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Um corpo boiando no criptoverso

Entenda o colapso da FTX

Por Renato Santiago

10 nov 2022 14h19 - atualizado em 17 nov 2022 12h58

Texto originalmente publicado na CompoundLetter, a newsletter do Market Makers. Inscreva-se na newsletter gratuitamente deixando o seu e-mail aqui

“Se formos a maior exchange, [comprar o Goldman ou CME]
não está fora de questão”
— Samuel Bankman-Fried, ou SBF, fundador da FTX

Toda grande crise financeira tem um símbolo. Um corpo que aparece boiando e depois é empalhado para servir de exemplo aos que vierem em seguida — metaforicamente falando, é claro. Na crise do subprime, em 2008, esse papel coube ao Lehman Brothers, que quebrou devido a uma gestão de risco inconsequente. No inverno cripto de 2022, essa missão educativa agora é da FTX, terceira maior exchange (corretora de criptoativos) do mundo, cujo fiasco já está sendo chamado de “um evento Lehman” pela indústria.

Sim, a história a seguir é mais uma sobre destruição de valor no mercado cripto, mas está longe de ser apenas isso. É uma história sobre irresponsabilidade, falta de transparência, má alocação de capital e, possivelmente, de astúcia empresarial. Vamos a ela.

Origens

Até a semana passada, a FTX era considerada uma empresa excelente, bem administrada e eficiente. Com capacidade de gerar até US$ 100 milhões de receita por dia, na sua última rodada de captação, em janeiro, havia levantado US$ 400 milhões de fundos de venture capital como Sequoia, SoftBank, Temasek e Tiger Global, sendo avaliada em US$ 32 bilhões.

Tudo começou a mudar no dia 2 deste mês, quando o CoinDesk publicou uma reportagem expondo uma situação, digamos, perniciosa. E para entender essa história direito, é preciso estar atento ao seguinte “detalhe”. A FTX é comandada desde sua criação, em 2019, por seu fundador, Samuel Bankman-Fried, o SBF, que também criou a Alameda, uma prop trading (empresa que gere o próprio dinheiro visando ganho de capital, como uma tesouraria de banco) especializada em cripto.

A ligação umbilical entre duas empresas de atividades com interesses tão diferentes e conflituosos sempre gerou algum mal-estar no mercado, sobretudo tendo-se em vista que em uma exchange os ativos não ficam separados por cliente, como em uma corretora tradicional. O texto revelava que grande parte do balanço da Alameda era formado pelo token FTT, um criptoativo emitido pela própria FTX e cujo preço também pode ser controlado por ela. O conteúdo da reportagem estava longe de ser um batom na cueca.

Revelava, sim, que SBF provavelmente havia borrado a fronteira entre os dois negócios que é dono, possivelmente misturando o dinheiro de investidores ao da Alameda. Hoje, a principal suspeita é a de que o dinheiro dos clientes tenha sido usado para salvar a Alameda da falência

O texto ficou no ar por cinco dias, sem grande repercussão. Até que o CEO da Binance, Chengpeng Zhao, o CZ, começou a tuitar.

Batalha

CZ havia sido um dos primeiros investidores da FTX, e, ao desinvestir, recebeu de volta US$ 529 milhões em FTT. No dia 6, no Twitter, ele anunciou que “dadas as mais recentes revelações” sobre FTX, iria se desfazer de seus tokens.

Na sua thread, assoprou e mordeu: ao mesmo tempo que dizia que não se tratava de um ataque a um concorrente, por que a “Binance sempre encoraja a colaboração entre os players da indústria”, decretou a morte da concorrente: “nossa indústria está nascendo, e sempre que um projeto fracassa publicamente, todas as plataformas saem machucadas”.

Foi o necessário para começar uma espécie de corrida bancária na FTX, com saques de milhares de bitcoins (então US$ 600 milhões) e venda desesperada do FTT, que perdeu 90% do valor. Sem reservas e cheio de um token irrelevante, a FTX estava oficialmente insolvente, com um rombo que pode chegar a US$ 8 bilhões, e foi pedir socorro justamente à Binance. A princípio, CZ se comprometeu com a rival, mas horas depois desistiu.

Nos bastidores do mercado conta-se que havia muito mais em jogo do que concorrência por clientes. A disputa entre SBF e CZ também é regulatória. O dono da FTX é um dos maiores doadores políticos nos Estados Unidos e estaria usando a influência que comprou junto ao partido Democrata para fazer passar uma lei que restringiria a atuação da Binance no país.

Para CZ, portanto, tratava-se também de não deixar que outra empresa construísse um fosso para si. Ele jogava duas partidas de xadrez ao mesmo tempo, e ganhou ambas.

Rescaldo

Desde que a saúde da FTX foi posta em dúvida, mais de US$ 50 bilhões em valor de mercado de criptoativos evaporaram. Some-se a isso mais US$ 32 bilhões do valuation da FTX e temos uma destruição enorme de capital e de confiança que podem atrasar a indústria significativamente — investidor escaldado, profissional ou não, tem medo de água fria.

Para a maioria, no entanto, o sentimento é o de que a marcha inevitável dos criptoativos segue, apesar de ter sido mais uma vez foi atrapalhada por um irresponsável que gerou medo, incerteza e dúvida para uma indústria que se vê justamente como a solução para um mercado financeiro tradicional problemático. A esperança é a de que o corpo empalhado (metaforicamente) da FTX se une ao de Luna e Celsius e eduque quem vem atrás.

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Por Renato Santiago

Jornalista, co-fundador do canal Market Makers e do Stock Pickers, duas vezes eleito o podcast mais admirado do Brasil. Passou por grandes redações do país, como o jornal Folha de S. Paulo e revista Exame, e atuou na cobertura de diferentes temas, de cotidiano até economia e negócios. Sua missão, hoje, é a de usar sua expertise editorial e habilidades de reportagem para traduzir o mundo das finanças e mercado financeiro ao grande público.

renato.santiago@empiricus.com.br