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Um corpo boiando no criptoverso, capítulo 2

Há uma semana o corpo da FTX apareceu boiando na praia do criptoverso. Agora ele começou a cheirar mal

Por Renato Santiago

17 nov 2022 11h53 - atualizado em 17 nov 2022 04h03

Texto originalmente publicado na CompoundLetter, a newsletter do Market Makers. Inscreva-se na newsletter gratuitamente deixando o seu e-mail aqui

“Nunca existe uma barata só na cozinha”
— Dan McCrum, repórter investigativo especializado em fraudes financeiras

Na semana passada o ecossistema de criptoativos testemunhou o aparecimento de mais um corpo boiando em suas praias. E não era qualquer um: era o de uma das maiores e mais exuberantes baleias já vistas nesta indústria, e que gostava de dar grandes saltos e piruetas para o público.

A FTX, então terceira maior exchange (corretora de criptoativos) do mundo, tinha Gisele Bündchen e Tom Brady como garotos-propaganda e batizava com sua marca um ginásio da NBA. Seu fundador havia estampado a capa da Forbes e frequentava recantos exclusivos de Washington graças a suas doações eleitorais. Inclusive a SEC, a CVM americana.

Mas bastou que a FTX precisasse mostrar energia para fugir de um predador para que todo mundo percebesse que aquela baleia, na verdade, estava muito doente. A empresa pediu recuperação judicial no dia 11, graças ao que contamos em detalhes aqui.

O que já se sabe

A FTX havia sido fundada e era até a semana passada controlada por Samuel Bankman-Fried, conhecido com SBF, que também havia fundado a Alameda, um fundo de criptoativos altamente especulativo. Até o ano passado, ele era concomitantemente CEO das duas companhias, o que deveria fazer luzes e sirenes de alerta disparar escandalosamente.

Após SBF deixar a Alameda, o comando do fundo acabou nas mãos de Caroline Ellison, sua ex-namorada. Essa relação umbilical entre as duas empresas, aliás, era tão profunda quanto suspeita: relatos da imprensa internacional revelam que as duas companhias eram geridas por dez pessoas que moravam em uma cobertura de US$ 40 milhões nas Bahamas (onde ambas as companhias eram oficialmente constituídas). Alguns deles tinham envolvimento íntimo e pessoal, como já havia sido o caso de SBF e Ellison.

Se nas instituições financeiras tradicionais as chinese walls já são bastante porosas, em uma cobertura habitada por jovens nas Bahamas não seriam mais eficientes. Assim, a FTX emprestou algo entre US$ 8 bilhões e US$ 10 bilhões de clientes para socorrer a Alameda, que havia se alavancado no mercado sem sucesso.

Gisele Bündchen, em anúncio da FTX

No último dia 6 o mercado percebeu que essa promiscuidade de fundos havia ido longe demais, graças a um tuíte de Changpeng Zhao, CEO da rival Binance. Um corrida bancária se seguiu, a FTX interrompeu os saques e admitiu em seguida que estava insolvente. O pedido de falência das duas empresas da SBF saiu no dia 11.

O que se descobriu desde então

Entre a CompoundLetter da quinta passada e hoje, a FTX mudou seu CEO. O ex-bilionário e prodígio SBF deixou o posto, que agora é ocupado por John J. Ray III, nada menos que o liquidante da Enron (empresa pivô de um dos maiores escândalos financeiros dos EUA) . Um dia depois do pedido de falência, a exchange revelou que havia sido vítima de “saques não autorizados” de US$ 515 milhões. Se a empresa sofreu um hack ou se seus antigos controladores roubaram o dinheiro, ainda não é sabido.

Depois de uma semana, o cadáver da FTX está cheirando bastante mal e uma autópsia pública vem acontecendo. E o que já está claro é que a doença que matou essa baleia não tem a ver com cripto, mas com ganância e irresponsabilidade, sintomas que o mercado financeiro conhece desde antes da criação do bitcoin.

Darwinismo tecnológico

O aniquilamento de FTX, Alameda e SBF trouxe prejuízos bilionários não só aos clientes da corretoras, mas também a todos os envolvidos neste mercado. Mesmo quem não mantinha seus fundos na exchange sofre no bolso graças ao clima de desconfiança que se intensificou ainda mais no mercado e derrubou o valor de tudo.

Por outro lado, o atual fiasco é mais um expurgo de irresponsáveis, ingênuos e picaretas. Diz o JP Morgan em um relatório publicado na sexta: “As notícias sobre FTX são um revés, mas que pode catalisar o avanço da regulação (…) e fazer a indústria dar dois passos adiante. O colapso da FTX no momento empodera os criptocéticos, mas é preciso ficar claro que todas as recentes quebras se deram em instituições centralizadas, não em protocolos descentralizados”.

Essa distinção estabelecida no relatório é fundamental. No mercado cripto existem players que funcionam exatamente como no mercado tradicional: são comandados por humanos, que gerenciam seu capital e seu risco da maneira que bem entendem. No caso de todos que quebraram, como Celsius, Voyager, Alameda/FTX, essas pessoas escolheram se alavancar ou emprestaram o dinheiro dos outros a terceiros que se alavancaram e quebraram.

Em muitos desses casos o dinheiro foi perdido, no fim da linha, nos protocolos de DeFi descentralizados, no qual os criptoativos são depositados, geralmente em troca de stablecoins cujo preço é atrelado ao de uma moeda fiduciária, como o dólar.

Esses contratos têm uma característica draconiana: quando o preço do criptoativo cai até um preço pré-determinado, a operação é liquidada e não depende de nenhum humano para executá-la. Está no código.

Veja o gráfico abaixo:

A linha azul representa o preço de Ethereum (ETH) e as linhas abaixo, de outras cores, os volumes, em dólares, liquidados em empréstimos. Note que é nas grandes quedas das linhas azuis que as linhas abaixo saltam. É o dinheiro de players alavancados trocando de mãos.

Criptoativos servem para isso: colocar o consenso computacional, matemático e descentralizado acima de relações humanas e do feeling de gestores. O fato de protocolos estarem passando incólumes pelo inverno cripto enquanto humanos alavancados ficam pelo caminho só podem, portanto, ser um sinal de que o sistema funciona. Mas é preciso que você saiba o que está fazendo.

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Por Renato Santiago

Jornalista, co-fundador do canal Market Makers e do Stock Pickers, duas vezes eleito o podcast mais admirado do Brasil. Passou por grandes redações do país, como o jornal Folha de S. Paulo e revista Exame, e atuou na cobertura de diferentes temas, de cotidiano até economia e negócios. Sua missão, hoje, é a de usar sua expertise editorial e habilidades de reportagem para traduzir o mundo das finanças e mercado financeiro ao grande público.

renato.santiago@empiricus.com.br