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O PECADO MORTAL

Uma história de bastidores sobre ingenuidade, risco e as lições que a vida, e o mercado, ensinam quando você menos espera.

Leopoldo Rosa

Por Leopoldo Rosa

18 Sep 2026 10h00 - atualizado em 28 Sep 2026 04h17

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Um prólogo:

era meu primeiro plantão de fim de semana como repórter de rádio, na CBN. Minha pauta era uma operação policial que pretendia retomar uma área ocupada por pessoas sem teto numa favela de São Paulo. Quando eu cheguei lá, a polícia ainda não tinha chegado, era um morro alto e imenso. Na entrada, um homem com uma arma enorme, visível na cintura me recebeu. Olhou meu crachá, minha cara e disse: “você é de onde?”. “Da CBN”, respondi. “Então pode subir, se for alguma coisa da Globo a gente não deixa subir”.

A CBN é do Grupo Globo. Eu não disse nada, subi. E vi uma ocupação que, na verdade, era usada como ferramenta para o tráfico e o crime organizado e não tinha nada a ver com movimentos sociais. 

Fim do prólogo, ele volta ao final em forma de epílogo.

Segundo a Bíblia, há perdão para todos os dez pecados contidos nos dez mandamentos. Aliás, para todos os que surgiram depois da subida de Moisés ao Monte Sinai também. Mas eu me reservo ao direito de não perdoar um único pecado. 

Falei muito sobre ele quando fui, por uma curta temporada, professor numa faculdade de jornalismo. E também para todos os estagiários que já tive na vida. 

Me refiro à ingenuidade. 

É pecado sem perdão a um jornalista que precisa, como core de sua atuação, separar verdade de mentira.

Ao trilhar minha jornada dentro do mercado financeiro, transpus para cá esse ensinamento. Mas o considero ainda mais grave. Um jovem repórter que é tapeado por uma fonte, é um delito que eu colocaria na lista de pecados pagáveis com alguns pai-nossos. Um profissional do mercado que, ingenuamente, é passado para trás por não ter ponderado que estava lidando com uma raposa mais esperta, pode perder alguns milhões. O mesmo com aquele afoito que acredita num ruído e investe nele como se fosse uma certeza incontestável. Aliás, a ingenuidade de quem acredita em certezas absolutas está na minha lista de pecados inafiançáveis. É bonitinho quando você tem 13 anos e acredita que o amor da namorada de colégio é para sempre. É inaceitável quando se tem mais de 30 anos e investe em ações. 

Quando se olha para as histórias dos grandes nomes do mercado, o que se encontra é, além de preparo, inteligência e muito trabalho, esperteza. A história de nomes como Luiz Barsi, seu quase xará, Luis Stuhlberger, de Pedro Cerize, de Florian Bartunek, está repleta de suas inteligências e trabalhos, mas também de esperteza – que não é uma palavra de conotação negativa como o brasileiro às vezes faz parecer. É a esperteza que se opõe a ingenuidade. Vinda muitas vezes da experiência, é verdade. Mas também de saber sentir o momento e usá-lo a seu favor. 

Assim também na história de empresas. A Blockbuster cometeu criminosa ingenuidade ao achar que a experiência de ir à locadora era tão essencial ao espectador de filmes que era insubstituível. Quebrou quando a realidade soprou à sua porta – e a derrubou tal qual o lobo mau e os três porquinhos. 

Por outro lado, o Magazine Luiza teve seus anos de ouro quando percebeu e agiu rápido diante da demanda por comércio on-line em meio às restrições da pandemia. 

Epílogo

No meu primeiro dia de plantão, aprendi algumas coisas sobre ingenuidade. Eu não podia assumir para o homem que era da Globo. Poderia ser impedido de subir e morto antes de voltar pro carro. Ser honesto, ali, seria uma ingenuidade potencialmente mortal. Também não podia voltar pra redação e dizer que acompanhei apenas uma desocupação de área. O homem armado sinaliza algo sobre aquele cenário, sobre quem domina ali e de quem são os interesses envolvidos. 

Uma pessoa ingênua pode até ser “só” uma pessoa ingênua. Mas ela pode também ser a isca que alguém precisa para destruir um negócio, um investimento, uma ideia e, no limite, uma vida. 

Há pecados que só são permitidos aos pequenos. Vida de adulto tem menos chances de perdão. 

Um abraço,
Leopoldo Rosa

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Leopoldo Rosa
Por Leopoldo Rosa

Leopoldo Rosa é COO do Market Makers. Jornalista com MBA em Mercado de Capitais pela UBS/B3 e em Gestão de Negócios pela Fundação Dom Cabral. Tem passagens por Globo, CBN, CNN e Abril.

leopoldo.rosalino.ext@mmakers.com.br