins ou desatualizados vão morrer — e essa distinção sempre existiu, em qualquer indústria, em qualquer década.
Se você quer entender melhor esse antes e depois — o que a indústria brasileira está errando, o que já está fazendo certo, e pra onde ela devia estar olhando — a reportagem completa já está disponível na edição desta semana da THE REPORT.
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Forte abraço, Thiago Salomão.