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UM GRANDE ACORDO NACIONAL

E se muitos dos acordos que sustentam a nossa sociedade já não fizerem mais sentido? A partir do livro What We Owe Each Other, o texto discute os contratos sociais que estamos deixando para trás — e os novos que ainda não conseguimos construir.

Leopoldo Rosa

Por Leopoldo Rosa

02 Oct 2026 10h00 - atualizado em 07 Oct 2026 12h44

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Em What We Owe Each Other (“O que devemos uns aos outros”, em tradução livre), a economista Minouche Shafik, que dirigia a London School of Economics quando escreveu o livro, defende a importância dos contratos sociais: os pactos que permitem que uma sociedade avance coletivamente.

Para ela, as mudanças econômicas, demográficas e tecnológicas pelo mundo estão corroendo esses pactos, e a saída é redesenhá-los para que reflitam o mundo em que vivemos hoje.

“As normas e as regras que estabelecem como essas instituições coletivas operam é o que chamarei de contrato social, que acredito ser o determinante de maior relevância no tipo de vida que levamos”, escreve.

Recentemente, em conversa com Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da OMC, no Market Makers (assista aqui), ficou claro como os pactos globais do pós-guerra envelheceram. Organismos como ONU, OMS e OMC perderam relevância, entre outros motivos porque nasceram da lógica de uma Europa que não existe mais e que também perdeu peso no mundo.

Aqui no Brasil, questionamos o tempo todo pactos que já estavam firmados, como a vacinação infantil, a laicidade do Estado e o sistema de freios e contrapesos entre os Três Poderes. Ao mesmo tempo, resistimos a firmar os pactos novos de que precisamos.

A previdência social é um pacto coletivo: os mais jovens trabalham e financiam o sustento dos mais velhos. Com a mudança demográfica acelerada do país, essa conta não fecha mais, nem depois da reforma de 2019.

A CLT é um contrato social que virou lei. Mas também soa anacrônica na era da uberização, do empreendedorismo e das discussões sobre equilíbrio entre vida e trabalho. Ainda assim, não construímos nenhum acordo novo que a substitua e atenda a todas as partes.

A destinação do orçamento público também é um pacto. Existe uma anuência tácita de que não se mexe na verba da saúde, da educação e da segurança. Mas num país que envelhece mais rápido do que nasce, a educação precisa receber a mesma fatia de quando a pirâmide etária era outra? Esse novo cenário não traz novas necessidades?

Até o ajuste fiscal, tema de dez entre dez mesas da Faria Lima, poderia ser um pacto coletivo. A sociedade pode concluir que cortar gastos do governo traz um benefício tão grande no longo prazo que vale aceitar algum sacrifício hoje em nome do futuro.

O que o livro de Shafik talvez não cubra, e que outras leituras como Modernidade Líquida, do sociólogo Zygmunt Bauman, ajudam a completar, é que a dificuldade de firmar pactos não está só nas transformações da sociedade. Está também no indivíduo. Estamos cada vez mais voltados para nós mesmos. A velha lógica brasileira do “farinha pouca, meu pirão primeiro” virou transnacional. As relações, a preocupação com o outro e a ideia de colocar o coletivo acima do individual estão se enfraquecendo na busca por protagonismo pessoal.

Como firmar pactos numa sociedade que não dialoga fora da própria bolha? Que desqualifica de saída quem pensa diferente? Que só enxerga a si mesma como o que importa?

Quando falamos de economia, falamos de tudo isso. E temos falado pouco.

Em tempo: o livro citado no início tem edição em português, Cuidar uns dos outros, da Intrínseca.

Um abraço,

Leopoldo Rosa

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Leopoldo Rosa
Por Leopoldo Rosa

Leopoldo Rosa é COO do Market Makers. Jornalista com MBA em Mercado de Capitais pela UBS/B3 e em Gestão de Negócios pela Fundação Dom Cabral. Tem passagens por Globo, CBN, CNN e Abril.

leopoldo.rosalino.ext@mmakers.com.br