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O passado não é mais incerto. Ele é mentiroso
O historiador, escritor e comentarista econômico britânico Niall Ferguson alerta para o poder de podcasts e da IA na propagação da desinformação.
“O Niall [Ferguson] pode usar uma roupa mais informal?”, perguntou Pedro, o brasileiro que trabalha com Niall, minutos antes da nossa entrevista começar.
“Olha, eu não sou parâmetro, mas estou com uma polo da minha empresa e uma calça verde. Venha como quiser”, respondi, sem imaginar que ia presenciar minutos depois um Niall de camiseta básica da universidade que ele criou, um jeans básico e… um crocs verde.

Pronto. Todo meu nervosismo pré-entrevista transformou-se em “não tem como esse cara não ser gente boa!”. Falamos sobre punk rock e o apreço dele ao Ramones, falamos de futebol e como isso o conecta com seus filhos. Que conversa divertida…
Mas, infelizmente, essa foi a única parte “divertida” da conversa. O teor da entrevista foi zero animador.
O resultado você confere na entrevista que vai ao ar nos próximos dias, mas nesta CompoundLetter focarei no tema que mais me impactou – e que inclusive foi abordado por Niall no texto “The Death of History”.
O texto me impactou pois ele conta como o “boom dos podcasts”, somado com a Inteligência Artificial está conseguindo mudar o passado, transformando mentiras históricas em verdades – e como ele, na figura de historiador, fracassou nesse combate.
Niall escreveu com John-Clark Levin, um pesquisador de IA bem mais novo e mais mergulhado em tecnologia, justamente pra explicar o que o próprio Niall demorou a entender: por que, dessa vez, a verdade não está vencendo o debate como venceu em todas as outras vezes na história.
O texto conta que, até uns 15 anos atrás, negar o Holocausto era coisa de gente marginal publicando panfleto malfeito em porão de subúrbio. Mas lá pro final de 2010, algo mudou no mundo, com a explosão de podcasts. E por que isso?
Porque o negacionismo antigo dependia de fingir seriedade acadêmica (o que, convenhamos, era fácil de ser desmontado). Já esse novo formato aposta tudo no carisma de câmera: basta um cara legal num cenário bonito com 3 horas de conversa solta e, de repente, planta-se uma opinião revisionista gravíssima. E as pessoas não questionarão isso pois 99% de quem assiste já comprou o personagem antes de ouvir o argumento.
Pronto: criou-se uma nova verdade. O podcast, nesse sentido, passa a ser a forma ideal para reciclar uma mentira antiga com roupagem de conversa despretensiosa entre amigos.
Nisso aí, a Inteligência Artificial entra como um grande aliado. Se antes o podcast já rodava solto em suas longas conversas, a IA entrou pra acelerar tudo com cortes em clipes de poucos segundos, com os requisitos necessários para terem maior engajamento. Sabendo jogar o jogo do algoritmo, você consegue grandes proezas (somos prova viva aqui no Market Makers).
“Ok, Salomão, mas isso é problema de historiador. O que isso tem a ver comigo, que só quero entender de bolsa?”
Ora, se você está lendo esta newsletter, certamente você é um dos mais de 3 milhões de espectadores únicos que passam pelo nosso podcast mensalmente. Como não pensar que a forma como você consome o podcast não pode ter influência na sua vida de investidor?
Niall e Levin enxergam esses vídeos de ódio como jogar lixo na rua: sozinho não parece nada, mas multiplicado por milhões de pessoas, suja o ambiente todo. A solução, então, seria apenas a sociedade para consumir estes vídeos.
Mas como saber se estamos nos informando de “verdades” ou se estamos seguindo a horda das mentiras?
O alerta de Niall me fez redobrar uma preocupação que eu já tinha: a da importância de selecionar bem quem se sentará em nossa bancada.
Felizmente somos vistos por milhões de pessoas hoje em dia, mas isso ao mesmo tempo nos traz uma responsabilidade enorme para manter o padrão de qualidade que nos trouxe até aqui.
Isso não significa apenas trazer pessoas que eu confio ou que eu concordo com a opinião delas. Quem conhece o Market Makers sabe o quanto valorizamos ouvir quem pensa diferente e debater com elas.
Ter o interesse genuíno em aprender com nossos convidados nos mantém humildes para escutá-los mas ao mesmo tempo ligados para questionar algo que não entendemos ou que não faz sentido.
Porque se o Niall está certo — e eu acho que está —, a saída não é esperar a plataforma consertar o algoritmo. É cada criador e cada ouvinte decidir, individualmente, o que vale a pena amplificar.
No mercado financeiro brasileiro, temos exemplos de sobra disso: dos mais inocentes “use fundo de crédito para apimentar a reserva de emergência” até os trágicos “Conga é 15 e Vara é 30”.
Por hoje fica a pergunta: quando foi a última vez que você confiou em alguém só porque ele tinha carisma de câmera — e não porque tinha argumento?
E se você leu esta newsletter até o final, te peço um favor: quando o episódio com Niall Ferguson for ao ar, deixe um comentário lá no vídeo sobre o que achou, pode ser?
Te garanto que o papo ficou bom. Quem disse isso foi o próprio Niall:

Forte abraço, Thiago Salomão.